"COMO SERIA O MUNDO SE TODAS AS PESSOAS COMEASSEM A GASTAR
CINCO MINUTOS DE SEU TEMPO UMAS com AS OUTRAS?"

Valria Piassa Polizzi resolveu nos dar mais do que cinco minutos de seu tempo.
Consciente de que, por falta de informaes adequadas contaminou-se com o HIV em plena
adolescncia, decidiu escrever Depois daquela viagem, seu alerta autobiogrfico para que
muitos outros jovens no se exponham s mesmas conseqncias da desinformao, no s
em relao s formas de contaminao, mas tambm em relao ao que  hoje viver com
AIDS. Somos ento levados a repensar vrios conceitos j supostamente estabelecidos.

O primeiro deles  o preconceito. Nos Estados Unidos, onde foi estudar ingls, Valria
entrou em contato com pessoas de diferentes cores e etnias. Ela chega a invejar uma amiga
negra, cujo alvo de discriminao ficava  flor da pele: "Mais difcil do que ter o vrus da
AIDS era ter que fingir que no tinha".

O segundo fator a ser revisto  o tempo: de que forma viver um simples detalhe do

cotidiano.
Depois daquela viagem

Dirio de bordo de uma jovem
que, aprendeu a viver com AIDS

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tambm estar contribuindo com
a instituio CASA VIDA que
cuida de crianas com AIDS.
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2831.

dcima oitava edio

stima impresso

editora tica

Depois daquela viagem
VALRIA PIASSA POLIZZI
Editor
NELSON DOS REIS
Editor-assistente
ANTIVAN GUIMARES MENDES
Composio
JOS APARECIDO A. DA SILVA
Reviso
MRCIO GUIMARES DE ARAJO
Ilustrao
Ml ADAIRA
Paginao eletrnica
G&C ASSOCIADOS
Projeto grfico, direo de arte e capa
ISABEL CARBALLO
IMPRESSO E ACABAMENTO

YANGRAF^f,
EDITORA AFILIADA
ISBN 85 08 06771 2
2002

Todos os direitos reservados pela Editora tica
Rua Baro de Iguape, 110 - CEP 01507-900
Caixa Postal 2937 - CEP 01065-970
So Paulo-SP

Tl.: (XX) 11 3346-3000 - Fax: (XX) 11 32774146 Internet: http://www.atica.com.br e-mail:
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Sumrio
Muito prazer 7
1. Um navio, um naufrgio 9
2. Um cctus seco e cheio de espinhos 16
3. Click! O tempo parou 31
4. A. You 'r wdcomel 54
5. Um peixe fora Dgua 70
6. Banana com Coca-Cola 86
7. "AIDS mata!" Eu sei, porra, mas eu estou viva! 99
8. Todo mundo devia subir no Empire State Buildmg 118
9. Brother, you'r right. We'regontiafigbtforourright<)! 140
10. A Teoria Dos Livros 157
11. Carpe diem 165
12. Minha terra tem hortnsias... 197
13. Eu sou gente! 218
14. Para isso servem os anjos 245
15. Mos de tesoura 270
Eplogo 279
Muito prazer
J devia ter comeado a escrever h algum tempo mas, como escrever sobre a vida da gente
no  nada fcil, vivo adiando. Ainda hoje me ligaram a Priscila e o Cristiano, e os dois me
cobraram:

-- J comeou a escrever o livro?

No. E j teria desistido se na semana passada no tivesse ido na Sylvia e, por coincidncia
ou sei l o qu, ela tivesse dado a mesma idia: escrever. Eu disse que j havia pensado
naquilo, s que achava muita responsabilidade.

-- No escrever tambm  -- ela respondeu. E isto no saiu da minha cabea a semana
inteira.

Para comear, deixe me apresentar. Meu nome  Valria, tenho 23 anos, altura mdia,
magra, morena, cabelos pretos e lisos. Neta de italianos, filha de pais separados,
pertencente  classe mdia alta. Como voc pode ver, uma pessoa comum, ou pelo menos 
assim que eu gostaria de ser vista. E tenho certeza
7
de que assim todos me veriam, no fosse um pequeno detalhe: sou HIV positivo. Sabe o
que isto significa?  isto a, tenho o vrus da AIDS. Assustou? No me diga que teve
vontade de largar este livro e ir correndo desinfetar as mos, com medo de ser
contaminado. Tudo bem, no precisa entrar em pnico, no  assim que se pega. Pode at
ler de novo: A-I-D-S, AIDS! Viu? No aconteceu nada. Ainda que eu estivesse a do seu
lado, voc pegasse na minha mo, me desse um beijo e um abrao e dissesse "muito
prazer", eu responderia "o prazer foi todo meu", e isso no lhe causaria dano algum.

Podemos continuar? Ento, continuemos. Voc deve estar se perguntando agora como foi
que isto aconteceu e aposto que deve estar imaginando que eu sou promscua, uso drogas e,
se fosse homem, era gay. Lamento informar que no  nada disso e, mesmo que fosse, no
viria ao caso. Mas acontece que eu era virgem, nunca tinha usado drogas e obviamente no
sou gay. O que aconteceu ento?  simples, transei sem camisinha.
8
1. O naufrgio
No Natal de 1986 eu tinha quinze anos e estava fazendo uma viagem de navio para a
Argentina com meu pai e minha irm, que  trs anos mais nova do que eu. O navio era
lindssimo, cheio de salas, bares, restaurante, cassino, piscina e show todas as noites. O
ambiente era estritamente familiar, muitas vovs, crianas, pais e mes, todo mundo
passando o Natal junto, na maior calmaria. Piscina pela manh, um jantar de gala  noite e,
durante a tarde, uma volta pelas dependncias do navio. E foi numa dessas, um belo dia,
que eu vi um cara tropeando. No auge dos meus quinze aninhos, no pude resistir e dei
uma risadinha. Ele deve ter achado que eu estava rindo para ele, e no dele, e correspondeu
com um sorriso. Depois disso, a gente se cruzou mais algumas vezes e, quando o navio
atracou em Buenos Aires, ele veio falar comigo. Fiquei sabendo que estava
terminando a faculdade de educao fsica, gostava de surfar, estava viajando com os pais
9
e tambm morava em So Paulo. A gente continuou se vendo e, nessas de papo vai papo
vem, eu j estava perdidamente apaixonada. Depois que ele me beijou ento, nem se fala.
... Papai Noel havia me dado um presente e tanto!

A viagem acabou, trocamos telefone, endereo e ficou combinado que nos veramos em
So Paulo. Dois dias mais tarde, ele me liga. Eu estava indo para Corumb passar o resto
das minhas frias na casa de meus avs. Ele vinha me ver antes disso. Me arrumei toda e
fiquei sentada, esperando. O corao batendo forte, cheio de ansiedade. Sete horas, oito
horas, nove horas, nada. Dez horas, meu pai resolve se manifestar:

-- Filha, acho melhor voc ir dormir, porque ele no vem.

Vem, sim, pai

Onze horas, j com os olhos cheios de lgrimas, vou para o quarto. Ouo minha irm dizer
da sala:

-- Tadinha... ... o primeiro fora a gente nunca esquece.

Nada como a casa da v nas frias, cheia de gente. Rever os primos, novos amigos, festinha
toda noite e uma pracinha com vista para o rio, onde a turma se rene. Assim  minha doce
Corumb, uma cidadezinha em Mato Grosso do Sul, fronteira com a Bolvia, capital do
pantanal.

Estava tudo muito bem, eu at j havia esquecido o ocorrido, quando um dia ele me liga.
Ser? No  possvel, estou sonhando. Mas no  que era mesmo? Conversamos um pouco,
ele deu uma desculpa esfarrapada sobre aquele dia e pediu que eu ligasse quando voltasse.
Eu liguei e a gente comeou a namorar. Ele era legal, me tratava bem e me enchia de
presentes. Vinha na minha casa nos fins de semana, a gente ia numa lanchonete, assistia a
um filme... Um tpico namorinho

10
burgus. Nessa poca eu estava morando com meu pai que, por sinal, no gostava nem um
pouco desta histria. Achava que eu era muito nova para ficar saindo por a com um cara de
vinte anos. Isso porque meu pai no sabia que, na verdade, ele tinha 25 -- era dez anos
mais velho do que eu.

O negcio foi esquentando como em qualquer outro namoro. Ele passou a vir em casa
quase todos os dias e, quando meu pai encrencava, eu corria para a casa da minha me
(ttica tpica dos filhos de pais separados). Foi ento que comeou a surgir um novo
assunto: sexo.

-- Acho que j t na hora da gente transar, afinal j so mais de seis meses de namoro. Eu
no sou mais moleque e j estou me chateando com essa histria.

"E agora, o que  que eu fao? Ser que eu j estou preparada? Se eu no transar com ele,
aposto que vai embora. Talvez ele tenha razo, j est na hora. Bem, deixe-me pensar. O
que eu sei sobre sexo? Tudo, oras, minha me leu pra mim o livro De Onde vm os bebs
quando eu tinha uns cinco anos. Nas aulas de cincias j aprendi sobre o espermatozide, o
vulo, a vagina e o pnis. Na televiso j vi todas aquelas cenas romnticas e at uns filmes
nacionais mais picantes. Pronto, agora  s bater tudo num liqidificador e a est uma
relao sexual."

Os pais dele tinham ido viajar e ns estvamos sozinhos em casa. Ele apagou a luz e
comeou a me beijar.

-- S que eu no quero fazer nada, t?

-- T, t bom.

Ele tirou a minha roupa e a dele tambm. Ficamos nos acariciando quando senti que ele ia
me penetrar.

-- Pra. Voc falou que no ia fazer nada.

-- S um pouco. Prometo que no vai doer.

11
Acabei deixando, acho que mais por curiosidade do que por qualquer outra coisa. De
repente ele parou e saiu de cima de mim. Ser que algum pode me explicar o que  que
est acontecendo?

--  que eu no posso gozar dentro de voc, seno eu te engravido.

 mesmo. Eu tinha esquecido deste detalhe. Quer dizer que j acabou? E isso que  transar?

-- Ih... Voc no vai comear a chorar agora, n?

--  que eu pensei...

-- Pode ir parando que agora j foi.

Ento  isso... Ns j transamos. Mas como pode? Cad o vinho, a lareira? No  nada
daquilo que eu esperava. Pra tudo! Que estranho, que droga, que horrvel! Por que  que
ningum explicou que era desse jeito? E que negcio  este de ficar me lambendo?  isso
que  sexo oral? Poxa vida, outro dia l na escola os meninos levaram uma Playboy e a
gente ficou vendo. No meio de um dos textos apareceu uma nova expresso: "sexo oral".

-- O que  isso, D? -- perguntei pra minha amiga.

--  quando as pessoas ficam gemendo enquanto esto transando.

, Daniele, decididamente ns no entendemos nada de sexo.

Agora voc me pergunta: onde  que estava a camisinha nesta histria toda? E eu respondo:
no estava. Se j existia a AIDS? J, sim, s que era coisa de "viado", de "grupo de risco.
E, alm do mais, segundo meu namorado, camisinha era coisa de "puta". Eu no era "puta";
logo, no precisava de camisinha.

12
O namoro foi continuando e, aos poucos, comecei a me sentir sufocada. J no podia mais
sair com meus amigos, no tinha mais tempo de estudar e cada vez que eu olhava para o
lado era briga na certa. No lembro direito como comeou, s sei que ele passou a me bater.
Um dia era um tapa porque eu havia recebido cartas de um primo; outro dia era um soco
porque eu olhara para outro cara na rua; e no final ele j estava me espancando por
qualquer coisa.

L em casa ningum sabia; ao contrrio, todo mundo achava ele um santo. Eu vivia
nervosa, j no dormia mais. Tentava falar com ele e terminar tudo, mas ele virava um
bicho e me batia ainda mais, depois se arrependia, chorava, pedia desculpas e prometia que
aquilo nunca mais ia se repetir. Durante alguns dias ficava tudo calmo, era difcil acreditar
que era a mesma pessoa. Mas depois comeava tudo outra vez, cada dia mais violento,
ameaava matar meus pais e depois queria transar.

-- Voc nunca vai ficar livre de mim, eu posso at ir para a cadeia, mas quando sair venho
atrs de voc e te pego. com dinheiro e influncia, ningum fica preso neste pas por muito
tempo mesmo.

Eu no sabia mais o que fazer, morria de medo de contar pra algum, achava que as pessoas
no iriam acreditar em mim, que meu pai podia ficar bravo... sei l. Eu s queria
desaparecer, sumir, morrer.

At que um dia, depois de um ano de namoro, minha v pegou ele me batendo. Foi
horrvel, um escndalo. Ele comeou a berrar e ameaar todo mundo at que minha me
chamou o porteiro, que subiu e o colocou pra fora.

Ningum acreditou no que tinha acontecido. Poucas horas antes, minha av tinha dito que
ele era um rapaz muito bonzinho e educado. Ningum sabia ao certo o que fazer. Meu pai

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estava viajando, ligamos ento para o meu tio, que tambm no estava. Acabou vindo
minha tia.

A tia Cia  dessas pessoas que chegam e j vo tomando as rdeas da situao. Acalmou
todo mundo e ligou para a casa dos pais dele. Para a nossa surpresa, disseram que aquilo
era supernormal, que eles j estavam acostumados com aquele tipo de ataque, ele at vivia
quebrando a casa inteira. Disseram que ele j tinha chegado l, ameaando-os com uma
faca, mas que j havia tomado uma injeo de calmante e estava tudo sob controle. Meia
hora depois, ele liga pra minha casa e diz as maiores barbaridades. Concluso: a famlia no
havia tomado providncia nenhuma e ele ainda estava solto por a.

Era o ms de maro de 1988 e minhas aulas comeariam dentro de dois dias. Meu tio j
havia chegado e achou melhor nos tirar da cidade por algum tempo. Levou-nos, ento, para
um hotel-fazenda, onde ficamos uma semana. Enquanto isso, aqui em So Paulo, ele
procurou um advogado, e descobrimos ento que a polcia no poderia ajudar muito.

Depois de uma semana, voltamos para casa; afinal, eu precisava ir para a escola, o que no
foi nada fcil. Meus amigos faziam perguntas, onde  que eu havia estado? o que havia
acontecido? Eu no sabia como responder, morria de vergonha daquilo tudo e nunca
contava a verdade. At hoje essa histria me incomoda, tive muita vontade de rasgar todas
essas folhas. Gostaria de nunca ter escrito isso, gostaria de nunca ter passado por isso. Foi
uma fase muito ruim da minha vida, que eu preferia que no tivesse existido.  muito
doloroso lembrar, mas mais doloroso ainda  saber que eu no fui a nica, que isso
acontece com milhares de mulheres todos os dias. E depois de tudo ainda temos que ouvir:
"Acho que voc era meio masoquista", ou "Voc bem que gostava, n?".

14
Durante muito tempo fiquei quieta, achava que eu merecia, que a culpa era minha. Mas
hoje no, e tenho vontade de sair gritando:

-- Ns no gostamos disso. Ns no gostamos de apanhar, no gostamos de ser violentadas
e tambm no gostamos desses comentrios infelizes!

E se voc no for sensvel o suficiente para entender por que neste caso ou em tantos outros
as pessoas optam pelo silncio, por favor, pare de ler este livro.

Ele continuou me perseguindo por mais ou menos um ano. Eram cartas e telefonemas
cheios de ameaas. Houve um tempo em que eu j nem podia ouvir o som do telefone, no
saa nunca de casa sozinha e fiquei sabendo, mais tarde, que meu pai tinha at colocado um
cara para vigiar a porta da escola. Descobrimos tambm que ele usava drogas, e com isso
surgiu a questo da AIDS. Ser? Fazia sentido, um ms antes, ao se candidatar a um
emprego na polcia, ele havia sido reprovado depois de fazer um exame de sangue. Mas
aquilo j era muito para a minha cabea, e eu nem havia falado para os meus pais que tinha
transado com ele. Alm do mais, a AIDS naquela poca era muito rara em mulheres.
15
2. Um cctus seco e cheio de espinhos

Apesar de tudo, eu estava "livre" outra vez. E aquele ano de
1988 foi um dos melhores da minha vida, talvez porque fosse o ltimo da escola, talvez
porque fosse o ltimo sem o fantasma da AIDS. Mas, com certeza, porque mais do que
nunca eu estava perto dos meus amigos e aquilo me trazia uma felicidade enorme. Hoje
passo horas me lembrando de tudo. Da gente sentado no fundo da classe fazendo zona; eu
chutando a carteira da Pri gorda em dia de prova, para ela me passar cola; a D fazendo xixi
na cala quando no conseguia parar de rir; o Cns, magrelo, sempre fazendo palhaada; a
Lumpa, baixinha de olhos claros e cabelo, me perguntando se eu achava que ainda dava
tempo de ela ser uma jogadora de tnis famosa -- detalhe: ela mal sabia pegar numa
raquete. A Renata que estava sempre vendo revista de moda e tinha unha estilo capacete --
esse era o nome que a gente dava para suas unhas comidas at o meio do dedo. O Fabrcio,
gigante de quase dois metros

16
de altura. O Luiz e eu batendo altos papos cabea sobre arte, eu querendo ser atriz e
cineasta e ele, msico. A Gabi e a Mari, as irms mais loucas do colgio, que eram do outro
terceiro ano. Os nerfa, os "cdf", os professores, a viagem ecolgica para Canania, a festa
dos anos 60 que a gente organizou para arrecadar dinheiro para a formatura. Eu e a D
cabulando aula para ir de classe em classe fazer a campanha para vender os convites. A
padaria do outro lado da rua, onde a gente passava o recreio. A "podre", uma lanchonete
onde a gente almoava quando tinha aula  tarde... E por a vai.

Aquele ano tambm era de vestibular, a coisa mais idiota que j inventaram nesse mundo.
No bastasse toda aquela baboseira que a gente precisava estudar, ou melhor, decorar,
tnhamos que decidir aos dezessete anos o que faramos com o resto das nossas vidas.
Ainda me lembro da gente com aquele maldito manual da Fuvest, decidindo com um X
nossa futura profisso. Como se a gente entendesse alguma coisa de profisso. Tnhamos
sonhos,  claro, quer dizer, alguns de ns nem isso tinham. Cansei de ver alguns de meus
amigos sem nenhuma idia do que fazer e, por outro lado, outros cheios de idias, mas que
acabaram no fazendo nada. Acho que foi meu caso.

Desde pequena eu queria ser atriz. Essa histria toda comeou quando eu tinha uns seis,
sete anos. Meus pais haviam se separado, eu e minha irm morvamos com minha me e
passvamos os fins de semana com meu pai. Da ele comeou a levar a gente no teatro
infantil. Era sagrado. Todo domingo assistamos a uma pea nova. Eu adorava, era a maior
farra, principalmente porque meu pai se divertia  bea junto com a gente. Tava na cara que
a maioria dos adultos estava ali por obrigao, mas o meu pai no. Ele sempre saa do
teatro imitando um dos personagens, eu e minha irm caamos

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na gargalhada e aquilo era assunto para a semana toda. Assistimos a vrias histrias e eu
achava tudo aquilo o mximo. Era louca por aquelas pessoas que ficavam em cima do
palco: as roupas, as cores, as brincadeiras... Quando descobri que aquilo era uma profisso,
jurei que seria a minha. Um dia eu seria capaz de alegrar outras pessoas assim como eles
faziam comigo.

Naquela poca eu ainda era uma criana e as pessoas apertavam minha bochecha e diziam:

-- Que gracinha, ela quer ser artista!

S que eu fui crescendo e essa idia nada de sair da minha cabea. Pelo contrrio, cada dia
eu ficava mais obcecada. Lembro-me de que quando minha irm e eu brigvamos ela dizia:

-- Tomara que voc morra!

-- Eu nunca vou morrer, porque o artista  imortal! -- eu respondia.

Megalomanaca eu, n? Acho que eu andei vendo filmes demais.

L pelos meus doze anos, comecei a encher o saco do meu pai que eu queria fazer um curso
de teatro.

-- Voc t louca? Isso l  profisso pra filha minha?

Era difcil de acreditar, nem parecia aquele cara que me levava no teatro. Pronto, a estava
formada minha crise de adolescncia: fazer ou no teatro, eis a questo.

Durante um tempo, ele no deixou mesmo, e eu tive que me contentar com as montagens da
escola. Mas depois acabou deixando, e eu fiz uns cursos que no eram l grande coisa. O
jeito mesmo era esperar acabar o colegial e procurar algo mais srio. Quando chegou o
vestibular, l fui eu fazer mil provas. Era cinema na USP e na FAAP, teatro na EAD e na
Unicamp e jornalismo na PUC. Quase fiquei louca. Houve dias que coincidiram duas
provas, eu tive que sair correndo de uma,

18
atravessar a cidade e fazer a outra. s vezes no dava nem tempo de almoar. Acabei
largando a Unicamp no meio. No final, s passei em jornalismo na PUC, segundo uma
amiga que havia visto meu nome na milsima chamada. Mas, como no era aquilo que eu
queria, fiquei quieta e no contei para ningum, pois quela altura eu j estava com outra
idia: ir para os Estados Unidos.

Hoje me pergunto como minha vida teria sido diferente se eu tivesse feito uma faculdade.
Faltou pouco para eu entrar na USP, passei at pra segunda fase. Mas a s eram quinze
vagas e, infelizmente, o meu nome no estava l quando saiu a lista.  um negcio bem
chato esse, sabe? Voc fica procurando seu nome na lista e depois que l pela dcima vez
acaba se convencendo de que ele no est l mesmo. Da comeo a imaginar quem so os
outros quinze sujeitos que entraram em meu lugar. Quem me garante que eles sero bons
cineastas s porque acertaram mais do que eu em fsica, qumica ou sei l mais o qu? A
vontade que d  ir atrs de um por um, tocar a campainha da casa deles e dizer:

-- bom dia, eu sou a Valria Piassa Polizzi e, por um lapso do destino, voc ocupou o meu
lugar na faculdade. Pois bem, hoje eu estou aqui para averiguar seu desempenho, vai
mostrando a tudo o que voc j fez.

Se ele tivesse feito alguma coisa boa, eu lhe daria os parabns e iria embora. At
recomendaria os filmes dele. Agora, se o cara no tivesse feito nada de bom, ele ia se ver
comigo. Juro que o mataria de remorso. Iria contar toda a droga da minha histria, de como
minha vida tinha se tornado miservel depois de ser reprovada no vestibular, de quo tristes
eram os dias em que eu, sentada no cinema olhando aquela tela branca, chorava lgrimas de
sangue, porque no pude filmar minha obra-prima... Faria um puta drama.

19
Nessa altura, o cara j estaria morrendo de culpa, todo apavorado. Ele pediria mil desculpas
e prometeria ali mesmo que iria rodar seu primeiro filme, e mais, eu seria sua co-diretora.
Isso mesmo, faramos um filme juntos, que seria o maior sucesso de bilheteria dos ltimos
tempos e ento viveramos todos felizes para sempre! Da eu acordei.

No repare, no,  que eu sempre fui assim, meio viajante. Tenho mania de inventar
histrias absurdas quando no consigo achar solues para as coisas. De qualquer modo,
nunca vou saber o que teria acontecido caso tivesse tomado outro caminho. E acho esse
negcio meio injusto. Se eu fosse Deus, garanto que inventaria um jeito: a cada vez que
algum ficasse indeciso, poderia assistir a todas as opes antes de tomar alguma resoluo.
Ou talvez nem precisasse tanto, era s permitir que certas coisas voltassem no tempo
quando dessem erradas. Assim, quando acontecesse alguma coisa ruim, daquelas que do
um aperto no peito, a gente fecharia os olhos e desejaria bem forte. Quando abrisse, teria
voltado alguns segundos no tempo e a coisa ruim teria deixado de existir. Acho que foi
mais ou menos isso que eu quis que acontecesse quando vi meu teste de AIDS.

A maioria dos meus amigos acabou entrando na PUC. s vezes me arrependo de no ter
feito jornalismo l. No por causa do curso em si, mas por causa do tempo a mais que eu
teria passado junto com eles. Sei que pode parecer um motivo meio estranho e sei tambm
que naquela poca eu no pensava assim. Mas as coisas mudam e os valores tambm. S
mais tarde fui descobrir o verdadeiro significado de um amigo.

Finalmente o vestibular acabou e, como eu no sou de ferro nem nada, fui passar as frias
em Corumb. Estvamos no

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incio de 1989 e agora era s esperar fazer dezoito anos, que seria em fevereiro, e j poderia
comear a ajeitar as coisas para ir para Nova York passar uns tempos com a tia Dete, que
estava morando l.

As frias, como sempre, foram timas. Cidade pequena  outra histria. D pra sair
sozinha, andar  noite a p pelas ruas, voltar tarde, sem neurose de assalto, seqestro ou sei
l mais o qu. Tem festa todo dia, a cidade inteira se conhece e, se no, acaba se
conhecendo.

-- Quem  aquele ali, hein?

-- Aquele? Ah!  filho de fulano, neto de sicrano, irmo de beltrano. Tem tantos anos,
mora na rua tal e faz tal coisa -- ficha completa.

 claro que uma hora isso tambm enche o saco. No se pode fazer um "ai" que a cidade
toda fica sabendo.

-- Sabe aquela l, que namora aquele um? Pois , ficou com aquele outro que j tinha
ficado com aquela ali.

No comeo eu, que era de fora, ficava at assustada -- "Esse povo no tem nada melhor
pra fazer do que ficar falando mal da vida dos outros?" --, mas depois acostumei e, no fim,
estava at dando risada (e fofocando um pouco tambm, para ser mais exata). Alm do
mais, era muito cmodo ver uma pessoa num dia e na mesma hora j saber tudo sobre ela.
E foi mais ou menos assim que eu conheci o Leco.

Estvamos numa festa quando o vi pela primeira vez. Que cara bonito! Ele era moreno,
alto, forte, usava uma camisa branca... (credo, eu lembro at a cor da camisa).  claro que
logo fui me informar de quem se tratava e fiquei sabendo que ele era um dos caras de
Santos, uma turma que tinha virado a sensao da cidade. Era amigo dum amigo da minha
irm e o irmo dele j tinha ficado com a minha melhor amiga. Coincidncia? No.  que,
como eu j disse, a cidade era pequena

21
mesmo e por isso a gente se encontrou mais um monte de vezes. Teve um dia que ele at
nos deu carona, mas estava a maior zona no carro e nem deu pra conversar. Foi s no
ltimo dia de Carnaval que a gente se conheceu direito. Estvamos na concentrao, uma
festa que tem antes do baile pro pessoal se reunir e descer junto para o clube, pulando pelas
ruas e seguindo o som da batucada.

Ele foi chegando e se apresentando. A gente ficou conversando e bebendo cerveja. No
demorou muito j estvamos bbados, no demorou muito j estvamos nos beijando.

-- Ufa! At que enfim encontrei algum que sabe beijar direito nesta cidade -- ele disse.
Pelo jeito j tinha beijado a cidade inteira.

-- Ah, ...? -- Tudo bem, eu tambm j tinha ficado com outros tantos.

-- E... As meninas daqui no beijam nada bem, sabe?

A no agentei, ca na risada e a gente ficou tirando o maior sarro das corumbaenses (elas
que no me ouam!). Ele ainda me contou da baguna que fez com os amigos na viagem,
da espelunca onde eles tinham se hospedado, do golpe do banheiro que eles aplicavam nas
meninas...

-- Pera, que golpe  esse?

--  aquele que a gente fala que vai ao banheiro, some e arranja outra.

-- Meu, vocs so sacanas mesmo, hein?  melhor eu ficar bem esperta com voc!

Ele riu e disse:

-- Pode ficar sossegada que com voc eu no vou aprontar nada.

-- Acho bom mesmo!

No final, cada vez que a gente ia ao banheiro, ficava brincando:

22
- Olha, no some, t?

Passamos a noite inteira juntos. Pulamos no salo, descansamos perto da piscina, comemos
sanduche no carrinho. Quando no agentvamos mais de cansao fomos embora, a p,
falando besteira e dando risada no meio da rua. O dia j havia amanhecido, tinha at
passarinho cantando e, quando cheguei na minha casa, apaguei. Dormi o dia inteiro.
Tambm, depois de cinco dias de Carnaval,  s o que se quer.

Acordei com uma amiga l em casa chamando a gente para ir na estao de trem. Os caras
de Santos estavam indo embora, iramos fazer uma surpresa. L fomos ns. No caminho me
deu um frio na barriga,  estranho encontrar a pessoa no dia seguinte, ainda mais quando os
dois no esto mais bbados nem nada. O jeito foi chegar de mansinho e arriscar um "oi"
meio tmido. Lembro que ele fez a maior cara de felicidade quando me viu. Podia ter dado
uma de difcil, como a maioria dos caras metidos a besta, podia at ter me ignorado, mas
no, ele era diferente e eu achei aquilo o mximo. Em meio  algazarra dos nossos amigos,
a gente ficou ali, parado, se olhando. Ele me mostrou a cabine e me contou como seria a
viagem. O trem apitou, avisando da partida. Ele sorriu, passou a mo no meu rosto e disse:

- Tchau!

No liguei pra ele quando cheguei em So Paulo, e ele tambm no ligou, mas graas a
uma coisa chamada acaso um belo dia um amigo da minha irm, o Duda, de Santos, ligou
l pra casa, eu atendi, e a gente ficou batendo papo at que eu resolvi perguntar:

- E o pessoal da, como  que est?

- Voc quer saber do pessoal ou de algum em especial?

Esse Duda sabia mesmo ser indiscreto.

- T bom, vai. Como  que t o Leco?

- T bem. Por que voc no liga pra ele?

23
No final, combinamos de todo mundo se encontrar. Meu pai tem um apartamento em
Santos, para onde fomos eu, minha irm e uma amiga passar o final de semana. A noite,
eles vieram nos buscar. Ficou todo mundo ali, descontrado, na porta do prdio,
conversando, lembrando das frias e da baguna do Carnaval. De vez em quando, nossos
olhos se encontravam e meu corao disparava. Depois de um tempo, o pessoal resolveu ir
para um bar. Eu fui sozinha com ele num carro, o que me deixou mais ansiosa e acho que
ele tambm, pois assim que paramos no primeiro sinal ele olhou para mim e disse:

-- Posso te fazer uma pergunta?

-- Pode -- eu respondi, mas sem lhe dar chance fui dando logo um beijo na boca, de
lngua. Quando acabou, ele riu e disse:

-- Era isso mesmo que eu ia te perguntar, se a gente ia ficar junto de novo.

E a gente ficou, aquele e muitos outros dias, at que surgiu uma outra pergunta:

-- A gente t namorando?

Juntos resolvemos que estvamos, mas no era um namoro pesado, cheio de posse, cimes,
ou "Oh! meu Deus, como te amo". Era um negcio leve, livre, bem simples. Eu me lembro
da gente namorando no carro, das coisas que ele me contava, do jeito que ele me tratava, do
jeito que ele me olhava, daqueles olhos castanho-claros . . .

A gente conversava sobre tudo, tudo mesmo. Quer dizer, quase tudo. Ainda tinha uma coisa
que me incomodava um pouco: sexo. A gente chegou a tocar no assunto vrias vezes, mas
eu acabava sempre desconversando. Acho que era porque eu ainda no havia superado
aquilo tudo que sofrera. Achei que tivesse, j havia passado mais de um ano, mas no.

24
Eu sabia que um dia acabaria contando pra ele, mas precisava de mais um tempo. C entre
ns, convenhamos que no  nada fcil para uma menina de dezoito anos contar pro
namorado de vinte que j tinha levado altas porradas de outro cara. Mas um dia eu contaria,
sei que contaria, e da ele entenderia por que eu ainda no tinha transado com ele. Ele era
um cara legal. Nunca me forou a nada. Eu me lembro de uma vez quando fui ao
ginecologista, logo depois de toda aquela histria de violncia, e o mdico me perguntou se
eu havia ficado traumatizada.

-- No, traumatizada no -- respondi. -- Mas acho que no vou querer transar nunca mais.

-- Nem se um dia voc conhecer um cara legal? -- O mdico perguntou.

-- Um cara legal? Mas o que  um cara legal? Bem, o Leco era um cara legal.

J era o ms de maio e eu estava com quase tudo pronto para a viagem aos EUA, quando
resolvi dar uma passada num mdico gastro. Eu vivia com uma dorzinha de estmago, nada
srio, mas achei melhor dar uma checada para no ter nenhum piripaque l na casa da
minha tia. Embora eu j estivesse bem grandinha para ir sozinha ao mdico, minha me
bateu o p e disse que iria junto. Que saco! Mais saco ainda foi a droga do mdico me
perguntando "Onde di?". Aqui , eu disse, apontando o esfago. Ele deu uma risadinha e
disse Desde quando esfago di na sua idade?". Se tem coisa que eu odeio so essas
piadinhas sem graa de mdico, quem ele pensa que  pra ficar fazendo pouco-caso da
minha dor? Fiquei com vontade de mandar ele tomar no cu. Mas, em respeito  minha me,
que provavelmente teria um desmaio, respirei fundo e s fiz cara feia. O dr. Sabe-Tudo me

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pediu uma endoscopia e que eu voltasse quando estivesse pronta.

L fui eu fazer a endoscopia. ,  isso mesmo, aquele exame que enfia um cano na sua
goela abaixo at o estmago. Legal, n? Pois . Levei o resultado pro mdico, que concluiu
com a maior cara de bunda que eu estava mesmo com um problema no esfago.

- T vendo? Quem mandou ficar tirando sarro da minha cara? Fala a o que  que eu tenho.

-- Sapinho no esfago.

-- O qu? -- Logo imaginei um monte de sapos fazendo a maior festa no meu aparelho
digestivo.

-- No  nada disso. Sapinho  aquele negcio branco que d muito em boca de criana.
Nome cientfico: candidase.

-- Ah, t... E agora?

-- Agora vou te dar um remdio e te pedir mais uns exames -- ele anotou os nomes num
papel e disse: -- Leva isso l embaixo pra enfermeira, que ela te colhe o sangue agora
mesmo.

O resultado saiu depois de alguns dias, e l fui eu peglo desta vez com o meu pai. O dr.
Sabe-Tudo leu, no fez uma cara muito boa e disse que teria de pedir mais alguns exames.

-- E, de novo? Por que j no pediu tudo de uma vez -- eu reclamei.

--  porque primeiro eu precisava checar uma coisa e talvez nem precisasse pedir esses
aqui, mas agora eu vejo que vai ser preciso...

Algo me dizia que o cara tava me enrolando. Ele pegou um papel e anotou umas coisas.
Como da outra vez, eu estendi a mo para peg-lo, mas desta vez ele no me entregou.

-- Deixa que eu mesmo dou pra enfermeira -- ele disse. - Desce l e vai colhendo o
sangue.

Achei aquilo muito estranho, mas fiz o que ele mandou.

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Depois de uns dias, quando eu estava no trnsito, dentro do carro com meu pai, ele comea
com um papo meio esquisito:

- Sabe, filha, essa doena nova que surgiu... No fundo ningum sabe direito do que se
trata... Cada um diz uma coisa... Isso de a pessoa morrer logo, talvez no seja bem assim...

Pronto. No precisava dizer mais nada. Eu estava com AIDS. Aquele mdico deve ter feito
um teste sem meu consentimento e, pior, deve ter ligado pr meu pai para dar o resultado.
Que sacanagem, ele no tinha esse direito! No consegui dizer uma palavra e tambm no
me atrevi a olhar para o meu pai. Ficamos os dois em silncio, olhando pela janela do carro.
Eu pensando no susto que ele devia ter levado, ele pensando sabe Deus no qu.

O prximo passo foi procurar um especialista. Fomos eu, meu pai e minha me. S por a j
dava pra sacar a gravidade da questo: os meus pais nunca andam juntos. Chegando l,
entrei sozinha na sala do mdico, que comeou a me fazer um monte de perguntas. Pelo
jeito algum j tinha explicado alguma coisa pra ele. Quis saber com quem eu havia
transado, se eu havia usado drogas, se eu sabia se o cara com quem eu havia transado
usava, que tipo de sexo a gente praticou... Me senti num banco de rus, parecia que o meu
crime tinha sido transar e provavelmente a sentena seria a morte.

Ele me explicou que o sapinho que eu havia tido era uma coisa comum nos pacientes HIV
positivo, porque esto com baixa imunidade. Por isso o outro mdico solicitara primeiro um
exame de imunidade (uma contagem de CD4), que deu baixa, e depois o exame para saber
se eu estava com o vrus. E estava. Mas, de qualquer jeito, ele pediu que eu repetisse os
exames num laboratrio melhor.

, acho que j no havia muita esperana. Lembro que antes de ir quele mdico, no
caminho de ida, minha me
27
havia feito uma promessa de parar de fumar. Agora, no caminho de volta, ela acendia um
cigarro.

Fiz o exame e fiquei aguardando o resultado. As coisas estavam acontecendo to rpido que
eu no sabia nem o que pensar. Um tempo antes eu havia feito um curso de controle da
mente, ento passava os dias meditando, imaginando uma luz violeta sobre o meu corpo.
Uma parte porque acreditava que aquilo pudesse me ajudar, outra porque no havia mais
nada que eu pudesse fazer.

O resultado saiu e l fui eu lev-lo ao mdico especialista, dr. Infectologista. Nos minutos
que fiquei sentada na sala de espera com o envelope branco na mo, tentei imaginar como
seria minha vida dali pra frente, mas no consegui. Fiquei, ento, olhando para um vaso que
havia ali na sala onde estava plantado um cctus seco e cheio de espinhos.

A secretria me chamou, eu caminhei at a sala do mdico e lhe entreguei o envelope. Na
verdade, um dos meus exames havia dado negativo, o que acendeu uma esperancinha. Mas
o dr. Infectologista j foi logo me cortando:

-- Voc ainda tem alguma dvida?

Uma notcia, pelo menos, era boa: a minha imunidade tinha aumentado. Eu perguntei o que
deveria fazer dali pra frente.

-- Nada -- ele disse --, apenas tentar levar a vida normalmente.

Ah, claro!

-- Posso ir para os Estados Unidos passar uns meses assim mesmo? Minha passagem est
marcada para daqui a dois dias.

-- Pode. Aproveita e faz esses exames l. -- Escreveu os nomes num papel e me entregou.
-- Eles tm meios mais avanados.

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- T. Eu preciso avisar as pessoas que eu beijei na boca durante esse tempo?

- No. No precisa.

Ainda bem. J estava imaginando eu ter que ligar pros caras com quem eu havia ficado e
dizer: "Oi, tudo bem, lembra de mim? Ento, t te ligando pra avisar que eu estou com
AIDS". Que notcia! Ainda bem que eu nunca mais tinha transado com ningum. Graas a
Deus!

-- E quando  que eu preciso voltar aqui?

-- A cada trs meses para checar a imunidade.

- h.

-- Agora v se no fica encanando muito, porque tem gente que passou at dez anos sem
desenvolver a doena.

Nossa, que bom, no? No mnimo ele ficou ali parado, esperando que eu desse um sorriso e
sasse feliz e contente. Dez anos. Dez anos... A minha cabea j tinha comeado a fazer as
contas. Pera, j nem so mais dez. Se eu estou com dezoito anos, peguei isso
provavelmente com dezesseis, ento me restam s oito. Oito anos. Oito anos para eu me
encher de pereba, meu cabelo cair, eu ficar pesando meio grama e tchau! Essa era a
primeira sentena de morte que eu via com validade para oito anos. E isso se eu tivesse
sorte,  claro, muita sorte.

--  s isso?
-   , se cuida, tchau!

Bem, agora s me restava pegar aquele avio e sumir, porm, eu tinha que fazer uma coisa:
terminar tudo com o Leco. A gente j tinha conversado sobre a viagem e combinado que,
durante o tempo em que eu estivesse fora, cada um poderia fazer o que quisesse, mas
continuaramos a namorar quando eu voltasse.

Ele veio se despedir um dia antes da viagem e eu j fui logo mudando tudo:

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-- Olha, acho melhor a gente terminar que esse negcio no vai dar certo.

-- No. Cada um faz o que quiser enquanto a gente estiver longe e quando voc voltar a
gente resolve, t?

-- T, t bom, vai -- acabei aceitando. Eu tinha certeza de que ele ia me esquecer mesmo.

-- Promete que me escreve, Morena?

-- Prometo.

Aquele dia tambm era aniversrio do Cristiano, meu amigo de escola. Eu j estava indo
dormir, quando o Luiz me ligou dizendo:

-- Val, t todo mundo indo l pra casa do Cris. Vambora? Fui. L estavam todos os meus
amigos na maior folia, a D, a Pri, a Lumpa...

-- Gente, eu tenho uma coisa pra contar. Todo mundo me olhou.

-- Eu t indo amanh cedo para os Estados Unidos.

-- O qu? Val, voc  louca, nem falou pra gente?!

--  que...  que eu resolvi to rpido que... nem me lembrei... -- Puxa, eu estava mesmo
atordoada.

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3. Click! O tempo parou 31
Peguei o avio bem cedo no dia seguinte. Era a primeira vez que eu viajava para um pas
to longe. Sempre achei essa histria de avio um barato. A pessoa entra, senta, fica ali
algumas horas e, quando sai, est no outro lado do mundo,... O homem j inventou grandes
coisas. Tinha at ido pra Lua antes mesmo de eu nascer. S que agora eu estava com AIDS
e ningum podia fazer nada.

o avio aterrissa e eu deso naquele aeroporto tumultuado:

gente diferente, lngua estranha. Socorro! Mas no meio daquela multido vejo uma cara
conhecida:

- Tio Andr! -- Ele, bilogo, havia recebido uma proposta de trabalho do Memorial
Hospital e mudado com a famlia

J fazia quatro anos. Desde ento a gente no se via.

Fomos pra casa e l encontro minha tia. Ela, irm da minha me - era a tia com quem as
pessoas diziam que eu mais parecia. No Brasil, ela era jornalista; agora, em Nova York, no

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estava trabalhando, porque meus trs primos ainda eram pequenos. O ltimo, nascido l, eu
nem conhecia ainda.

Sempre fui louca por crianas, acho as coisas mais fofas do mundo. Mas lembro que
naquele dia tive medo de toc-las. Eu havia conversado com o dr. Ginecologista, amigo da
famlia, a respeito disso, e ele dissera que no existia risco algum, mas o preconceito das
pessoas era to grande que eu s fiquei mais tranqila depois que conversei direito com
meus tios. Eles estavam muito bem informados, tinham procurado saber tudo quanto fosse
possvel. No que j se soubesse muito sobre a AIDS, na verdade acho que no se sabia
quase nada. S mesmo que pegava e matava. E mesmo havendo casos de algumas mulheres
contaminadas continuava a ser a "doena dos gays".

Fiquei l com eles uns trs meses e, durante esse tempo, fiz um curso de ingls e amizade
com uma grega, visitei vrios museus e perambulei pela cidade. Eu adorava ficar andando e
olhando as coisas, aquelas pessoas estranhas, as mulheres cheias de laqu na cabea,
chiqusimas, mas de tnis, os caras todos de terno, os judeus de chapus e dois rolinhos de
cabelo saindo do cavanhaque, os indianos com brinco no nariz, os black people com
aqueles sons enormes ligados no mais alto volume. As mulheres negras superbemvestidas,
as madames limpando coc de cachorro pra no levar multa... Eta cidadezinha esquisita!

Um dia, minha tia me emprestou a mquina fotogrfica, dessas mais antigas, estilo
profissional, s que toda manual. Comprei um filme preto-e-branco e sa tirando fotos pelas
ruas. Meu tio dissera que fotografia era uma coisa mgica. Era como parar um instante no
tempo. Hoje, cinco anos depois, gosto de pegar meu lbum, com todos os instantes que
roubei do tempo, do tempo que passei em Nova York. As pontes,

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as ruas, as pessoas... Tem uma foto aqui que eu gosto - acho que foi uma das melhores que
eu j tirei. Foi l no r trai Parke. Na frente, um cara andando de bicicleta, do lado, mais
atrs, um outro correndo de patins, e, ao fundo, as pessoas paradas tomando sol num
imenso gramado. D pra ver direitinho que os dois caras estavam na maior velocidade, o
cabelo puxado pelo vento, a expresso no rosto. Da eu chego e click, paro tudo. Fica bem
ntido. No importa o quo rpido tudo est acontecendo,  s chegar e fazer parar.

Tem outra que tambm  muito interessante.  uma que eu tirei de um restaurante pelo lado
de fora do vidro, pra mostrar como era a decorao l dentro. S que, alm disso, aparece o
meu prprio reflexo no vidro. Um reflexo... Sabe, acho que era isso mesmo que eu parecia,
um reflexo. O mundo continuava igual, os carros passando, as pessoas trabalhando, o sol
quente brilhando, s eu j no era mais a mesma. Estava ali no meio de tudo, existindo sem
existir, exatamente como um reflexo.

Depois de ter andado o dia inteiro, voltava pra casa e me sentava num sof cinza que tinha
na sala, grande e confortvel, e ficava ali horas, olhando pro nada. A televiso ligada, as
crianas brincando, minha tia cozinhando, meu tio chegando e eu ali, sentada, olhando pro
nada.

Chegou o dia de repetir os exames, mas, em vez de repeti-los, meus tios me deram a idia
de consultar outro mdico, assim teria a opinio de mais uma pessoa, um especialista
americano. Naquela poca, meu ingls no era l grandes coisas, ento meu tio foi comigo.
Levamos os exames feitos no Brasil e explicamos tudo o que tinha acontecido. O mdico
no acreditou que eu estivesse contaminada. Primeiro, porque era mulher; segundo, porque
no tinha praticado sexo anal e' terceiro, porque um dos meus exames deu negativo.

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Alm do mais, ele me explicou que aquele sapinho no esfago era coisa de paciente em
estado terminal. Eu estava vivinha da silva e parecendo bem saudvel; logo, ele concluiu
que aquilo tudo podia ser um grande erro. Lembro dele me dizendo:

-- Ns vamos repetir o teste. Se der negativo, voc vai esquecer tudo isso e encarar como
uma difcil experincia pela qual voc passou.

Uma luzinha acendeu de novo. Meu tio me abraou e quase chorou no corredor do hospital.
Eu s pensava numa coisa, ligar para os meus pais e dar a grande notcia, dizer que tudo
no passara de um pesadelo. Mas achei melhor esperar e ligar s quando estivesse com os
resultados nas mos. Fui dormir feliz, pensando num moreno de olhos castanho-claros que
eu havia deixado no Brasil.

O exame ficou pronto, s que deu positivo. Coitado do mdico, no sabia nem como me
contar, me mostrou os resultados dizendo que havia repetido mais de uma vez, pois pra ele
era difcil de acreditar.

-- Tudo bem -- eu disse. -- Tudo bem.

Me despedi do meu tio, que iria continuar l trabalhando, no hospital, e voltei para casa. Fui
andando pela York Avenue devagar, vendo as pessoas, os carros, o cu azul. Dobrei a
esquina na 63, entrei no prdio. Cumprimentei o porteiro simptico com um Hi, entrei no
elevador e subi ao stimo andar. Andei pelo corredor at o apartamento 701, abri a porta e
entrei. Sentei no sof cinza e fiquei ali, olhando pro nada. acho que ainda estaria l at hoje
se um dia minha tia no tivesse vindo falar comigo:

-- Olha, Valria, desse jeito no d, voc fica a parada esperando a vida passar. Voc tem
que sair dessa. Sei l." Fazer anlise talvez possa ajudar. Ou, quem sabe, se interessar por
alguma coisa, alguma coisa que voc goste.
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Uma coisa que eu goste? Uma coisa que eu... Ah, j sei, teatro! Corta! Se isso fosse um
filme, a cena seria cortada bem a, a prxima eu apareceria em cima de um palco, na
Broadway, como a atriz principal de uma pea, recebendo aplausos e flores de uma platia
lotada. Mas a vida no  filme americano; logo, no foi nada disso que aconteceu. Quer
dizer, eu at que fui pra Broadway, no pra receber aplausos e flores,  claro, mas pra
assistir a algumas peas. O que, c entre ns, j era um bom comeo.

Chonui Lme, Metamorphoju de Kafka com Barishnikov, Jazz Blue. . Nossa, eu havia me
esquecido de como aquilo tudo era bonito.

Gente, acho que j t na hora de voltar pro Brasil. Comear a fazer alguma coisa, estudar...
E foi o que eu fiz, devagar, mas fiz.

Chegando aqui, fui logo ligando pro Leco, eu precisava botar um ponto final naquela
histria. Liguei pra ele avisando que eu j estava de volta e ele foi l em casa. A gente ficou
conversando: eu contando da viagem, ele do que tinha feito por aqui. Um papo nada a ver,
daqueles que as pessoas ficam falando, rindo, gesticulando, at que de repente acaba o
assunto, e os dois ficam com medo de se olhar, porque no fundo sabem que no era nada
daquilo que deveriam estar conversando. Da eu disfaro, olho prum lado, olho pro outro,
Passo a mo no cabelo, mordo o canto da boca. E vem uma sensao horrvel, a sensao
de estar sendo observada. Droga! Ele est me olhando! Eu no estava vendo, mas podia
sentir o peso daqueles olhos castanho-claros em cima de mim, como se quisessem me
invadir e descobrir o que se passava
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-- Senti sua falta, Morena -- ele disse e me abraou.

Eu tambm tinha sentido falta dele, e como!... Mas eu no ia dizer.

-- Voc est muito esquisita. O que  que est acontecendo?

-- Nada.

-- Eu sei que est. Notei isto desde a sua ltima carta. Eu estava l em casa quando chegou.
Lembro que fiquei supercontente quando vi que era sua, mas, quando li, voc tava to fria...

Era verdade, eu tinha sido fria mesmo, e de propsito. E continuava sendo. Continuava
distante, no conversava direito, no tinha trazido nenhum presente pra ele. Nada. Nada que
deixasse transparecer que eu havia pensado nele durante a viagem. Era uma maneira de
fazer com que ele fosse me esquecendo. No tinha mais jeito mesmo. Eu sabia que a minha
vida, dali pra frente, no ia ser nada fcil e eu no queria envolv-lo naquela histria toda.

-- Voc ficou com algum por l?

-- No -- sua idiota, acabou de perder uma tima oportunidade. Devia ter mentido, dito
que sim, que tava a fim de outro cara.

-- Fala pra mim, Morena, o que ?

-- Sei l... -- puxa, eu sabia mesmo ser irritante.

-- T bem -- ele disse --, ento eu j vou indo, t?

-- h -- isso, vai, vai embora. Some, some logo da minha frente, antes que eu mude de
idia.

-- Ento... Tchau!

-- Tchau!

-- Olha, Morena, eu... -- Pronto, tudo resolvido. Agora ele ia dizer que no estava mais a
fim, que estava tudo muito estranho, que j tinha me esquecido... Vai, fala, fala logo! Mas
no foi nada disso que ele disse, muito pelo contrrio!

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Para minha total surpresa, tirou um pedacinho de cortia da carteira e me deu.

-- Toma, eu comprei pra voc de um cara que estava vendendo no farol.

Eu peguei e li o que estava escrito: "Se um dia uma leve brisa vier tocar-te os lbios, no te
assustes, pois  minha saudade que te beija". Eu havia me esquecido, ele era mesmo
diferente.

Aquela situao continuou por mais um tempo. s vezes a gente saa, s vezes a gente
ficava. E eu toda vez jurava que seria a ltima. Decorava discursos, inventava mil modos de
terminar tudo. Mas, na hora, eu no conseguia falar nada. O jeito, ento, foi ir me
distanciando, sair junto s de vez em quando, fazer virar s uma amizade.

No resto, a minha vida ia se ajeitando. Continuei estudando ingls, entrei num novo curso
de teatro e comecei a fazer terapia. A cada trs meses, voltava no dr. Infectologista e, se
tivesse com alguma outra coisa, procurava um especialista.

Como da vez em que fui ao oculista por causa duma bolinha, tipo tersol, que havia nascido
no meu olho. O tal mdico fora indicado pelo outro, assim quando eu cheguei ele j sabia
do que se tratava. Mas nem por isso deixou de fazer um bando de perguntas. As de sempre:
se eu usava drogas, com quantos tinha transado...

- Voc no praticou sexo anal? -- Aquela histria de sexo anal j estava me enchendo o
saco. ]

- No!

Ele fez uma cara de espanto e disse que eu era o primeiro caso de mulher brasileira a ser
contaminada por penetrao vaginal. Era s o que me faltava. Ser que aquilo era verdade
mesmo ou ele  que estava mal-informado?

-- E isso  muito srio -- ele continuou. -- Porque, se houver mesmo esse tipo de
contaminao, a doena vai se propagar muito mais rpido do que o previsto.
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Ele parecia preocupado mesmo e, sem a menor cerimnia, pegou o interfone sobre a mesa e
chamou um outro mdico. Este veio e os dois ficaram ali me olhando, como se eu fosse um
E.T. Mais um pouco e eles me colocariam em exposio numa vitrine para o mundo inteiro
poder me olhar... E entre essas e outras terminava mais um ano, o ano de 1989.

No comeo de 1990, como de costume, fui passar as frias em Corumb. Natal, Ano-Novo,
e em janeiro voltei pra fazer vestibular. Em menos de uma semana prestei, passei e entrei.
Engraado, n? . Mas mais engraado ainda  que quela altura eu nem estava pensando
em fazer faculdade. S que, no encerramento do meu curso de ingls, a professora me deu o
maior incentivo, falou que eu levava jeito, que eu tinha que continuar estudando e
perguntou por que eu no fazia logo uma faculdade de traduo. Ela tinha feito e gostado
muito. Pois , foi isso. Ela gastou cinco minutos comigo, e eu entrei na faculdade. Fico
pensando, ento, como seria o mundo se todas as pessoas comeassem a gastar cinco
minutos de seu tempo umas com as outras.

Fiz minha matrcula, s que como ainda faltava mais de um ms para o incio das aulas
voltei pra Corumb. Antes disso, porm, sa um dia com o Leco. A gente passou a tarde
junto. Ele me levou na Cidade Universitria, me mostrou o prdio da Poli, onde estudava,
os parques que havia por l... Depois a gente foi pro apartamento dele. Os outros caras que
moravam l estavam viajando de frias, ento ficamos s os dois. Eu lembro que era um
andar superalto, num prdio da Paulista, e quando ele me mostrou a vista l de cima eu
quase morri de medo. No comeo nem consegui chegar muito perto da janela, mas depois,
devagarinho, debrucei pra ver l embaixo. Dava o maior frio na barriga. O vento batendo
no

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rosto, o barulho da avenida meio de longe, os carros pequeninos passando:

- Que louco! Deve ser muito estranho morar aqui.

- No, nem tanto.

-- Nossa, d o maior medo!

-- Ele riu.

- No d no, deixa que eu te seguro -- chegou mais perto e me abraou por trs.

Pronto, pintou o maior clima de novo. Logo agora que tava indo tudo to bem, a gente ali
junto, s por amizade?

Eu estava com uma blusa de ombro de fora, ele levantou o meu cabelo e comeou a beijar a
minha nuca. Eu me virei e ele me deu um beijo na boca. Ai que saudade eu estava dele, do
corpo dele, dos beijos dele. A gente foi pro quarto e se deitou na cama. Ele tirou a minha
blusa e depois a dele. A gente ficou ali, se abraando e se apertando, seu corpo quente em
cima do meu, sua boca molhada beijando a minha.

J estava ficando tarde e eu precisava ir embora. A gente se levantou, se vestiu. Enquanto
ele foi ao banheiro eu fiquei ali no quarto, esperando. A luz ainda apagada, um pouco de
claridade entrando pela janela, o barulho da avenida ao longe e uma palavra de quatro letras
que teimava em no sair da minha cabea. Podia ser a-m-o-r, mas no era. Era A-I-D-S.
Jurei que aquela seria a ltima vez que a gente ficava junto. E foi mesmo.

Pegamos o carro e ele foi me levar at em casa. No caminho, fomos conversando.

- Ento, Morena, quer dizer que voc acabou de chegar de Corumb e j vai voltar pra l
de novo?

- Vou, tenho que aproveitar as frias, n?

- , voc t certa. Acho que eu tambm vou pra l, mas s no Carnaval. O pessoal t
combinando de ir outra vez, que nem no ano passado, quando a gente se conheceu.

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-- Legal, assim agita mais a cidade.

-- E o pessoal de l como  que t? Alguma novidade?

-- No, mesma coisa de sempre. Quer dizer, tem uns caras novos por l, quatro gringos da
Dinamarca.

-- E a, voc conheceu?

-- Conheci. Eles so superlegais. Vieram pro Brasil sem conhecer ningum e sem falar
uma palavra em portugus. Compraram um carro e saram rodando pelo pas. S que
chegando l em Corumb o carro quebrou e eles tiveram que ficar mais tempo do que
pretendiam.

-Ah, ?

-- . Da, como quase ningum na cidade fala ingls, eu fiquei andando com eles pra dar
uma ajuda.

-- Voc ficou com algum deles?

-- No. -- E no tinha mesmo. Ainda. S que depois,, quando voltei, eles ainda estavam l
e a gente continuou a sair junto. Apresentei pra eles o pessoal da cidade, dei uma mo pra
resolver o assunto do seguro do carro e no final acabei ficando com um deles, o Jacob. Ele
era superbonito, loiro de olhos verdes, parecia que tinha sado de uma capa de revista;
inteligente, bem legal. Alm do mais, nossa cultura era completamente diferente e isso era
assunto pro dia inteiro. E melhor que tudo: ele estava s de passagem. E dali pra frente
seria assim, eu s ficaria com algum quando tivesse certeza que no iria v-lo nunca mais.
E foi exatamente o que aconteceu com o gringo, a gente ficou junto enquanto ele tava em
Corumb, depois ele voltou pra Dinamarca e a gente nunca mais se viu. Simples, n?

O Carnaval chegou e com ele tambm a turma de Santos fazendo a maior zona pela cidade.
E l no meio deles o Leco,  claro. A gente continuava se encontrando, conversava, saa
para dar umas voltas, mas no rolava mais nada. E eu estava

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feliz de as coisas terem se ajeitado sem grandes complicaes. At que um dia, numa festa,
antes dum baile de Carnaval, ele chega do nada, me leva prum canto e comea a me dizer
um bando de coisas. Ele estava completamente bbado, falando alto e quase chorando. No
comeo eu no entendi nada, ele ficava repetindo que eu tinha mentido pra ele e me
xingava de tudo quanto era nome. S depois que ele falou que no ligava de eu ter ficado
com outro cara (ele tambm j tinha ficado com outras garotas), mas que eu no podia ter
mentido, foi que eu deduzi o problema: ele ficou sabendo que eu tinha ficado com um
gringo e estava pensando que eu tinha mentido pra ele naquele dia em So Paulo.

Eu podia ter explicado, ter argumentado, ter conversado, mas no, fiquei l parada, olhando
pra ele e ouvindo ele me xingar. At que ele acabou, virou as costas e saiu andando. Eu
ainda podia ter ido atrs, ter gritado, ter feito ele parar. Ter dito o quanto ainda gostava
dele. Mas tambm no fiz nada disso. Fiquei l parada, vendo ele ir embora. Dane-se, 
melhor assim.

Achei que a gente nunca mais fosse se falar. E na verdade ficamos um bom tempo sem nos
ver. Mas, quela altura eu j deveria saber, ele era mesmo diferente. Um ano depois ele me
liga e a gente fica conversando. E continua tudo assim. De vez em quando me liga, conta da
vida dele, eu conto da minha... A ltima vez que a gente se falou faz uns trs meses. Ele diz
que est com saudades, que a gente precisa combinar de sair.

- , precisa. Vamos sim!

- T. Mas ento me liga, n? S eu que te ligo -- ele reclama.

- Eu te ligo sim, qualquer dia desses eu ligo.

Nunca liguei. E agora estou aqui, escrevendo toda essa histria - E pensar que ele nunca
soube... Fico imaginando se um

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dia esse livro cai nas mos dele, ele l e fica sabendo do outro lado da histria, do meu lado
da histria. Que jeito de ficar sabendo das coisas. s vezes, tenho vontade de ligar pra ele,
de contar tudo, mas a fico imaginando eu ligando, cinco anos depois e dizendo: "Oi Leco,
tudo bem? T ligando pra te contar uma coisa. Lembra quando a gente ainda namorava e
voc me perguntou por que eu andava to esquisita? Ento, era porque eu havia descoberto
que estava com o vrus da AIDS". Nada a ver, n? Ah, sei l... Talvez se eu contasse de
outro jeito. Quem sabe um dia. Quem sabe um dia eu ainda conte. E agora vocs devem
estar se fazendo a mesma pergunta que eu. Por que  que eu no contei tudo naquela poca,
medo de perd-lo? , acho que foi medo sim, mas no s de perd-lo, porque afinal eu o
perdi de qualquer jeito. Acho que tive medo tambm de ele querer ficar. E eu sabia que a
minha vida dali pra frente no ia ser nada fcil e eu no queria envolv-lo naquela histria
toda. <.

E assim foi a minha primeira grande perda, e esse era s o comeo, porque depois vieram
muitas outras. Agora, sim, eu comeava a entender o que era ter o vrus da AIDS. Os
mdicos continuavam a dizer que eu no devia contar "aquilo" pra ningum. "O
preconceito  muito grande", eles explicavam. E a eu tambm j no procurava mais os
meus amigos.

Naquela poca, como dissera, eu estava fazendo terapia. Lembro-me da primeira vez que
fui l. Eu acabara de chegar dos Estados Unidos e estava completamente perdida. Sabia que
tinha que fazer alguma coisa, mas no sabia por onde comear. Foi a que me lembrei da tal
psicanlise e resolvi procurar ajuda profissional. Antes, porm, tinha que falar com meu pai
para pedir um outro tipo de ajuda, a financeira ( que eu ainda no trabalhava). Meu pai
nunca foi muito a

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favor dessas coisas de terapia. Ele acha que o sujeito tem de se virar sozinho. Mas acabou
concordando. Por a d para ver como eu estava.

Mais uma vez o mdico amigo da famlia, o dr. Ginecologista, me indicou algum, uma
psiquiatra. Eu peguei o telefone e marquei uma hora. Quando chegou o dia, l fui eu.

Era uma casa grande, meio antiga. Dava para perceber que era uma espcie de clnica, onde
vrios terapeutas trabalhavam, cada qual em sua sala. Logo na entrada, perto de uma
escada, a mesa da secretria. Eu me dirigi at ela e disse que tinha uma hora marcada com a
dra. Sylvia.

-- Pode aguardar ali -- ela me disse apontando a sala de espera.

Sala de espera. Aquilo j estava se tornando uma grande rotina na minha vida. E o pior 
que, no fundo, todas so iguais: um quadro ali, um sof acol e um bando de revistas do
ano passado. O que fazer? Nada. Como o nome j diz, ficar esperando.

Na verdade, eu j havia feito terapia uma vez. Ludoterapia, para ser mais exata. Eu tinha
uns seis ou sete anos, foi quando meus pais se separaram. No lembro muito bem como
tudo aconteceu, s sei que um dia minha me nos catou, eu e minha irm, e fomos pra
Santos. Ficamos morando l uns seis meses. Tivemos que mudar de escola e passamos a
ver meu pai s nos fins de semana. Eu sentia muito a falta dele e a isso deram o nome de
"criana problemtica". Foi a que a minha me resolveu me levar a uma psicloga. Bem
tpico dos adultos, bagunam a vida da gente e depois nos levam ao psiclogo para eles
darem um jeito.

A primeira psicloga que eu fui, em Santos mesmo, at que era legal. Ela tinha uma caixa
cheia de brinquedos, papis e tintas, com os quais eu ficava brincando. Nunca entendia,
entretanto, por que  que aquela "tia" ficava ali me olhando.

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Mas no ligava muito pra isso. Mais tarde, porm, quando voltamos pra So Paulo, passei a
ir em outra psicloga. Uma a que tinha o cabelo cor de vinho e usava duas tranas laterais
presas no alto da cabea, que, por sinal, eu detestava. Detestava tambm a sala dela, os
brinquedos dela, as roupas dela. E, acima de tudo, detestava o jeito de ela ficar ali, me
espionando enquanto eu brincava, ou melhor, fingia que brincava. E, como se isso tudo no
bastasse, por causa dela, os meus pais viviam brigando. Minha me querendo que meu pai
pagasse as consultas, e meu pai dizendo que no era daquilo que eu precisava.

No final, nem lembro direito como foi que eu me livrei dessa. Mas, como eu nunca fui flor
que se cheire, d para imaginar as confuses que eu arrumei para parar de ir na tal
psicloga. E agora, depois de tudo aquilo, muitos anos mais tarde, l estava eu sentada
numa sala de espera para fazer terapia de novo. Essa vida d muitas voltas mesmo.

Olhei mais um pouco pra sala: quadro, sof, revista. Nisso aparece uma mulher. Baixa,
meio gorda e de cabelos ouriados. Era uma daquelas pessoas que no chegam a estar
malarrumadas, mas acabam sempre dando a impresso de que a roupa no lhes cai bem.
Deduzi logo que ela era uma das psico-alguma-coisa que ali trabalhavam, pois ficou
discutindo sobre horrios e recados com a secretria. "Ser que esta  a dra. Sylvia?", eu
me perguntei. "Tomara que no!", e j comecei a me imaginar sentada numa sala olhando
pra cara dela. Como  que algum com aquele cabelo poderia me ajudar? Lembrei-me das
tranas horrendas da antiga psicloga, me deu um frio na barriga. Tomara que no seja
esta! Tomara que no seja esta!

A dita-cuja desapareceu e logo depois veio uma outra. Mais ou menos da minha altura,
cabelos claros bem curtinhos e

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olhos brilhantes. Como a anterior, ficou ali por alguns minutos falando com a secretria.
Bem que podia ser essa, eu pensei. Ela tinha cara de boa. No boazinha (e isso at que me
agradava, pois nunca fui muito chegada em pessoas "boazinhas" logo de cara. Sempre
preferi aquelas cuja bondade tem que ser conquistada). Mas, como eu ia dizendo, ela tinha
cara de boa, boa naquilo que faz.

Depois de um temmpo, esta segunda pessoa tambm sumiu l pra dentro e eu continuei ali
sentada, torcendo para que a tal dra. Sylvia fosse ela, porque, se fosse a outra, eu era capaz
de sair correndo.

A secretria se aproxima e avisa, apontando a escada:

-- A dra. Sylvia t l em cima te esperando.

Me levantei, sa da sala de espera, cruzei o hall onde ficava a mesa da secretria e subi a
escada, que, combinando com o resto da casa, era grande e de madeira. Fui subindo
devagar, degrau por degrau, para no fazer barulho, segurando no enorme corrimo branco,
fazendo figas e torcendo para que a dra. Sylvia fosse a de cabelos curtos.

A escada acabou e bem ali, perto da porta de uma das salas, estava ela, me esperando. Ufa!
Era mesmo a de cabelos curtos. Ela estendeu a mo me cumprimentando: "Oi, eu sou a
Sylvia". E fez sinal para que eu entrasse.

Era uma sala pequena, em tons de verde. Na frente, um janelo imenso, fino e comprido,
quase alcanando o teto, por onde se via uma imensa rvore. No lado esquerdo, uma
caminha; no direito, uma escrivaninha. Num canto e no outro dois aparadores cheios de
livros. Embaixo das janelas, duas cadeiras pretas de lona. Fiquei esperando que ela me
apontasse em qual das duas eu deveria me sentar. No queria dar um fora logo de cara. Ela
me apontou a da direita e eu me sentei. Ela tambm se sentou e comeamos a conversar.
Ela j sabia, pelo

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dr. Ginecologista que a indicara, que eu tinha o vrus da AIDS. E eu sabia que ela era
acostumada a atender pessoas com algum tipo de doena.

Falei um pouco da minha vida, famlia etc. Ela, de como seriam nossos encontros, o tempo
de cada sesso, o preo, e que ns no teramos nenhum envolvimento social. Nenhum
envolvimento social? Pronto. A minha cabea gnia j comeou a funcionar. E fiquei
imaginando eu dando de cara com ela numa festa e tendo que fingir que no a conhecia
(minha cabea adora pensar em coisas idiotas). Mas depois me liguei que no era nada
daquilo, ela devia estar se referindo  tica profissional. E parei de pensar naquelas
besteiras.

A sesso acabou e, para primeiro dia, at que no tinha sido muito ruim. No entanto lembro
que achei muito estranho ficar contando coisas da minha vida pra algum que eu nem
conhecia. Mas como eu no tinha outra opo...

No segundo dia, contei outras coisas. No terceiro, outras. No quarto, um pouco menos. No
quinto, menos ainda. E l pelo sexto j no estava falando mais nada. Ficava s sentada
imersa em pensamentos, a mil milhas dali. De vez em quando acordava, olhava pra ela,
dava um sorrisinho, ela correspondia e a eu mergulhava em pensamentos outra vez.

-- No que  que voc est pensando? -- ela perguntava.

-- Nada -- eu respondia. Sou doida de fazer isso, o mundo est caindo sobre minha cabea
e eu digo "nada".

Em outros dias, at que eu ficava mais solta. s vezes falava, s vezes chorava, s vezes
nada. E ela ali, sempre comigo. Aos poucos, fui me acostumando com ela. Aos poucos, fui
gostando mais dela. E hoje no consigo imaginar como teria sido minha vida sem ela, a
"minha" Sylvia.

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Durante muito tempo aquele foi o nico lugar em que eu falava de AIDS. As vezes, nem
mesmo falava, mas s o fato de saber que ali dentro, pelo menos, eu tinha o direito de ter
AIDS j era uma grande coisa. Fora dali quase ningum sabia, e os que sabiam -- meus
pais, meus tios de Manaus e meus tios dos Estados Unidos -- nunca tocavam no assunto.
Uns porque estavam longe, outros porque no sabiam mesmo o que dizer. E ento minha
vida era assim: mais difcil do que ter o vrus da AIDS era ter que fingir que no tinha.

Uma vez meu pai comprou um livro que falava sobre o assunto e largou em cima de algum
mvel onde eu pudesse ver. Peguei o livro e dei uma olhada. Era bem tcnico, falava das
formas de contgio, dos exames, estatsticas, de pesquisas que estavam sendo feitas para se
tentar descobrir mais sobre a doena... Nada de novo. De vez em quando tambm saa
alguma matria no jornal. Mas cada um dizia uma coisa, eram teorias diferentes,
tratamentos diferentes, e tinha gente brigando at pela descoberta do vrus. V se pode.
Pessoas morrendo no mundo inteiro e neguinho brigando pra dizer quem foi o primeiro a
isolar a maravilha do H I V.

Eu lia de tudo um pouco. De vez em quando, minha tia Dete dos Estados Unidos tambm
me mandava algumas reportagens que saam por l. Teve at uma vez, em novembro de
1989, que eu assisti a uma palestra. Uma amiga minha que estava fazendo cursinho na rea
de biolgicas comentou comigo que assistiria a um curso de fim de semana sobre AIDS e
outros temas. Eu acabei me inscrevendo e fui com ela (sem despertar suspeitas,  claro).

O curso era voltado pra gente da nossa idade e o professor era um cara duns quarenta anos,
metido a enturmado, daqueles que ficam fazendo piadinhas imbecis para provar que so
nossos amigos. J no primeiro dia falou de AIDS. Contou uma

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rpida histria do vrus, da contaminao, e depois ficou horas mostrando slides onde
apareciam pessoas doentes. Era uma foto, uma piada sarcstica e risos. Ele mostrava, por
exemplo, a foto de uma afta numa pessoa normal e depois outra afta numa pessoa com
AIDS que, segundo ele, ficava imensamente maior. Mudava o slide e mostrava uma ferida,
mudava de novo: com AIDS, um "ferido". Diarria, sarcoma de Kapos. "Ah, essa 
linda!", ele dizia e apontava para os rgos genitais de algum com AIDS em estado
terminal e com alguma doena sexualmente transmissvel. Senti nojo, no das figuras, mas
daquele espetculo ridculo que tratava de algo to srio como se fosse um filme de terror
barato e de quinta categoria.

Depois fez mais piadas sobre o comportamento sexual dos jovens e ilustrou com
historinhas do tipo: "Da os dois se conheceram e j transaram logo de cara, no primeiro
dia. Aposto que no sabiam nem o nome um do outro (risos). Mais tarde ela descobriu que
havia sido contaminada".

Grande coisa, eu havia transado s depois de seis meses de namoro e contaminada do
mesmo jeito. O problema no estava no tempo, e sim no preservativo, ou melhor, na falta
dele. Mas, em vez de dar nfase a isso, ele preferia dar uma lio de moral.

Para concluir, fez um "joguinho de estatstica", dizendo que naquela poca havia tantos
casos, dentro de mais alguns anos o nmero triplicaria e, mais um pouco, metade da
populao j estaria contaminada.

-- Para vocs terem uma idia -- ele continuou --, imaginem que, numa sala cheia de
gente como esta, pelo menos uma das duas pessoas sentadas ao seu lado estaria com o
vrus.

Da todo mundo olha pro lado, faz uma careta de medo e cai na risada. Nessa hora at eu ri.
Ri porque fiquei imaginando a cara da minha amiga, que estava do meu lado olhando

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pra mim e rindo, se ficasse sabendo que eu tinha mesmo o tal vrus. Era pattico! E pattica
tambm era a atitude do professor que, ao mesmo tempo que queria mostrar que pessoas
contaminadas podiam estar em qualquer lugar, parecia no levar em conta que ali mesmo
pudesse haver uma. Ou ser que ele era to insensvel a ponto de fazer aquela gozao toda
assim mesmo?

No final senti uma enorme desesperana e pena, muita pena de todos ali. Do professor, pela
sua tentativa intil de conscientizar os jovens atravs do medo e de lies de moral; dos
jovens, pela certeza de que nada daquilo faria com que se protegessem; e de mim, porque
no tive coragem de me levantar bem no meio da palestra e contestar tudo. Pra comear,
dizendo e mostrando que pessoas com AIDS ou com o vrus da AIDS no so nenhum
monstro. Que s ter medo e comportamento moralista nunca havia salvado ningum. E que
as pessoas tm  que encarar tudo de frente, sem tabus e preconceitos.

Sim, era isso mesmo que eu deveria ter feito. Mas no fiz, continuei sentada em silncio. Se
fosse hoje, entretanto, depois de tudo que vi e vivi, me levantaria sim e contaria toda minha
histria. E porque acredito que esse seja o melhor caminho  que estou aqui escrevendo este
livro. Para que eu comece a me levantar e no deixe outros carem.

Maro de 1990. As frias em Corumb acabaram e as aulas em So Paulo comearam.
Agora minha vida era assim: faculdade de manh, trabalho  tarde e teatro  noite e nos fins
de semana. Mas no durou muito tempo, no. Trs meses depois eu j havia largado a
faculdade.

O curso em si at que no era ruim e, finalmente, eu estava estudando s as matrias de que
gostava: portugus, Ingls, literatura, poesia, comunicao. As aulas eram como

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em qualquer outra faculdade. Uns cem alunos por classe, todos batendo papo l no fundo e
uma pobre duma professora l na frente discursando para meia dzia de interessados, s
vezes nem isso.

Os professores eram bons. Se bem que eu sou meio suspeita para falar disso. Sempre achei
que, por pior que fosse um professor, ele sempre tinha alguma coisa pra nos ensinar, ainda
que no fosse bem a matria dele. O mais chato de tudo era ter de levantar s seis da
manh, pegar um nibus e cruzar a cidade. Nessa poca eu j tinha carta, mas uns meses
antes eu havia dado uma "batidinha" e ento no me sentia segura o suficiente para ir
dirigindo.

Em suma, minha vida acadmica no era nenhuma maravilha. Mas, apesar de tudo, dava
pra ir levando como qualquer outro mortal. O que aconteceu ento? Contas, oras. A minha
cabea comeou a fazer contas de novo. E depois de alguns clculos cheguei  infeliz
concluso de que eu no teria tempo de termin-la, pois antes disso j teria morrido.

Nessas aparece um abelhudo qualquer e diz: "Mas voc no pode pensar assim. Todo
mundo vai morrer um dia". Eu sei, gente. Estou cansada de saber disso, mas no  a mesma
coisa. Deixa ver se eu consigo explicar.

Suponhamos que eu faa um bolo de chocolate -- por sinal o nico que sei fazer. Receita
da Gbi, l da escola. Era o bolo que a gente fazia pra vender no recreio e arrecadar
dinheiro pra nossa formatura. Os ingredientes so os seguintes:

3 xcaras de farinha de trigo

2 xcaras de acar

1 xcara de chocolate em p

2 xcaras de gua fervente

1 xcara de leo

2 ovos

50
1 colher de sopa de fermento em p

1 colher de ch de bicarbonato de sdio

1 pitada de sal.

A voc pe tudo numa tigela e mexe. Passa margarina numa frma retangular, despeja a
massa dentro e pe no forno pra assar. Para completar, uma cobertura de brigadeiro e
pronto! A est o bolo de chocolate mais gostoso do mundo!

Algum chega ento e diz que, sem voc perceber, estava marcando o tempo enquanto voc
fazia o tal bolo. E que -- na maior calma, sem pressa nenhuma -- voc levou exatos 45
minutos. Ele prope o seguinte: que agora voc faa tudo de novo, o mesmssimo bolo, no
mesmssimo tempo, s que com uma pequenina diferena: vai pr um relgio bem na sua
frente marcando os minutos e fazendo tique-taque. Vamos l?

Um, dois, trs e j! Ingredientes: ovos, onde esto os ovos? Na geladeira. Pega os ovos.
Ploft! Os ovos caram, maior meleca. Pano, onde  que tem um pano? Ah, na rea de
servio. Abre a porta da rea, o Felipe foge (Felipe  o nosso cachorro, um bcud-hound,
aquela raa que tem uns vinte centmetros de orelha, cinco de pata, oitenta de comprimento
e  gordo, bem gordo). Entro na rea de servio e reviro tudo pra procurar o pano. Acho o
pano, volto pra cozinha, mas os ovos no esto mais l onde eu os havia derrubado, agora
esto espalhados por toda a cozinha (arte do seu Felipe,  claro, e de suas longas orelhas
que arrastam tudo pelo caminho). Tiquetaque, j foram cinco minutos. Droga, depois eu
limpo. Pego outros ovos, quebro dentro da tigela. Pego a farinha, o saco t furado, mais
sujeira. Tique-taque, tique-taque, no vai dar tempo! Acar, chocolate, leo: mais meleca!
Tique-taque, dez minutos. gua, tem que ferver a gua. Pe numa panela, leva pr fogo,
no acho o fsforo. Fsforo, fsforo, cad o fsforo!! Minha v vem passando calmamente
pela cozinha:
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-- V, no tem fsforo nessa casa no?!

-- No, minha querida, o fogo  automtico.

-Ah...

Tique-taque, tique-taque, quinze minutos, tique-taque, ferve a gua, tique-taque queima a
mo. Tique-taque, tiquetaque no vai dar tempo! Sal, bicarbonato, fermento, manteiga,
margarina... Socooooorrrro!!!

Viu? Foi mais ou menos isso que aconteceu comigo. Eu me atrapalhei toda e larguei a
faculdade. Acho que nem preciso dizer que nos dois casos, no bolo e na faculdade, o tempo
no havia se esgotado. Se olhasse no relgio da cozinha perceberia que ainda restavam
muitos minutos. E, se olhasse no relgio da vida, perceberia que hoje j estaria formada.
Mas como {ningum  perfeito...

Continuei ento a estudar teatro. Eu estava adorando esse novo curso, era de longe o
melhor que eu j havia feito. Quem o indicou foi a dra. Sylvia. Eu iria prestar um teste
numa escola e precisava de algum para me dirigir numa cena. Foi a que ela me falou do
tal professor, um senhor duns cinqenta anos que trabalhava com teatro havia muito tempo
e at tinha feito, mais tarde, uma faculdade de psicologia para compreender melhor o
psiquismo dos personagens. Logo de cara me interessei por ele; quando assisti a uma de
suas aulas ento, nem se fala. Seus alunos estavam fazendo uma cena de Hamlet e, quando
acabaram, ouvimos a opinio do professor. At aquele dia, eu jamais tinha visto algum
levar um texto to a srio, tratar os personagens to a fundo e se dirigir ao teatro com tanto
respeito. Fiquei maravilhada. E, em vez de prestar o exame na outra escola, passei a estudar
ali com eles.

Foram trs anos dedicados ao teatro. Tnhamos aulas de interpretao, corpo, voz.
Estudvamos as tragdias gregas,

52
obras de Shakespeare, Strindberg, Tennesse Williams, autores nacionais e muitos outros.
Mas, acima de tudo, estudvamos a alma humana, como dizia nosso mestre, Wolney.

At que um dia, quando j estava com o diploma na mo e o documento que me permitiria
trabalhar como atriz profissional, fiz minhas malas e fui embora, largando tudo para trs.
53
4. ou'r e welcome!
Meu pai me largou no aeroporto, eu despachei minha mala e fui em direo ao porto de
embarque. O guarda conferiu meu passaporte e depois me apontou o caminho.  minha
frente, o local de revista. Coloquei minha bolsa sobre a esteira rolante e passei pelo detector
de metal. "Pode seguir", disse a moa. Caminhei at o porto dez e, quando cheguei  sala
de embarque, me sentei. Olhei no relgio, ainda faltavam quarenta minutos, mas a sala j.
estava cheia de pessoas que como eu, iriam para o outro lado do mundo. Muitas delas
literalmente para o outro lado do mundo, pois a ltima escala do avio seria em Tquio.

Me levantei, cruzei a sala e fui ao banheiro. Odeio esses banheiros pblicos com esses
espelhos enormes, por mais que voc evite, acaba sempre dando de cara com voc mesma,
que  que eu fiz com o meu cabelo? Eu estava horrvel. E pior  que eu sempre soube que
me detestava de cabelo curto.

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s vezes a gente faz cada coisa consigo mesma que  difcil de acreditar.

Voltei pra sala de espera, finalmente o embarque foi anunciado. Os passageiros formaram
fila e entraram no avio. Minha poltrona no era do corredor como eu queria, mas ao menos
ficava na ala de no-fumantes. Sentei-me, agora era s esperar o avio levantar vo. Isso
me fez lembrar da minha primeira viagem aos Estados Unidos quatro anos antes. Nova
York... O urso! Toda vez que penso em Nova York me lembro do urso-branco do zoolgico
do Central Park. Como ele era fofo! Eu adorava v-lo mergulhar naquela imensa piscina
transparente e descer at o fundo, como se estivesse em cmera lenta. A ns ficvamos nos
olhando de pertinho, separados apenas pelo vidro. Como era lindo! Puxa, j haviam se
passado quatro anos. Muita coisa tinha acontecido nesse tempo, muita coisa.

"Tripulao, preparar para decolagem", anunciou o piloto. O avio comeou a mover-se at
pegar velocidade na pista, fez aquele barulho todo e saiu voando em direo a outro lugar.
E se h algo de que eu me orgulho nessa vida so os lugares por onde passei. E l estava eu,
indo para mais um. Um lugar que at quinze dias atrs eu nem sabia que existia. E ali,
dentro do avio, comecei a lembrar.

Fazia muito tempo que eu no encontrava os meus amigos da escola. De repente me deu
uma saudade enorme. Pouco antes de viajar tinha ligado pra Priscila meio sem jeito. Contei
pra ela da minha vida, de como estavam as coisas. Ela me falou dela e do pessoal da escola
com os quais ainda mantinha contato. Eu disse que estava pensando em viajar de novo.
Dessa vez para fazer um curso de ingls na Califrnia. Ela me ofereceu uns prospectos de
cursos no exterior.

A noite, em casa, olhei um por um e separei s os da Califrnia. Mesmo assim ainda eram
muitos e, para dizer a verdade,

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quase todos iguais. Fotos de lugares bonitos na frente com depoimentos de alunos dizendo
o quanto amaram o curso, opes de alojamento etc.: Santa Brbara, Santa Mnica, So
Francisco, parei no seguinte: era uma foto bonita duns prdios altos e atrs um mar bem
azul: "San Diego State University", estava escrito. " pra l que eu vou." 

Peguei o endereo e fui at o representante deles no Brasil! A moa me explicou que o
prximo curso comearia em quinze dias. "D tempo?", eu perguntei, "Se voc
providenciar tudo bem rpido ainda d", garantiu ela.

Antes disso, porm, teve o aniversrio da R. E l foi todo mundo pra casa dela. J fazia um
tempo que a gente no se via.

-- D, Cris, Lumpa, Luiz! Nossa, t todo mundo igual mesma cara, mesmas brincadeiras,
mesmo jeito de se vestir,

-- O que  que voc queria, Val?

-- Ah, sei l, que tivesse todo mundo diferente, j com cara de adulto, executivos, ricos,
famosos.

-- E Val. Voc viaja, hem?

-- Ah, no era o que a gente combinava l na escola? Que] quando a gente se encontrasse
uns anos depois todo mundo estaria diferente?

-- Pois , n? S que a gente continua a mesma coisa.

-- Calma a, pessoal. Eu pelo menos j me formei -- contestou a Priscila.

--  mesmo, n Pri? Agora voc j  "a administradora",! pra quem no sabia nem o que
queria, at que voc se saiu bem -- tiramos um sarro. -- E a, como  que voc se sente?!

-- Vocs querem saber mesmo? A mesma merda. -- Todoj mundo caiu na risada. j

-- E voc, R, t gostando de fazer direito?

-- ... mais ou menos. Ah, no sei ainda muito bem.

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- Como ainda no sabe? Voc j t quase acabando!

- Bem feito -- retrucou a D. - Cansamos de te falar pra fazer produo de moda, foi seguir
o papai, viu no que deu.

- E, D, v se tambm no fala muito. Voc t gostando de administrao, por acaso?

-- No, t odiando! Sem contar que ainda faltam dois anos. No agento mais a PUC.

-- T vendo, D? -- disse a Pri. -- Quando a gente saiu da escola voc no quis prestar l,
disse que era faculdade de babaca, que s iria estudar se fosse na FAAP, onde tinha gente
bonita. Se danou! Acabou tendo que ir pra PUC de qualquer jeito.

-- E, sem contar que ainda tive que fazer um ano de cursinho. E voc, Val, largou mesmo o
teatro?

-- Larguei.

-- Por qu?

-- Ah, sei l, desisti, mudei, fracassei. No sei.

-- Desistiu mesmo, Val? -- perguntou o Luiz. -- Mas voc gostava tanto!

-- . E voc, Luiz? Fiquei sabendo que a sua banda t indo superbem, que voc t
detonando no sax, que at j deu entrevista no J Soares.

- T, t superlegal, vamos at gravar um disco. Mas mesmo assim eu continuo com a
engenharia. Nunca se sabe, n?

- Gente, eu tenho uma coisa pra falar -- disse o Cristiano. - Cara, no peguem AIDS.
Ontem eu fui no Emlio Ribas. Meu, que coisa horrvel! AIDS  a coisa mais deprimente
que eu j vi. Usem camisinha, usem!, usem!

Pronto. Tava demorando, eu sabia que ia surgir esse assunto a qualquer hora. Nos ltimos
anos as pessoas comearam a falar mais no assunto. E eu, disfara...

- E a, Cris, t gostando de fazer medicina? -- perguntei.

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-- T, era o que eu queria mesmo.

-- Ei, pessoal, daqui a pouco vai chegar o namorado da Renata!

-- Xi,  mesmo! Quem diria hein, a R namorando srio?

-- E voc, D, acabou l com aquele?

-- Graas a Deus! Puxa, quatro anos. J tava na hora mesmo. Foi o maior atraso de vida.

-- ...ento, quando eu fui atender - estava dizendo a Lumpa.

-- Atender? Lumpa, voc j est atendendo?

-- J, oras! l mesmo, no ambulatrio da faculdade.

-- E a, t gostando de odonto? Desistiu mesmo de ser tenista?

-- Ah, gente, no ri, vai. Aquilo foi s uma fase.

- A, dona Lumpa!

-- Mas ento, como eu estava dizendo -- continuou ela --, chegou um cara que era viado
para fazer obturao. A, lgico, eu no quis atender.

- Por qu?

-- Como "por qu"? Porque o cara era viado, oras. E hoje em dia, com esse negcio de
AIDS, no d pra facilitar. E a gente que  dentista sempre corre risco.

Dessa vez no pude me conter:

-- Pera, Lumpa, primeiro que voc no pode julgar algum s porque ele  viado, como
voc diz. E, segundo, que j est mais do que provado que AIDS no  coisa s de
homossexual, at uma criana pode ter o vrus.

-- , eu sei, mas no  bem assim...

-- Lgico que . Qualquer pessoa que for no seu consultrio pode ter AIDS. A nica coisa
que voc tem a fazer  tomar as devidas precaues para se proteger contra o vrus. Usar
luva, esterilizar o material, tudo o que for possvel. Mas

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isso no  s com viado,  com qualquer pessoa que voc atenda.

-- Tambm no  assim, n Vai! -- defendeu o Luiz. -- Eu tambm no sei se atenderia se
fosse comigo.

A eu explodi.

-- Gente, que ignorncia, eu no acredito que vocs ainda pensem assim, que AIDS  s
coisa de marginal! Ser que vocs no percebem que com esse preconceito todo vocs
acabam correndo mais riscos?

-- Ah, Val, no exagera, vai!

A vontade que eu tive foi de marcar uma consulta com a Lumpa e ir l no consultrio dela.
Ela, lgico, iria me atender com o maior prazer, pois, afinal de contas, eu era sua amiga,
menininha rica da sociedade, limpssima, gente finssima. S que a, quando ela viesse com
aqueles materiais todos cutucar a minha boca, eu lhe diria alto e bom som:

-- Eu tenho o vrus da AIDS!

Eu queria ver s a cara dela. Que ignorncia! Bem, quem sabe daqui a uns vinte anos ela
aprenda e faa como o meu dentista, que quando lhe perguntei "eu sou portadora do HIV,
voc me atende?", "claro", ele respondeu, "eu s vou tomar algumas precaues. Mas fique
sabendo que essas precaues eu tomo com qualquer pessoa. Voc me avisou que tem HIV,
s que pode ser que outros no me avisem, uns porque no avisam mesmo, outros porque
nem sabem que esto contaminados. Por isso, eu tomo precauo com qualquer cliente".
Que palavra bonita: PRECAUO, bem diferente de PRECONCEITO, e bem mais segura!

Continuamos a conversar, ouvindo msica, comendo e bebendo.

-- Gente, tenho uma novidade -- eu disse --, estou indo viajar na semana que vem.

59
--  Val, voc sempre avisa em cima da hora.

--  que eu sempre resolvo em cima da hora.

-- Pra onde voc vai?

-- Pra San Diego, na Califrnia.

-- Quanto tempo?

-- O primeiro curso  de dois meses. Mas vou ficar mais, bem mais. Talvez nem volte.

-- Credo! V se escreve pelo menos.

--  claro que eu vou escrever, principalmente porque eu vou querer saber do final da
novela "A sra. Priscila aceitar ou no o novo emprego?', tchan, tchan, tchan, tchan...

-- Ah Val, no goza, eu t na maior crise.

- T sabendo, Pri. - A Priscila estava num dilema. Trabalhava num lugar que odiava; em
compensao, ganhava uma grana legal. S que acabara de passar no teste duma empresa
de auditoria, a rea que ela queria fazia tempo. Nesse novo emprego, porm, ela trabalharia
o dobro e ganharia a metade.

-- E a, o que  que eu fao? -- ela nos perguntava.

-- No faz nada, oras. Pede demisso da que voc est e no aceita a outra. A fica coando
o dia inteiro. H! H! H! -- a gente brincava.

-- Cala a boca, meu! Vocs s falam merda. O pior  que meu pai t enchendo o saco, fica
a dizendo que dinheiro  tudo na vida.

-- , n? Digamos que uma grana de vez em quando  bom. Mas, por outro lado, ficar
neurtico o dia inteiro num escritrio que voc odeie  pra matar qualquer um. Concluso:
sei l, droga, faz o que voc quiser. O que VOC quiser! Entendeu?

-- Ei gente, eu tambm estou num dilema - essa era a Lumpa --, eu no sei se continuo
com aquele cara ou no.

-- Nossa, Lumpa, que problemo, hein?

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-- A Lumpa ficou mais idiota depois que comeou a transar...

-- O qu? A Lumpa j t transando?

-- Tambm j tava na hora, n? Vinte e dois aninhos...

-- Ah, gente, no fala no, que eu ainda no transei -- falou a Pri.

-- Eu tambm no! -- disse a Renata.

-- bom, vocs sempre foram meio devagar mesmo!

-- D pra parar de rir, Cristiano? Quem v pensa que voc  o comedor.

-- Comedor no, mas bem que eu j tracei umas.

-- Pronto, agora ele vai comear a contar suas proezas sexuais. Vai l, Cris!

-- E voc, Val? Conta a como foi sua primeira vez!

-- Que conta a o qu, meu!

-- , Preta, voc nunca conta nada pra gente.

-- Vocs so foda, hein?

-- Vai, fala, fala logo.

-- T bom, vai, foi aquele cara do navio.

-- O qu?! Aquele que voc namorou quando a gente tava no segundo colegial?! Sua
traidora, voc nem contou pra gente!

-- Ah...  que foi um negcio meio complicado. Ele era meio louco, andou me batendo.

-- Val, voc nem contou nada?! Bem que a gente achou voc meio estranha naquela poca.

-- , ele vivia me perseguindo, me ameaando, aquilo me deixava meio nervosa.

-- Voc precisa se abrir mais com a gente. Voc nunca fala nada...

-- , eu sei... Mas e a, Cris, voc ia contar das suas proezas sexuais. Conta a, como  que
foi? Usou camisinha, pelo menos?

61
- Usei!

-- Usou mesmo todas as vezes?

-...

--  o qu? -- perguntou a Pri.

-- Quase todas, vai.

-- Bonito, n Cristiano? Chega a com esse papo de mdico, que  pra todo mundo usar
camisinha e voc que  bom, nada -- disse a Lumpa.

-- No, gente, mas agora eu t usando -- explicou ele. -- E voc, Lumpa, usa?

-- No, mas tambm eu s transo com o meu namorado.

-- E da, Lumpa, o que  que tem isso? - eu perguntei.

-- Eu confio nele, oras!

-- Meu, no era voc que tava falando agora mesmo que no ia atender o viado no seu
consultrio por medo de AIDS? E a, pra transar, onde o risco  muito maior, voc no usa
camisinha s porque o cara  seu namorado? V se acorda, Lumpa!

--  isso mesmo, quem  que garante que o cara no tem o vrus? As vezes ele tem mas
nem sabe. Pode ter pego anos atrs. E, se no usa camisinha com voc, provavelmente
tambm no usava com as outras.

-- E no fala muito tambm, viu Cris? Voc acabou de falar que j transou sem camisinha
-- disse a Pri.

--  isso a, Cristiano! -- eu reforcei.

-- Ah ? E voc, Val? S transou de camisinha at agora?

-- No -- e  por isso mesmo que eu estou contaminada, eu pensei. Eu tinha que contar
isso pra eles, eu tinha que alertar os meus amigos. Eu tinha que mostrar que AIDS podia
acontecer com qualquer pessoa, inclusive com um de ns.

-- Gente... -- Mas aquilo ficou preso na minha garganta, e eu no consegui falar. -- Olha,
no adianta nada a gente ficar

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discutindo. Se vocs tiveram a sorte de transar at agora sem camisinha e no se
contaminaram, timo! Mas daqui pra frente no desperdicem essa chance, no desperdicem
isso por nada desse mundo.

-- , Val, voc t certa -- disse a Pri.

-- E, Priscila, voc t falando isso s porque nunca transou! -- provocou a Lumpa.

-- Ainda no transei mesmo. Mas t aqui, ! - ela abriu a bolsa e tirou uma camisinha --,
t aqui pra quando eu quiser transar.

-- T certo, Pri -- concordou o Cris --, s que toma cuidado que essa a j deve estar
vencida!

Todos riram.

-- No achei graa nenhuma, viu, Cristiano? -- reclamou a Priscila, se esforando para no
rir.

-- Eu t falando srio! -- continuou o Cris. -- Camisinha tem mesmo prazo de validade.

-- Viu s, Pri? Trate ento de usar logo!

-- Vocs so muito engraadinhos!

-- A, Pri, tem que usar!!! Tem que usar!!!

Ah, meus amigos... At quando eu ia ter que esconder tudo deles? At quando eu ia ter que
continuar fingindo que nada daquilo estava acontecendo comigo?

"Dentro de instantes daremos incio ao servio de bordo", anunciou uma voz pelo
microfone, fazendo com que eu me lembrasse de que estava dentro daquele avio. Avio...
E, eu estava indo embora, no precisava mais pensar naquelas coisas.

A aeromoa colocou uma bandeja na minha frente. Nossa, eu havia at me esquecido de
que eu ainda no tinha jantado. Carne com batatas. Eca! Ultimamente eu no andava com a
mnima fome, mas vamos l, uma forcinha... Caramba, j

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anda difcil comer por a, imagine nesse pratinho. Corta a carne, derruba a batata. Pega o
pozinho, esbarra no copo de refrigerante. Abre a manteiga, cai na salada. Chega!!
Vejamos o que temos de sobremesa: hummm, tortinha de chocolate! Que delcia,
experimento... "Que delcia", se no tivesse esse gosto de areia, bl, desisto.

A aeromoa recolhe a bandeja e avisa que vai passar um filme. Eu coloco o fone de ouvido,
mas no me interesso. As luzes j esto apagadas e eu acho melhor dormir. Fecho os olhos,
mas no consigo. Dormir num avio no  to fcil assim. L fora  noite e faz escuro. E
perdida na escurido est a Lua. E perdida nessa imensido estou eu. O homem foi pra Lua
antes mesmo de eu nascer. Agora eu estou indo embora e ningum nada pode fazer.

O dia amanheceu, o avio pousou fazendo aquele barulho enorme que eu adoro. Respirei
fundo e pensei: "Califrnia, a vamos ns!". Passei pela alfndega onde o policial conferiu
meus vistos de estudante e turista: corretssimos. Depois foi s pegar o outro avio e em
meia hora estava em San Diego. Cu claro, sol forte, clima seco. Peguei minha mala e
chamei uma buttle, um servio de vans parecido com txi.

O motorista loiro de cabelos encaracolados desceu, me cumprimentou simpaticamente,
pegou minha mala e a colocou no porta-malas.

-- Podem entrar -- ele disse para mim e para um senhor que tambm estava ali --, eu vou
levar primeiro esse senhor, t?  quase o mesmo caminho.

-- T, tudo bem. Melhor, assim eu j vou dando uma olhada na cidade.

Entrei, sentei, coloquei o cinto de segurana e partimos. O motorista e o outro passageiro
foram conversando enquanto eu olhava pela janela. Ns estvamos numa daquelas ruas

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enormes. Abri o vidro para sentir o vento batendo no meu rosto. Ah, que delcia! Havia
muito tempo que eu no sentia essa sensao de liberdade!

Depois de uns minutos perguntei:

-- Demora muito pra gente chegar na cidade?

-- Ns j estamos na cidade -- respondeu o motorista, rindo.

-- Ah ?  que isso daqui parece uma estrada.

-- San Diego  assim mesmo. Os bairros so todos espalhados. Para ir de um canto pro
outro parece que voc est viajando.

-- Que interessante... Mas eu achava que a cidade era menor.

-- No, no. Ela  a stima maior cidade dos EUA. Voc  de onde?

-- So Paulo. Conhece?  uma cidade bem grande tambm, l do Brasil.

-- Brazil? The Amazon!

-- ... Brazil, a selva...

-- Voc veio estudar aqui?

- Vim.

-- T vendo aquela montanha?  l que ns vamos deixar esse senhor.

- Que bonito!  ali que o senhor mora? - perguntei ao outro passageiro.

-- , sim.  um lugar muito bom.

Parecia mesmo. Era uma montanha l longe, cheia de casinhas. Quando chegamos em
cima, descobri uma vista mais bonita ainda. San Diego era assim, cheia de montanhas
bonitas.

Enfim, chegamos  casa daquele senhor. No era nenhuma manso, era uma casa simples e
engraadinha, mas com uma coisa, ou melhor, sem uma coisa que eu trocaria por qualquer
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manso: no tinha grades nem muros. Era apenas rodeada por um gramado que se
confundia com o da casa vizinha, que se confundia com o da outra casa vizinha, e da outra,
e da outra... O senhor pagou a corrida, se despediu com um sorriso e desceu.

-- E agora SDSU, certo? -- perguntou-me o motorista, j com o carro em movimento. --
Que lugar da universidade voc vai?

-- Que lugar? Nos dormitrios.

-- Qual dormitrio?

-- Qual? Sei l qual. Foi s o que me disseram.

O motorista me olhou pelo retrovisor, balanou a cabea rindo e disse:

-- Voc sabe quantos dormitrios tem nessa universidade?

-- No. Quantos?

-- Por volta de cem!

-- Ah, ? -- caramba, e agora? S eu mesmo, ir morar num outro pas e no levar o
endereo direito! -- Ah moo, ento... ento me deixa em qualquer lugar que eu me viro.

Ele me olhou de novo pelo retrovisor, balanando a cabea e rindo:

-- Pode deixar que eu vou te ajudar a achar o seu.

-- Verdade? Obrigada, hein? Obrigada mesmo!

-- E isso no vai te custar nada a mais -- completou ele.

Puxa, pensei, se fosse l no Brasil, era bem capaz de o motorista me largar no meio da rua e
eu ter de virar uma homel&m. Homel&M... homel&M... cara, me amarro no som dessa
palavra, homele&m,): sem-casa. Sabe que at deve ser bem legal ser uma homele&m. Mora
na rua, fica vendo os carros passarem, no tem que fazer exame de imunidade, no tem que
tirar passaporte, s come quando tem comida. Fica l sem horrio, sem ningum pra encher
o saco, olhando pr cu, pras estrelas.

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Deve ser bem legal mesmo. Se a minha vida no der certo nesta universidade, eu acho que
vou virar uma homele&m.

Continuei olhando pela janela e apreciando a vista. Apreciando a minha nova cidade.
Alguns minutos depois ele disse:

-- Ns j estamos dentro do cmpus da universidade.

-- Nossa,  tudo to grande, moderno, bonito. Parece uma cidade mesmo (e eu parecia uma
caipira chegando na cidade grande).

-- Mas  como uma cidade! As pessoas que vivem aqui quase nunca precisam sair do que
eles chamam de rea da universidade. Mais ali pra frente tem supermercado, cabeleireiro,
farmcia etc. Agora eu vou te levar no escritrio do Instituto de Lnguas, pra gente
perguntar qual  o seu dormitrio, t?

Ele parou o carro em frente a umas casinhas com cara de escritrio. Entramos. A moa do
balco nos informou qual era o meu dormitrio e avisou que eu tinha um teste em meia
hora.

-- O qu? Moa, eu acabei de viajar treze horas de avio, t zonza at agora, nem
almocei...

--  -- ajudou o motorista -- ela deve estar muito cansada!

-- Bem, ento voc pode fazer amanh, se preferir.

-- Mas eu vou ficar mais atrasada ainda? -- os testes, para saber qual o nvel dos alunos, j
haviam comeado na segunda e hoje j era quarta. -- No, no. Pode deixar que eu fao
hoje mesmo.

A mulher me deu um bolinho sem-vergonha pra tapear a fome e l fui eu com o motorista
pro meu dormitrio. Paramos em frente a um prdio bem alto cujo nome era Tenochca. Ele
tirou a minha mala do carro e a levou at a portaria. A moa que estava tomando conta dali,
depois de procurar meu nome na lista, informou que eu havia sido transferida de prdio, j

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que eu queria ficar sozinha num quarto. O motorista pegou minha mala de novo, entramos
no carro e fomos para o outro prdio: Toltec Hall. Era mais baixo, tinha s trs andares. Era
todo de tijolinho vermelho, com um gramado verde na frente. Ele pegou minha mala de
novo e fomos para a portaria. Nossa, eu j estava com vergonha.

- Deixe que eu carrego", eu disse.

- No, que  isso...", retrucou ele.

O cara da portaria pegou a lista e achou meu nome. Aquele dormitrio estava praticamente
vazio.

-- Tem aqui um formulrio para voc preencher, depois voc me traz. Ali  a sala de
televiso, ali tem uma cozinha e sua caixinha de correio  aquela ali. A lavanderia  no final
do corredor. E eu estou sempre na portaria das duas s seis da tarde. Qualquer coisa, vem
falar comigo. O seu quarto  no segundo andar, sobe aquela escada ali e vira no corredor 
direita, que  a ala das mulheres. Alguma pergunta?

- Agora no, mas mais tarde provavelmente terei um monte.

Mais uma vez o motorista pegou minha mala, subimos as escadas e viramos  direita num
corredor cheio de portas. 201,
203, 205... 213, aqui. Chegamos! Abri a porta e dei uma rpida olhada no quarto, olhei no
relgio:

-- Eu j estou atrasada!

-- Vamos que eu te deixo l pra fazer o teste -- disse o motorista, que foi me mostrando o
caminho enquanto me levava.

-- Voc j conhece por aqui?

-- J.  que eu trago sempre estudantes do aeroporto pra c - ele estacionou a van perto
dumas casinhas, as salas de aula do Instituto de Lnguas, que ficavam em frente a um
estacionamento a cu aberto. Por ali havia vrios estudantes, pelo jeito todos estrangeiros,
como eu. Desci da van e olhei no relgio:

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-- Chegamos em tempo! Ainda tem at uns minutinhos. Olha, se no fosse voc, no sei o
que seria de mim. Obrigada!

-- Voc  bem-vinda! -- ele disse. Essa  a traduo ao p da letra de you are wdcoinc,
que as pessoas geralmente traduzem por "de nada". Mas eu prefiro "voc  bem-vinda".
Acho bem mais bonito, adoro quando algum diz isso para mim.

-- Quanto ? -- perguntei.

-- So quinze dlares.

-- T aqui -- dei a grana pra ele e ele foi pegar o troco. -- No, no precisa, t certo.

Ele me olhou assustado:

-- Mas voc me deu uma nota de cinqenta dlares!

-- T, mas t certo. E muito obrigada, hein?

-- Ei, garota, voc sabe quanto  isso? Voc sabe quanto so cinqenta dlares?

-- Sei. Acho que sei...  pra voc, pode ficar! -- Ele continuou me olhando assustado. --
No  pelo dinheiro no -- expliquei --  que voc foi muito legal, mesmo.

-- Tudo bem, tudo bem... -- concordou ele, mas ainda parecia inconformado. --  que eu
no estou acostumado a receber tudo isso de caixinha.

-- Ah, tudo bem, eu tambm no estou acostumada a encontrar gente to legal pelo
caminho.

-- Ah... Bem, ento... obrigado. E, olha, eu espero que d tudo certo pra voc por aqui. Te
desejo boa sorte!

-- Obrigada. Acho que vai dar, sim. Principalmente se todas as pessoas que eu encontrar
forem legais como voc! Obrigada de novo!

-- Voc  bem-vinda.

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5. Um peixe fora Dgua

Achei minha sala e fiz o longo teste. No estava muito difcil, o nico problema era que
tudo ao meu redor balanava como se eu ainda estivesse no avio. Em todo caso, sa de l
com a sensao de que tinha ido bem. O professor nos informou a hora e o local da prova
oral, que seria no dia seguinte. Por hoje, ento, era s. Deixei a sala de aula e fui para o
ptio da frente.

Vrios estudantes tambm estavam por ali. Gente de todo o tipo: loiro gordo, morena
magra, amarela de cabelo comprido, roupa curta e cabea raspada, vestido srio e sapato
esquisito, chinelo largado e brinco na orelha, brinco no nariz e olhos verdes, olhos azuis e
olhos puxados, patins coloridos, mochila nas costas, cala rasgada, blusa listrada... Puxa,
aquilo era o mximo! Era esse um dos maiores motivos pelo qual eu tinha vindo pros
Estados Unidos. Era um dos lugares onde eu poderia encontrar gente do mundo todo. Uma
mistura de

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raa, religio, cultura, gente! E como eu gosto de gente! Eu poderia ficar horas sentada num
lugar, s olhando as pessoas passarem, andarem, falarem, gesticularem, pensarem... Aquilo
ia ser um prato cheio!

Dei mais uma olhada ao meu redor: "Amanh, quem sabe, eu conheo algum", pensei.
"Agora eu preciso  comer". Fui seguindo o caminho que o motorista havia me ensinado
at a lanchonete, daquelas que se encontram em qualquer esquina do mundo. timo, assim
no preciso pensar no que vou comer, vai o de sempre. Pede-se rpido, paga-se rpido,
come-se rpido. Aqui tudo  rpido. Passei tambm num mercadinho e comprei alguma
coisa de comer para levar para o quarto. E voltei pra casa apreciando a vista. Era tudo
muito bonito por ali, muito limpo, muito bem-cuidado. E, universidade de Primeiro
Mundo!

Cheguei no dormitrio tranqilo, vazio. Guardei minhas compras na geladeirinha. , tinha
at geladeirinha e microondas dentro do quarto. Por falar em quarto, eu nem o tinha olhado
direito. Era um quarto simples, porm prtico. Dois armrios embutidos, um de cada lado
da porta. Depois duas camas, cada qual encostada a uma parede. Embaixo da janela, que
ficava em frente  porta, duas escrivaninhas e duas cadeiras. Tambm havia dois jogos de
prateleiras e dois murais de cortia com algumas tachinhas. O quarto era assim, tudo de
dois. Isso porque os americanos tm o costume de dividir os seus quartos com outro
estudante. E o mais curioso  que isso  feito s escuras, ou seja, voc s conhece o seu
companheiro de quarto depois que vo morar juntos.  claro que voc preenche um tal
formulrio, na tentativa de acharem o "par perfeito". Mas a verdade  que a nica garantia
que eles lhe do  que o seu roomtnate vai ser do mesmo sexo. Para os americanos, j
acostumados com o tal esquema, isso deve ser

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moleza, at interessante se voc cai com uma pessoa legal. Agora, pra mim, sem prtica
desse tipo de coisa, era melhor ter um apartamento s meu mesmo.

Alm do mais, tinha aquela histria toda da AIDS. No que se pegue s por dividir o
mesmo quarto,  claro que no. E acho que quase todo mundo j sabe disso. S que, mesmo
assim, ainda existe gente que se recusaria a faz-lo. I Por qu? No sei. At, se voc for
uma dessas pessoas, quem i sabe um dia possa me explicar.

Abri minha mala e comecei a guardar as roupas no armrio. Arrumei meus quinhentos
vidros de gotinhas homeeopticas na prateleira (ultimamente eu vinha me tratando comn
homeopatia), arrumei a cama e pronto. Mas... estava meio esquisito, meio vazio. Nada pra
pregar no quadro de cortia, nada pra colocar sobre a escrivaninha. Eu tinha trazido pouca
coisa mesmo.

Abri a persiana para olhar l fora. Meu quarto era de frente e a vista era bonita. Logo
abaixo, rodeando o prdio, um gramado, depois uma cerca, a calada, a rua bem calma
onde dificilmente passava carro, a outra calada do lado de l, a outra cerca e um abismo.
Um abismo enorme. E depois, l longe, outra montanha repleta de casinhas.  que devia ser
mais ou menos assim: a universidade ficava em cima de uma montanha e entre essa
montanha e a outra l na fremte havia um vale, o tal abismo. Era uma vista bonita. Pra
direita, mais pro fim da rua, um outro dormitrio, s que bem alto, mais novo e, pelo jeito,
ainda estava completamente vazio. J para o lado esquerdo havia casas que no pareciam
ser de estudantes. Eram maiores, todas muito bem-cuidadas, cheias de flores, com carros na
porta. Talvez por ali terminasse a universidade. Amanh quem sabe eu desse uma andada
por l. Hoje eu j estava muito cansada. Continuei ali sentada na escrivaninha,

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olhando pela janela. J eram quase sete horas e o sol ainda continuava forte. "Aqui deve
escurecer s l pelas nove, dez", pensei. Por falar em hora, era uma boa hora pra eu ligar
pra casa. Liguei pro meu pai, pra avisar que eu havia chegado bem.

-- E a, como foi a viagem?

-- Foi bem, tudo tranqilo.

-- J fez amizade?

-- No, n pai, acabei de chegar.

-- E o quarto  bom?

-- ,  superbom.

-- Olha, a sua me j ligou aqui pra casa atrs de voc.

-- T, eu vou ligar pra ela.

-- Ento t, filha. V se te cuida e vai ligando a.

-- T pai, t bom. Um beijo, tchau!

Minhas relaes com meu pai no andavam grande coisa. Antes de eu viajar, eu tinha
quebrado um belo dum pau com ele. Por causa da histria de eu querer viajar, ir embora, e
ele no querendo que eu fosse. E depois, ainda por cima, atrasou meu passaporte, eu perdi o
avio do sbado e s pude ir na tera. Ih, maior encheo de saco. Ultimamente andava
tudo assim, s briga, briga com todo mundo. Briga no trabalho,' briga em casa. Ainda bem
que eu tinha ido embora.

Liguei pra minha me:

-- Oi, me. Tudo bom? Cheguei.

-- Oi, filha, tudo bem? E a, como  que foi de viagem?

-- Ah, foi bom...

-- Poxa, voc bem que podia ter passado por aqui, era caminho -- minha me agora estava
morando em Manaus. Tinha se mudado para l fazia uns oito meses. -- No custava nada
voc ter vindo aqui. Sua irm j veio me ver duas vezes.

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-- T, me... -- no sei pra que que ela queria que eu fosse pra l. A gente s briga. Mais
fcil brigar pelo telefone mesmo. -- T bom me, t... Quando eu voltar -- se voltar,
pensei --, vou you.

-- T bom, filha. Mas e a, como  que  esse curso que voc vai fazer?

--  um curso de ingls.

-- E o lugar que voc t hospedada  legal?  bom? Tem bastante gente?

-- Tem. Agora t meio vazio porque  poca de frias de vero. Tem mais estudante
estrangeiro.

-- E voc t pensando em ficar quanto tempo?

-- Bastante.

-- Mas quanto?

-- Ah me, no sei. No mnimo seis meses.

-- Seis meses! Tudo isso? E voc vai ficar fazendo o que a esse tempo todo?

-- Estudando, oras. Trabalhando, pensando, sei l.

- Voc no acha que vai se sentir muito sozinha, minha filha?

-- Sozinha? -- sozinha... me lembrei do que era se sentir sozinha pra mim, e de quanto
aquilo era dodo. Olhei para o quarto  minha volta: vazio. No havia mais ningum l,
somente eu... eu... EU. -- No, me, eu no vou me sentir sozinha.

-- Ento, t, minha filha. V se me escreve logo. Voc sabe que eu adoro receber suas
cartas. A famlia inteira adora. Ah, no se esquea de ligar pra sua tia Dete na Filadlfia --
a tia Dete agora estava morando l --, t bom? Ento um beijo e se cuida.

-- T, me, outro, tchau!

Desliguei o telefone e fiquei ali, olhando pro nada e pensando na tal da "Eu". Tomei
coragem e fui olhar-me num pequeno

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espelho quadrado, grudado na porta do armrio. Aquele rosto que no parecia mais parecer
comigo, aquele cabelo esquisito... Continuei olhando. Pra falar a verdade, no tinha nada de
errado comigo. Eu continuava a mesma de sempre, s o cabelo que estava meio diferente,
chanel curto, reto, mas no tava nada horrvel. O que  que era ento? Por que agora,
quando eu me olhava no espelho, eu no sabia mais quem eu era? Ser que algum dia eu
soube? Ser que algum dia eu voltaria a saber? Quanto tempo? Quanto tempo ia levar para
eu saber quem eu realmente era? Talvez semanas, meses, anos... "No importa quanto",
pensei. "S importa que eu estou decidida a faz-lo."

J era tarde, eu estava cansada e louca por um banho. Peguei toalha, xampu, sabonete e fui
pro banheiro, que era quase em frente. Era um banheiro grande, todo branco como um
vestirio. Peguei o ltimo chuveiro, embora estivesse tudo vazio. Fiquei uma meia hora
embaixo da ducha quente e forte, sentindo a gua escorrer pelo meu corpo. Nada como um
bom banho pra gente ficar como nova! Sa, me enxuguei e coloquei meu robe de seda. Eu
de robe de seda, chiqusima! Olhei aquilo e dei risada. At que era bonito, curto, de seda
vermelha, com mangas compridas e largas. Continuei me olhando e me lembrando da
histria daquele robe.

Um dia antes de viajar, eu estava em casa arrumando a mala quando chegou minha irm.
Seis meses antes ela havia se mudado para o interior, onde tinha ido fazer faculdade de
veterinria. Desde ento a gente no se via muito. Para dizer a verdade, fazia anos que a
gente no se "via muito". Mesmo antes, quando ainda morvamos sob o mesmo teto, quase
nunca nos falvamos. E nas poucas vezes que isso acontecia acabvamos brigando.

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-- E a, j est arrumando a mala? -- ela chegou perguntando.

-J.

-- E vai ficar quanto tempo?

-- No mnimo uns seis meses.

-- E t levando s essa mala?! -- pronto, j ia comear.

-- No -- respondi. No estava a fim de brigar no ltimo dia.

-- Se fosse eu, ia levar essa s para passar um ms!

-- Ainda bem que eu no sou voc, n? -- brinquei.

-- T levando roupa de vero?

-- , cala jeans, shorts, camiseta...

-- Nada de inverno?

-- S um casaco bem quente. Eu t pensando em passar o Natal com a tia Dete l na
Filadlfia. J pensou que legal? Da eu vou ver neve!

-- E roupa pra sair  noite, pegou?

-- No. Nem t pensando em sair  noite.

-- Mas leva,  sempre bom levar.

- h.

-- E camisola, pegou?

-- Puxa, me esqueci disso.

-- Sabia! Voc t acostumada a dormir s de camisetona, que nem uma mendiga...

-- E voc parece a me falando!

-- Ah, voc no vai dormir l s de camiseta, n? Toda maltrapilha!

Pior que ela tinha razo. A droga do banheiro era no corredor, eu tinha que levar um robe
pelo menos.
-- Voc no tem? Tambm, nunca compra nada.

--  que eu no sou consumista que nem voc! Pera, acho que eu tenho um pijama que a
me me deu. -- Abri o armrio: l estava ele na caixa! Ela j o tinha me dado fazia mais de

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um ano. Eu tenho essa mania -- ou melhor, tinha --, quando algum me d alguma coisa
de que eu gosto muito no consigo usar. Deixo l, guardada, e de vez em quando pego pra
olhar. Tirei da caixa, era lindo, de seda azul. -- , acho que eu vou levar. Mas eu tambm
precisava de uma coisa pro calor, e no vai dar tempo de comprar. Voc no tem nada?

-- Tenho. Tenho um conjunto de robe e camisola que eu acabei de mandar fazer.

-- Se eu te conheo, deve ser chiqusimo. Pega l pra eu ver. -- Ela o trouxe. -- , at que
no  to fresco. Me d a, vai.

-- Que d, o qu! Eu vendo! -- Na nossa famlia eu sempre tive fama de po-duro, mas a
minha irm no ficava atrs no.

-- Ah, larga de ser muquirana!

-- Que muquirana o qu! Voc que trabalha com o pai, que ganha a maior grana, que t
muito rica! Pode ir comprando a.

-- T bom, vai. Eu compro. Quanto voc quer? Ela disse o preo.

-- Tudo isso?

-- . E se quiser! -- disse. Fazendo doce.

-- T bom vai, toma -- dei a grana pra ela. Eu queria aquele robe de qualquer jeito. Eu
queria levar alguma coisa dela junto comigo.

Voltei pro quarto, acertei o despertador pro dia seguinte, apaguei a luz e me deitei. A cama
at que era bem confortvel e o travesseiro tambm. Mas eu estava to cansada que no
conseguia dormir. O dia hoje tinha sido bem movimentado, mas amanh, sim,  que iria
comear a minha "nova vida". Fiquei olhando pro escuro, tentando fazer um esboo da
minha "nova vida". No consegui. Nada veio  minha cabea.
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Eu no tinha idia do que aconteceria dali pra frente. "Tudo bem", pensei, "ter me
desligado do passado j foi uma grande coisa. O que vier agora ser bem-vindo. S uma
coisa eu peo, meu Deus,  que eu s encontre pessoas muito boas!" E isso me fez lembrar
da primeira pessoa que eu havia conhecido na cidade: aquele motorista. Ele tinha sido um
anjo. Isso deve ser um bom sinal. "Isso vai me trazer muita sorte", pensei. E dormi
tranqila.

No dia seguinte, acordei, tomei meu cereal no quarto e fiz meu teste oral. Depois fui
almoar na cafeteria que parecia uma praa de alimentao cheia de opes. A tarde, tirei
foto pra carteirinha de estudante e fiz amizade com uma mulher, a Raquel, uma
venezuelana de 38 anos. Fomos passear por San Diego juntas. Ela parecia ser uma boa
pessoa e eu sempre gostei de fazer amizade com gente mais velha. Principalmente com
essas pessoas que saem por a fazendo cursos pelo mundo. Por um lado, elas tm aquele
jeito jovem aventureiro e, por outro, muitas histrias pra contar. Ela era engenheira qumica
e tinha ido fazer o curso para aperfeioar seu ingls. J tinha viajado pelo mundo todo,
inclusive conhecia o Brasil.

-- Conheo.  um pas maravilhoso!

-- Ah, ? -- me assustei com aquilo. Eu no andava muito de bem com o Brasil
ultimamente. Ela, vendo a minha cara, perguntou:

-- Por qu, voc no gosta?

-- Pra falar a verdade, no muito. Ah, t cansada de tanta sujeira, corrupo.  um
querendo passar a perna no outro, todo mundo desonesto, voc nunca pode confiar em
ningum.

-- , eu sei, pas de Terceiro Mundo. A Venezuela tambm tem muito disso. Mas mesmo
assim eu no troco meu pas por nada. J viajei muito, j morei em outros lugares por um
determinado

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tempo e no vou negar, aprendi muita coisa. Mas melhor do que simplesmente ficar l 
voc voltar pra casa e dividir tudo de bom que aprendeu com seu povo. Nesse mundo
existem lugares belssimos, mas o "meu pas" ser sempre o "meu pas" e precisa de mim
l, para torn-lo melhor.

-- Ah, ? Sei... Ah, sei l! S sei que eu no ando pensando muito assim, no. Por mim eu
ficava aqui pra sempre.

-- Mesmo? Quanto tempo voc pretende ficar?

-- Pra comear, uns seis meses.

-- Ah, ? Que bom! Voc vai aprender muita coisa...

-- , eu imagino.

-- Vai aprender at mesmo a gostar de seu pas.

O qu?! Isso eu no imaginava. E fiquei l olhando pra ela sem entender nada, esperando
uma explicao. Mas ela no deu nenhuma. Ficou quieta, olhando pra mim com um certo ar
de superioridade que, na hora, chegou a me irritar. Odeio quando as pessoas ficam com esse
ar. T na cara que elas sabem de alguma coisa, mas no se do nem ao trabalho de te
explicar. S mais tarde vim a entender que se tratava de algo inexplicvel. Eu s aprenderia
se fosse por mim mesma.

No dia seguinte saiu o resultado do teste e, para minha felicidade, tinha conseguido um dos
nveis mais altos, o 5. Depois dele s havia mais um, o 6. "Se eu me esforar", pensei,
"acabo esse curso em quatro meses. Quatro meses? Mas o que  que eu vou fazer depois?
Ah, deixa pra l, depois eu penso nisso".

Procurei a sala onde eu teria minha primeira aula. Quando cheguei, j havia algumas
pessoas. Ao todo, ramos quinze. Dei uma olhada geral, parecia bem misturada. Legal!
Gente de todas as idades, de vrios lugares. Me sentei na frente, perto da parede. O
professor chegou e, enquanto esperava o pessoal

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se ajeitar, foi arrumando suas coisas em cima da mesa. Era um cara esquisito. Alto, enorme,
calvo e de barba branca. O rosto cor-de-rosa sempre suado e os olhos azuis. Estava usando
uma camisa xadrez e uma cala jeans velha. No desgrudava de um chapu enorme estilo
cauby e de uma caneca plstica alaranjada com o desenho de um cauboy. Definitivamente,
ele gostava de caubys.

Depois que todos estavam ajeitados, ele comeou a falar. Disse que seu nome era Joe e que
seria nosso professor de interpretao de texto. Explicou mais ou menos como seriam
nossas aulas, falou do curso em geral, fez brincadeiras. Ele parecia ser uma pessoa
simptica. Esquisito, muito esquisito, mas simptico.

Em seguida, sugeriu que ns nos apresentssemos, dizendo nosso nome, idade, de onde
vnhamos, o que era, o que fazamos, essas coisas. Ele comeou chamando um cara do
fundo.

-- Meu nome  Toshio -- disse ele--, tenho quarenta anos, venho do Japo e sou professor
de ingls para crianas. Quando voltar, vou continuar lecionando.

A seguinte:

-- Meu nome  Juliet, tenho 25 anos, sou economista e venho da Frana.

-- Meu nome  Ivan, sou espanhol, tenho 21 anos e vim pra c porque estou de frias e
quando voltar terei que servir o exrcito.

-- Exrcito? -- perguntou o professor. -- T ferrado! -- ele brincou. Todos riram.

-- Eu sou a Kita, tenho dezenove anos e sou estudante. Vim pra c para melhorar o meu
"ingrs", quer dizer, "ingls" -- o pessoal riu. -- Eu sou da Coria.

- Meu nome  Cario, tenho 26 anos e sou advogado na Itlia.

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-- Advogado? -- perguntou o professor. -- Voc sabe como ns chamamos os advogados
aqui? Shark, tubaro! Porque onde tem sangue l esto eles em volta.

Risos.

-- Meu nome  Shira...

"Daqui a pouco vai chegar a minha vez", pensei. "O que  que eu vou dizer? O que  que
eu sou mesmo? Pronto, vai comear de novo a crise de identidade. Bem, vejamos, acho que
eu sou atriz. Ah , eu tenho at um documento que prova que eu sou atriz profissional." Me
lembrei do dia do teste. Fiz minha cena de tragdia grega, um texto belssimo. E depois fui
chamada pelo presidente da banca examinadora para ser entrevistada.

-- Por que voc quer esse documento? -- ele me perguntou.

-- Antes de tudo, porque sou uma atriz - disse aquilo calmamente, mas com tanta
convico que at eu me surpreendi. Por alguns segundos, ningum disse nada, mas depois
choveram perguntas. "Quantos anos voc tem?", "Quantos anos voc estudou teatro?",
"Quem foi seu professor?", "Quais os estilos que voc j encenou?", "O que voc pretende
da sua carreira?". Respondi a todas com tranqilidade e alguns dias depois chegou o
resultado. E, eu era uma atriz com DRT e tudo! Mas depois, logo depois... depois eu fiz
minhas malas e fui embora, largando tudo pra trs. No, acho que eu no podia dizer que eu
era atriz.

Talvez, ento, eu fosse uma administradora. Eu no tinha nenhum curso mas, afinal, foram
trs anos de trabalho ajudando a administrar os negcios do meu pai. Trs anos... Pra, no
final, ele jogar tudo no lixo com uma frasezinha infeliz:

-- E voc pensa o que da vida, minha filha? Vai agora pros Estados Unidos, vai ficar por a
nessa vida at quando?

-- At quando eu achar que est bom!

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-- Ah, ? E at quando que voc acha que eu vou te sustentar?

-- Me sustentar?!!! -- fiquei to pasma que nem consegui falar mais nada. Eu estava
trabalhando desde os dezenove anos, trs anos e meio, trs anos e meio trabalhando
justamente pra no depender de ningum! Podia ter ficado l, s estudando, na folga, como
todos os meus amigos nessa idade fizeram. Mas no, fui trabalhar, fiquei trs anos da minha
juventude trabalhando naquele "cl familiar" pra, no final, ter de ouvir isso! , acho que eu
no era droga de administradora nenhuma.

-- E voc? -- era o professor perguntando. Danou-se, foi pra mim.

-- Eu? Bem, meu nome  Valria, tenho 22 anos, venho do Brasil e eu sou... eu sou... --
tentei pensar em mais alguma coisa, no numa simples profisso, que no fundo no
descreve ningum, mas em alguma coisa l dentro, bem dentro de mim. O que eu era? O
qu? O qu? No consegui. Olhei ao meu redor e estavam todos me olhando, esperando a
resposta. -- Vocs querem saber de uma coisa? -- eu finalmente disse. -- Eu no sei o que
eu sou! E  justamente pra descobrir isso que eu estou aqui. E depois que eu descobrir, da
sim eu resolvo o que  que eu vou fazer da minha vida - a classe inteira riu.  sempre
assim, nos momentos em que eu falo mais srio as pessoas acham graa.

Algum, pelo menos, parecia ter me entendido: o professor esquisito. Ele apenas me fitou
com aquele olhar misterioso, deu um sorriso cmplice e disse:

-- Eu espero que voc encontre o que veio buscar.

E eu sorri de volta pra ele, feliz. Aquilo j tinha valido metade da minha viagem.

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As aulas continuaram num ritmo puxado. Comeavam s oito, nove da manh, paravam ao
meio-dia para o almoo. Recomeavam  uma e iam at quatro ou cinco da tarde. E eu
estava adorando. Por estar num nvel alto, j tinha condies de trabalhar com textos mais
complexos, que, na sua maioria, eram bem interessantes.

Enquanto isso, fiz amizade com mais uma poro de gente e todo dia, depois das aulas,
saamos para conhecer os pontos tursticos da cidade, os shoppmgs, os parques, os museus,
as praias. A gente alugou uma van e assim ficava fcil ir de um lado pro outro e dava at
pra viajar. J no segundo fim de semana, fomos pra Los Angeles com um pessoal muito
legal: o Peter e o Andy, dois suos de 28 anos que trabalhavam juntos numa firma de
computao em Zurique. O Andy era uma gracinha, por sinal, lindo. Falava ingls muito
bem, tinha um papo muito interessante e um sotaque puramente britnico:

-- D pra voc no carregar tanto nas palavras? -- eu brincava. -- No  Noooou,  No.
No  Goooou,  Go. Parece que voc t sempre complicando!

Ele dava risada e exagerava ainda mais. J o Peter no tinha sotaque britnico, no tinha
sotaque nenhum. Todo o seu vocabulrio se restringia a umas dez palavras. Quando o Andy
estava por perto pra traduzir, timo, caso contrrio o negcio complicava e ficava pior que
conversa de Tarzan, "mim vai, ns vem".

Tinha tambm a Rosa e a Luli, duas espanholas de Barcelona, de 26 anos. A Rosa era
professora de crianas e falava pelos cotovelos. A Luli, ao contrrio, era mais quietinha e
vivia sempre mastigando.

O outro cara era um brasileiro, de Goinia. Tinha 25 anos e fazia engenharia. Falava ingls
muito bem e, acreditem ou no, durante a viagem inteira a gente s trocou uma frase em

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portugus. E olha que no foi por falta de tentativa minha, no. Tinha dias que eu no
agentava mais falar, pensar, sonhar, ler, escrever tudo s em ingls. Eu olhava pra ele e
implorava:

-- Marcos, pelo amor de Deus, fala uma palavrinha comigo em portugus, s uma, uminha,
fala s "oi".

E ele, nada. At o dia que, quase no fim da viagem, quando j no agentvamos mais
aquela comida americana, sonsa de tudo, paramos ao acaso num restaurante e ele pediu,
sem grandes esperanas, um jteak. Eis que chega um bifo acebolado, mas com cara de bife
mesmo. O Marcos experimentou aquilo e no agentou:

-- Nossa, Valria, oc no sabe a sardade que eu tava duma carninha dessa de verdade! --
A, quem no agentou fui eu e ca na risada. O Marcos, com todo aquele ingls perfeito,
falava portugus com um sotaque extremamente caipira.

A ltima que se juntou ao grupo foi a Carmem, tambm espanhola, e tinha a minha idade.
Aquela era sua primeira viagem sozinha ao exterior, ela era meio tmida e vivia com medo
de tudo:

-- Mas ser que no tem perigo a gente viajar com esse carro? E se a gente se perder? E se
o carro quebrar?

-- Fique tranqila -- acalmava a Raquel, j cheia de experincia --, a gente tem mapa, e
mesmo se a gente se perder a gente pergunta. Se o carro quebrar, tem seguro. E alm do
mais tem trs homens aqui pra cuidar da gente -- brincava ela.

-- Mas e esses caras, ser que no tem perigo a gente viajar com eles?

-- No, Carmem, eles so superlegais.

Ficamos no Embassy Suit. Um puta hotel fresco! As mulheres ficaram num quarto e os
caras num outro. Fizemos a maior zona.  noite, quando chegamos, fomos direto tomar

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um banho de piscina aquecida. No dia seguinte, acordamos cedo e fomos conhecer
Hollywood, Beverly Hills, Rodeo Drive.  noite, era aniversrio do Andy. Compramos
bexigas, um letreiro escrito Happy Birthday To You, bem americano, chapeuzinhos, bolo,
refrigerantes e fizemos uma festa surpresa. Aquele esquema de apagar a luz, ficar todo
mundo quieto e, quando o aniversariante chega, "Parabns pra voc..." Nossa, vocs
precisavam ver a cara dele.

No outro dia, conhecemos a praia de Santa Mnica, vimos uma exposio de arte e  noite
jantamos num restaurante italiano, cuja decorao imitava um vago de trem. Um lugar
muito animado. As pessoas falando alto, rindo, brincando. Tinha at um povo numa outra
mesa cantando. Era sempre assim, tudo muito legal, muito bonito. A, de repente, eu
comeava a olhar tudo como se eu no fizesse mais parte de nada, como se tudo aquilo
fosse uma cena de um filme e eu estivesse de fora assistindo. E a eu olhava para aquelas
pessoas e comeava a me perguntar: se essas pessoas soubessem que eu tenho AIDS, ser
que elas estariam aqui comigo? Ser que estariam jantando comigo, na mesma mesa? Ser
que as meninas teriam ficado comigo no mesmo quarto de hotel? Ser que o Andy e o Peter
continuariam insistindo em que, um dia, eu fosse visit-los na Sua? Ser...

- Val? Valria?!

-Ah?

-- Acorda, menina! Que que voc t pensando?

-- Nada, nada no. Eu s tava...

-- Come. Voc nem encostou na comida.

-- Ah, vou comer.

, acho que no tinha jeito mesmo. Nem que eu fosse pra mais longe, nem se eu fosse pro
Himalaia, continuaria tudo assim: eu me sentindo, sempre, um peixe fora d'gua.

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6. Banana com Coca-Cola
Segunda-feira: aula! Aula de manh, intervalo para almoo e,  tarde, mais aula. As aulas
da tarde eram de conversao. Muito agitadas, diga-se de passagem. A professora, uma
inglesinha, chegava cada dia com um assunto mais polmico que o outro: o papel da mulher
na sociedade, a eutansia, o racismo, casamento e divrcio, sexo, cultura... Assuntos que j
eram polmicos por si ss, imagine, ento, numa classe onde havia um aluno de quarenta
anos do Japo, um de vinte da Espanha, outro duns 35 da Arbia Saudita, eu de 22 do
Brasil, uma outra de vinte da Coria e mais outra duns 25 da China. Voc no tem idia de
como isso pegava fogo!

Um dia, quando discutamos o papel dos jovens na sociedade, Lim, minha amiga chinesa de
Hong-Kong, comeou a nos explicar como eram as coisas em seu pas.

-- Nossos pais escolhem nossa profisso -- ela nos contou calma, para no dizer
submissamente, naquele jeitinho meigo

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e tmido de falar, quase sussurrando, sempre pondo a mo na boca quando ria.

-- O qu?! -- eu disse, quer dizer, explodi. -- O seu pai escolheu a sua profisso?! Quer
dizer que voc est estudando medicina porque seu pai mandou? Eu no acredito! Eu no
acredito que isso ainda exista em algum lugar desse mundo. Voc nem sabe se queria ser
mdica e o seu pai ordenou que voc fizesse medicina?! Voc, por acaso, queria ser
mdica?

-- Na verdade, no... -- disse ela baixinho, como se estivesse com medo de ser ouvida,
mas vendo a minha cara de espanto foi logo consertando. -- Mas eu no preciso ser
mdica, posso trabalhar mais pro lado da pesquisa, laboratrio...

-- Mas era isso que voc queria?!  isso que vai te deixar feliz?

-- Bem... Na verdade, eu preferia estudar outras coisas.

-- Mas Lim, por que voc no disse isso pro seu pai? Por que voc no explicou, por que
no gritou um baita dum NO pra ele?

Ela riu colocando a mo na boca:

- Porque no meu pas so os pais que escolhem a profisso da gente.  assim, Val. A nossa
cultura  assim.

-- Mas, Lim, a cultura de um povo no  o conjunto de seus comportamentos, de seus
costumes? E se o povo somos ns, quando no estivermos satisfeitos com esses hbitos,
com essa cultura, a gente vai l e muda!

-- Calma a, Valria -- reclamou um outro da classe --, no  bem assim. Isso  muito
difcil.

-- No t dizendo que  fcil, mas  bem assim, sim! Se a gente  quem faz a cultura, a
gente tambm pode desfazer e fazer de novo a hora que achar que deve! Meu Deus,  to
claro, eu no acredito que vocs no tenham enxergado isso

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ainda. Ou ser que vocs vo preferir passar o resto das suas vidas vivendo situaes com
as quais no concordam? Ou ser que acham que a cultura  um fantasma velho que existe
pra assombrar a vida da gente? Tenham d, n?! Se uma tal coisa j no agrada ningum,
s atrapalha, que mal h na gente procurar solues melhores?  uma obrigao da gente
procurar solues melhores!

A essa altura, j estavam todos me olhando de boca aberta. E por alguns instantes eu me
senti a pessoa mais forte do mundo. At que, de repente, me dei conta de que aquele
discurso todo servia pra mim do mesmo jeito.

Puxa, quantas coisas eu havia agentado quieta nessa vida e continuava agentando,
sempre com a mesma desculpa de que " assim, vai ser sempre assim, por causa da nossa
cultura". Coisas que em outros lugares desse mundo j no existiam havia muito tempo. ,
Valria, voc e a sua santa boca que no consegue ficar fechada! -- Intervalo!

Ufa! Salva pelo gongo! Deixei a sala de aula e fui para o terrao. Esse prdio onde ns
tnhamos as aulas da tarde era diferente. Antigo, enorme, ficava bem no meio da
universidade, rodeado por um gramado imenso e muitas flores coloridas. Me sentei no
parapeito da varanda e fiquei olhando l pra baixo. O cu, como sempre, estava azul azul, e
l longe eu podia ver as rvores e alguns estudantes sentados desordenadamente no
gramado, lendo, descansando, pegando um sol.

-- Voc  uma pessoa muito forte.

-- Ah? -- me virei e dei de cara com um outro aluno. Um cara da Arbia Saudita.

-- Voc  uma pessoa muito forte! -- ele repetiu. E eu olhei em seu rosto, procurando
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alguma expresso de ironia ou cinismo. Mas no havia nenhuma. Ele falava aquilo srio.
Eu
apenas sorri e pensei: se ele soubesse.

-- Eu admiro muito mulheres assim como voc -- ele insistiu.

-- Ah, ? Pra quem vem de um pas onde as mulheres no podem dirigir carros, no podem
sequer sentar no banco da frente, tm que andar com os rostos cobertos e so prometidas
aos noivos para os casamentos arranjados entre famlias, at que est se saindo bem
moderninho!

-- Mas eu no concordo com nada disso. Tanto  que no me casei com a noiva prometida
que minha famlia arranjou. Eu casei com a mulher que eu amo, que alis  to enfezada
quanto voc -- ele disse rindo.

-- Que bom. Isso j  alguma coisa, j  um grande comeo. E a ns ficamos conversando,
ele me falou da sua vida em seu pas, dos seus costumes e de como era difcil aceitar
algumas coisas. E, tambm por isso, ele e a mulher tinham vindo passar um tempo nos
Estados Unidos. Ela j havia terminado o curso e voltado para a Arbia. O dele terminaria
em dois meses.

-- Ns alugamos um bom apartamento aqui em San Diego -- continuou ele --, mas agora
que a minha esposa no est mais aqui eu ando me sentindo muito sozinho. No tive muita
sorte em fazer amigos na Amrica.  uma pena, gostaria muito de ter pessoas com quem
conversar. -- Ele parecia ser uma boa pessoa. Coitado, devia estar mesmo se sentindo
sozinho.

-- Mas acho que  um problema meu, sabe? Sou muito difcil de gostar das pessoas. Mas
de voc, garota, eu gostei um bocado -- ele disse aquilo com tanta simplicidade e uma tal
sinceridade que chegou a me tocar.

-- Voc at poderia vir morar comigo.

- Ah? Eu ouvi direito?

-- Voc poderia vir pro meu apartamento. No precisa trazer nada, j tem tudo l,  s me
fazer companhia.

Socorro! O que quer dizer isso? Ser que se trata de uma cantada   Arbia Saudita, ou ele
s est sendo extremamente

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gentil? Ou ser que s porque  riqussimo (pelo menos  o que dizem suas enormes
correntes, anis e pulseiras de ouro) ele acha que pode sair por a, fazendo esse tipo de
convite para a primeira que aparece? Ou ser que ele est to carente que se tornou normal
conhecer uma pessoa hoje e convid-la pra morar junto no mesmo dia? E agora, o que  que
eu fao? Me ofendo, fao um escndalo e digo "Oh, o que  que voc est pensando de
mim?", ou levo numa boa e digo simplesmente "No, muito obrigada, mas  que eu j estou
muito bem instalada", e saio de fininho? Na dvida, acabei optando pela segunda. No
queria ser mal-educada e muito menos ofender ningum.

Talvez eu tenha agido mal pensando coisas ms a respeito dele. Mas, c entre ns, foi um
convite bem esquisito! E essa no foi a nica vez em que eu me senti assim, completamente
perdida, sem saber o que pensar. Isso acontecia direto. Tambm, pudera, eu estava num
lugar neutro, com vrias pessoas de vrios lugares do mundo, cada qual com sua cultura to
peculiar. Costumes, crenas, regras... to diferentes dos meus, que eu no tinha nada,
nadica, nem uma pistazinha sequer na qual eu pudesse me basear e tirar algumas
concluses.

Por exemplo, se a gente est no Brasil, num restaurante finssimo, e de repente algum d
um puta arroto, o que  que se pensa? "Que cara mal-educado!" Certo? Mais ou menos...
Sabe por qu? Porque se esse cara for coreano no se trata de falta de educao, muito pelo
contrrio,  algo perfeitamente natural, e at indica satisfao. Quer ver outra coisa? Se um
amigo convida pra sair e j no primeiro encontro paga a conta, o que  que voc pensa?
"Esse cara t com segundas intenes!"  muito provvel, se ele for brasileiro. Agora, caso
ele seja suo, relaxe,  pura gentileza. E ser gentileza tambm se ele abrir a porta do carro
para voc entrar e se oferecer

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para levar voc em casa tarde da noite. Tambm existe aquela outra situao dum gringo
dar de cara com uma mocinha de biquni minsculo na praia: "Que horror!" Que horror que
nada! Essa mocinha por acaso sou eu e fique sabendo o senhor que no Brasil a gente usa
coisa ainda muito menor!

Viu s? Concluso: depois de um tempo, eu percebi que no dava mesmo para julgar
ningum baseado nessas pistazinhas ou seriam nesses preconceitos.

Foi a que comecei a me sentir totalmente perdida. Estava eu l conversando com um
indivduo e logo de cara no conseguia formar idia nenhuma a seu respeito. Olhava suas
roupas, no me diziam nada; seu corte de cabelo, menos ainda; seus gestos, seu tom de voz,
seu vocabulrio, seu grau de instruo, sua posio social, nada! Socoooorro!

S ento eu me dei conta de que, em vez de ficar tentando formar idias a respeito dos
outros com base nesses pr-conceitos, (a maioria furados), eu deveria simplesmente prestar
ateno no que aquela pessoa tinha a me dizer. O que ela, como ser humano, tinha l dentro
de si. E foi ento que eu descobri coisas maravilhosas. Algumas at que jamais imaginei
encontrar.

Descobri uma coisa triste tambm. Quantas pessoas eu havia deixado de conhecer, quantas
coisas eu havia deixado de aprender por causa desses malditos preconceitos?

Tive vontade de viver pra sempre perambulando pelo mundo e, assim, conhecer muito
melhor as coisas, me aproximar mais do verdadeiro eu das pessoas. Mas, infelizmente, uma
vida inteira s de viagens  quase impossvel. Uma coisa porm eu me prometi, mesmo se
eu tivesse que voltar pro meu pas e ficasse rodeada por essas pistazinhas e por estes pr-
conceitos, eu iria me esforar ao mximo pra continuar olhando tudo sempre com esses
olhos de turista desavisado.

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A propsito, terminando aquela histria do rabe, algumas aulas depois, num intervalo, ele
se aproximou de mim todo feliz:

-- Valria, tenho duas notcias timas pra te contar. Voc nem imagina como estou
contente! A primeira  que arranjei um amigo pra morar comigo. Agora no estou mais me
sentindo sozinho. Tenho algum com quem conversar. E a segunda, voc no vai nem
acreditar. Eu falei com a minha mulher essa semana e ela me deu a notcia que est grvida!
Ns vamos ter um filho!

-- Um filho?! Nossa, que legal! Vocs vo ter um nenm! Parabns, Adub, parabns! Voc
vai ter muita coisa pra ensinar a ele.

Acho que no preciso dizer o quanto me senti envergonhada depois dessa conversa. Eu e
meus pensamentos maldosos; ou devo dizer preconceituosos?

E, mais ainda do que envergonhada, fiquei muito triste. Pois naquele momento me dei
conta de quanta coisa eu havia perdido, de quanta riqueza aquela pessoa tinha dentro de si
para me oferecer.  claro que eu no iria morar junto com ele. Minha cultura no me
permitiria isso. Mas, ainda assim, ns poderamos ter sido bons amigos.

Quatro, quatro e meia terminavam as aulas. Cinco horas, jantar. V se isso  hora de
algum jantar?! L ia eu pra cafeteria. O jantar era bem diferente do almoo.

-- Oi, pessoal. O que  que tem de janta hoje?

-- Frango.

-- Peixe.

--  frango! <

--  peixe!

-- Ih, vocs querem fazer o favor de entrar num acordo?

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--- Olha, acho melhor experimentar voc mesma. Eu experimentava:

-- Eca! Acho que no  uma coisa nem outra. Deve ser... deve ser uma panqueca.

Todo mundo ria. A comida era assim mesmo: irreconhecvel. Eu acabava sempre comendo
banana. Banana com CocaCola.

-- E, Vai, saiu do Brasil pra vir comer banana na Califrnia -- o povo tirava um sarro.
Pior foi o dia que a gente descobriu que a banana era made in Brazil. Chiquita Brazil, dizia
a etiqueta. -- Essa  boa!

-- E. Vamos sair mais tarde, da a gente come outra coisa por a.

-- Hoje no, obrigada. Eu t meio cansada, tenho umas coisas pra estudar.

-- E vai ficar sem comer de novo, Val?

-- Ah, depois eu me viro. Como a um sanduche, devo ter alguma coisa l no quarto.

-- Voc vai acabar ficando doente comendo mal desse jeito.

-- Ah, foda-se! Tchau gente, j t indo. At amanh.

Voltava andando pelas ruas e pelos campos da universidade. Eu havia aprendido um
caminho alternativo, pelo qual atravessava um enorme gramado, que quela hora estava
sempre vazio. Era muito bonito.

Chegava em meu quarto, abria a persiana, pegava os livros e estudava. Acabava, guardava
tudo, me sentava na escrivaninha e ficava olhando pela janela. A grama verdinha rodeando
o meu dormitrio. Num canto e noutro duas mangueirinnhas automticas que giravam e
giravam, fazendo um barulhinho e respingando gua. Depois a cerquinha, a calada, a rua,
a outra calada do lado de l, a outra cerquinha e... o abismo. Um abismo enorme. E l
longe outra montanha repleta de casinhas.

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Quem ser que morava naquelas casinhas? s vezes, eu tinha a sensao de que o mundo
todo morava nelas e, do lado de c, separada pelo abismo, s tinha eu.

O abismo... Ser que se eu me jogar nele eu morro? Vai ver que no. Sou to azarada que
sou capaz de nem morrer. Faz quatro anos que eu ouo: a AIDS mata, a AIDS mata. L no
Brasil, a nica coisa que eles sabem falar  isso. Liga a televiso, a AIDS mata No rdio: a
AIDS mata Cartazes, panfletos, a AIDS mata E eu aqui, desde os dezoito, quatro anos,
literalmente esperando. Puxa, no vejo a hora de morrer. Talvez eu deva mesmo me jogar
nesse abismo. Vai ser um alvio pra todo mundo. Pros meus pais, ento, nem se fala. com
certeza,  muito mais fcil receber a notcia de que "sua filha morreu!" do que "sua filha
est com AIDS". Morreu, morreu, acabou e pronto. Agora, "est com AIDS", tem que ficar
l, olhando pra cara da filha e pensando: "Ela vai morrer, ela vai morrer". E no morre
nunca. Puxa, como ia ser mais fcil se essa tal morte fosse logo. , com certeza eu devo me
jogar nesse abismo! S que tem um porm. Isso seria suicdio e meus pais, depois de uma
formao catlica, viraram espritas. E pros espritas a pior coisa desse mundo  o suicdio.
Eles acham que se a pessoa faz isso fica l queimando no inferno pro resto da vida, quer
dizer, da morte, ou talvez seja da eternidade, sei l. Essas coisas so to complicadas.
Concluso, eles no iam ter sossego do mesmo jeito. E tem mais, no que eu acredite muito
nisso -- me sinto muito burra acreditando em coisas que ningum pode provar --, mas
ainda tem aquele papo de reencarnao. J pensou se isso for verdade? Que merda, eu me
mato e depois ainda tenho que viver de novo. Puta atraso de vida! , acho que no tem
muito jeito, o negcio  ficar aqui sentada, esperando...

Quem diria, hein? A menina atrevida, cheia de sonhos, que na escola brigava pela
representao da classe, que vivia

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lutando pelos direitos dos alunos, que participava de passeata, de protestos, que ia mudar o
mundo quando crescesse, agora estava ali, olhando prum abismo, jogada num quarto do
outro lado do mundo. O exlio.

Olhei de novo pro quarto: um armrio, outro armrio; uma cama, outra cama; uma cadeira,
outra cadeira; uma escrivaninha, outra escrivaninha; uns cartes-postais de San Diego que
eu havia comprado. Fiquei olhando um por um. Fotos bonitas da cidade. Escrevi para
algum e fui colocar no correio. Pronto, j arranjei o que fazer! Sa do quarto e bati a porta:

-- Tchau, abismo!

Nesse meio tempo teve tambm a histria do mdico. Aconteceu que logo na primeira
semana eu fiquei com uma tossezinha bem chata, nada srio, mas eu no parava de tossir.
Acho que foi por causa da mudana brusca de temperatura entre o clima quentssimo do
vero e o ar condicionado geladssimo das salas de aula.  noite, sempre esfriava tambm e
nas praias ventava muito. At comprei um xarope que eu j conhecia de Nova York. Tomei
por uns dias, mas no adiantou. Como l mesmo, na universidade, havia um centro de
sade para os estudantes, resolvi procurar um mdico. Primeiro, uma enfermeira me levou
pra trs do balco, me pesou, tirou minha presso e temperatura com aparelhos precisos.
Tudo ali era de primeirssima qualidade, desde o atendimento at o termmetro de boca,
que era o mais psicodlico que eu j vira.

-- Pode aguardar-- ela disse, me dando mais um formulrio para preencher. Os
americanos adoram formulrios. Esse, por sua vez, era sobre dados fsicos, se eu praticava
esportes, se me cansava ao subir escada etc. Fui respondendo a todas,

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umas bem esquisitinhas por sinal, at que me deparei com uma: "J fez intercoune"
Intercouwe, que raio de palavra  essa? Eu no conhecia. Deixa eu ver se decifro. Inter, de
dentro, e coune, de curso: dentro do curso. No, acho que no  nada disso,  melhor eu
perguntar. Fui at o balco e chamei a enfermeira novinha, loirssima.

-- Ser que voc poderia me ajudar? O que quer dizer isso? -- e apontei a palavra.

Ela fez uma cara de assustada, arregalando os olhos, depois engoliu em seco, constrangida.
Olhou prum lado, pro outro, se debruou no balco, chegou bem pertinho de mim e disse
bem baixinho, franzindo a testa:

-- Significa se voc j... Se j... -- caramba, pela cara dela, devia ser algo de outro mundo!
-- Se voc j fez... - finalmente saiu bem fininho -- sexo?

-- Ah! Sexo?! -- ai, tanta frescura pra dizer essa palavrinha. No agento isso, uma coisa
to normal. Todo mundo faz sexo, os cachorros fazem sexo, as baleias fazem sexo, os
passarinhos fazem sexo! Mas os seres humanos no, eles no podem sequer falar a palavra
sexo! Ah, tenha santa pacincia!

Voltei pro meu lugar e terminei o tal formulrio. Agora era s aguardar o mdico. Fiquei
observando o movimento. Vi alguns deles passarem. Qual deles ser que vai ser o meu?
Passou um alto, grisalho, de barba e rabo-de-cavalo. Que legal, pensei, que legal um
mdico de rabo-de-cavalo. Depois passou uma mdica negra. Isso  o mximo nos Estados
Unidos, a gente sempre v pessoas negras ocupando cargos importantes. Fiquei olhando pra
eles e pensando: "Qual deles vai ser o meu?" Foi me dando um certo gelo na barriga. No
que eu tenha medo de mdico. J estou bem grandinha pra isso, mas  que a gente nunca
sabe que pea vai encontrar na frente. Mas a me lembrei do doctor que tinha cuidado de
mim

96
em Nova York. Os mdicos americanos costumam ser legais. Finalmente um deles se
aproximou de mim, Tinha uns quarenta anos, estatura mdia, calvo, com uma cabea bem
redondinha, olhinhos tambm redondos e azuis. Deu um meio-sorriso e disse:

-- Oi, eu sou o doctor Gust. Vamos entrar? -- ele tinha cara de legal. Tomara que ele seja
legal!

Fomos para uma das salinhas que, como a sala das enfermeiras, tinha porta-retratos com
fotos da famlia, geralmente de crianas e, s vezes, at desenhos infantis pendurados nas
paredes. O doctor no se sentou  mesa, apenas me ofereceu uma cadeira e puxou outra
para si.

-- Voc  a Val...Vauleu... -- ele riu -- acho que eu no vou conseguir pronunciar o seu
nome. Posso te chamar de Val?

- Pode.

-- Ento t, Val. Me conta por que  que voc veio aqui.

-- Porque eu estou com tosse.

- Sei. E voc est fazendo um curso aqui?

Da eu disse que sim e contei que era do Brasil. Ele achou muito interessante. "Que lugar
mais extico", ele brincou. E quis saber mais sobre minha estada na universidade.
Expliquei tudo a ele, que depois quis saber mais sobre a tosse.

- S isso? Nenhuma dor no peito, nariz entupido, resfriado, nada?

-- No.

-- T. E, fora isso, tem algum outro problema de sade, alguma outra doena?

Bem, nessa hora, o certo era eu dizer que tinha o vrus da AIDS. Caso houvesse alguma
ligao, ou simplesmente porque  sempre bom o mdico saber, para dar o tratamento
adequado. Mas  que era to chato falar disso. Da ele j ia vir

97
com aquele bando de perguntas e eu ia ter de contar minha vida inteira. Ai que saco! Sem
contar no susto que alguns deles levavam. Qualquer dia ainda mato algum do corao.
Bem, mas j que tinha que falar: -- Tem sim. Eu tenho AIDS.

98
7. "AIDS mata!" eu sei, porra, mas eu estou viva!
Ele me olhou com aqueles olhinhos azuis e disse:

-Sei...

bom, acho que ele no assustou. Se assustou, disfarou muito bem.

-- E faz quanto tempo? -- ele continuou.

-- Eu sei h quatro anos, mas j tenho h seis.

-- E como voc sabe disso?

--  que eu s tinha transado com uma pessoa e no tinha tido nenhum outro fator de risco,
transfuso, uso de drogas, nada.

-- Sei. E voc faz acompanhamento mdico?

-- Fao. Quer dizer, fazia l no Brasil.

-- E voc est tomando algum remdio? Tipo AZT?

-- No.

-- Por que no?

- Por que ainda no precisou?

-- ... quer dizer, na verdade, da ltima vez que eu fui no

99
mdico, h uns seis meses, ele viu meus exames de CD4 e disse que se continuasse
abaixando daquele jeito eu teria que comear a tomar remdio.

-- Sei. E da...

-- Da eu disse que no sabia se ia querer tomar remdio nenhum. Da ele disse: "Vai
tomar sim, por que no?". Da eu fui embora e nunca mais voltei.

-- Voc no gostou do jeito que ele falou, foi isso?

-- , mais ou menos.

-- E por que voc no quer tomar AZT?

-- Porque... -- no adianta muito explicar, esses mdicos no entendem nada disso mesmo.
Acham que a salvao da vida dos pacientes  tomar uns comprimidos e pronto. A vida fica
uma maravilha.

-- Por qu, Val? -- ele insistiu.

-- Porque esse AZT no cura nada. S serve pra prolongar a vida das pessoas. E eu no
estou interessada em prolongar vida nenhuma!

-- Sei, mas voc no tem vontade de refazer esses exames, s pra gente dar uma checada?

-- No.

-- Mas, Val, voc no acha que fazendo isso  a mesma coisa que... -- ele largou a
prancheta no colo e tapou os olhos com as mos -- no querer ver?

-- T, e se for? Mesmo que eu refizesse os exames e dessem baixo, eu no ia tomar
remdio nenhum.

-- T. Ento quer dizer que por enquanto voc s quer cuidar da tosse,  isso?

- .
-- Tudo bem. Ento vamos cuidar da tosse. Mas um raio X pelo menos eu vou ter que
pedir, para ver como est seu pulmo. Certo?

100
Eu tirei o raio X, que ficou pronto em quinze minutos. Voltei  sala dele.

-- Olha, Val, no pulmo voc no tem nada. E isso j  muito bom. S que eu no posso
garantir que essa tosse no tenha nada a ver com o HIV. O que eu vou fazer  te dar um
antibitico e outro xarope. E, na semana que vem, voc volta aqui pra eu te ver, t? E
enquanto isso voc poderia ir pensando um pouquinho no que eu te disse, da gente refazer o
CD4 s pra checar. O que  que voc acha?

Eu acho  que ele  muito educado e no ficou me enchendo o saco.

-- T, eu vou pensar.

-- timo. E voc no tem nenhuma pergunta a me fazer? Tem alguma coisa da qual voc
tem dvida, algo que voc gostaria de saber? Eu no sou especialista em AIDS, voc sabe.
Eu sou um clnico geral. Mas mesmo assim o que eu no souber eu posso me informar. Me
conta um pouco como  que  essa questo da AIDS l no Brasil?

Eu contei a ele e ns ficamos conversando.

-- Inclusive -- eu disse -- eu tenho uma dvida sim. Antes de vir pra c, eu ouvi uns
papos que no estavam querendo que os HIV positivos estrangeiros entrassem nos EUA.
Eu tentei me informar, mas ningum conseguiu me explicar direito essa histria. No
consulado, me deram o visto numa boa, sem perguntar se eu era portadora. Mas eu gostaria
de checar isso melhor. Ser que voc poderia me ajudar?

-- Claro. Vou me informar direitinho e na segunda-feira, quando voc voltar, darei a
resposta.

-- T, obrigada.

-- Voc vai voltar aqui na segunda, n? Vou estar te esperando! E caso voc tenha algum
outro sintoma, voc vem antes, t?

101
-- T. -- Puxa, esse doctor Gust era legal. No falei que os mdicos americanos
eram legais? Nem ficam mandando a gente fazer as coisas. Sempre perguntam antes
se a gente quer. Sa de l aliviada. No s porque ele tinha sido legal, mas tambm
porque agora eu tinha algum naquela cidade para poder conversar sobre aquilo.

Na semana seguinte, voltei l, com a tosse curada.

-- Doctor Gust, minha tosse passou!

-- Que bom, Val. Eu tambm j me informei a respeito dos estrangeiros HIV
positivos. O negcio  o seguinte: na verdade, o governo no est querendo que
essas pessoas entrem no pas. Eles tm medo de que muitos comecem a vir para c e
sobrecarreguem nossos servios de sade. Mas j que voc est aqui dentro, com o
visto de permanncia correto, pode ficar. O mximo que pode acontecer , mais
tarde, pedirem para voc se retirar, mas ningum vai te prender nem nada, pode ficar
sossegada.

-- T bom. Mas e quanto a eu ficar estudando aqui na universidade, voc acha que
tem algum problema? -- perguntei.

-- Como assim? Voc quer saber se  ilegal freqentar as aulas?

- .

-- Claro que no, n!

Claro? Por que claro? No vejo nada de claro. Um ano antes, no meu pas, uma
mennininha de cinco anos havia sido expulsa da escola simplesmente por ser
portadora do HIV. Mas eu no ia contar isso a ele. Era vergonhoso.

-- T. Ento eu posso ficar tranqila?

-- Quanto a isso, pode. Agora, eu andei conversando com umas pessoas que so
mais ligadas  AIDS e elas tambm acham que  muito importante o controle das
clulas CD4. Voc pensou no assunto?

102
- Mais ou menos.

- Voc havia me dito que l no Brasil, alm de AIDS mata, no se fala muita coisa a respeito. Eu tenho
comigo uns folhetos e umas apostilas sobre o vrus, a doena, sintomas, tratamentos. Se voc quiser dar uma
olhada, eu posso te emprestar. Algumas so um pouco tcnicas demais, mas, o que voc no entender,  s me
perguntar. O que voc acha?
-- Muito bom. Posso levar e te devolver depois?

-- Pode, claro. E tem outra coisa que eu gostaria que voc fizesse: um teste de tuberculose. Apesar de seu raio
X no ter apresentado nenhuma anormalidade, voc deve ter ouvido que ns temos tido problemas com
tuberculose aqui na Califrnia. Portanto,  sempre bom checar. O teste  simples, chama-se teste de mantoux.
A enfermeira injeta uma pequena substncia sob a pele e depois de alguns dias observa se teve reao.

-- Tudo bem, eu fao. Inclusive, antes de eu vir pra c, por exigncia da universidade, eu fiz um teste de
tuberculose. S que no o de mantoux, fiz um que analisa o sangue e deu negativo.

-- timo, mas mesmo assim eu gostaria de fazer o outro. Tudo bem?

Fiz o tal teste e voltei pra casa com o material sobre a AIDS.  noite, quando cheguei em casa depois das
aulas, comecei a l-los. Alguns eram bem tcnicos, como ele havia me avisado. Falavam sobre os estgios da
doena, da fase assintomtica e da fase sintomtica, quando o paciente podia apresentar febre, suores  noite,
diarria e gnglios aumentados no pescoo (eu no apresentava nenhum desses sinais), e, em seguida, do
aparecimento das doenas oportunistas, como tuberculose, pneumonia etc. Falavam da importncia do
controle das clulas CD4 e indicavam o uso do AZT a pacientes

103

que apresentassem o CD4 inferior a quinhentos. Hoje esses conceitos j mudaram. Mas o
que mais me chamou a ateno foram os folhetos das campanhas. Em linguagem simples e
direta, explicavam como era viver com HIV/AIDS. Por mais incrvel que parecesse, em
nenhum deles eu vi a palavra morte. Ao contrrio, todos usavam sempre a expresso
"pessoas vivendo com HIV/AIDS", pessoas VIVENDO com HIV/AIDS. Aquilo deu um
tilt na minha cabea.

Dois dias depois voltei ao centro de sade, para fazer a leitura do teste de mantoux'.
nenhuma reao. O que, segundo o doctor Gust, no era garantia total de que eu no tinha o
bacilo de Koch no meu organismo.

-- Ainda existe a possibilidade de que seu sistema imunolgico esteja bem fraco e por isso
no reagiu ao teste. Por isso  bom continuarmos de olho em voc.

- Certo.

Mas, e a, Val, voc leu aquilo tudo que eu te emprestei? O que voc achou?

-- Olha, os mais tcnicos so iguais aos que eu lia no Brasil. Agora, os folhetos so
completamente diferentes.

-- , eu imaginava, foi por isso mesmo que eu os dei a voc.
- Eles falam de pessoas VIVENDO com HIV/AIDS! - disse meio inconformada.

-- Claro. E voc tambm no est viva?

Eu meio sem jeito. Era difcil de acreditar naquilo vinda de um lugar onde a palavra AIDS
era usada como sinnimo de morte.
-- Val -- disse o doctor, se aproximando de mim --, vamos fazer um exame de CD4?

Eu olhei pra ele, para aqueles olhinhos azuis e redondos, pensei um pouco e respondi:

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-- Vamos.

-- timo, ele disse. S que tem uma coisa. Esse  um dos poucos exames que a
universidade no cobre e est custando por volta de duzentos dlares. Voc tem um plano
de sade? Se no tiver, eu tento dar um jeito.

-- Tenho sim, meu plano l do Brasil cobre as despesas no exterior. Quanto a isso, no tem
problema.

-- Certo. Vou te pedir tambm um exame de urina, pra checar se est tudo bem. E gostaria
de fazer um exame ginecolgico. Quando foi a ltima vez que voc foi ao ginecologista?

-- Foi antes de vir pra c, h uns dois meses.

-- E estava tudo bem?

-- Na verdade, eu estava com um negcio, mas o mdico passou um remdio e sarou. S
que agora parece que est voltando.

-- Que negcio?

-- ... Ah, eu no sei o nome em ingls.

-- Como  que ?

-- So umas bolinhas bem pequenininhas. No coa, no di, no faz nada, mas o mdico
explicou que tem que tirar. Da ele passou um remdio e matou a bolinha.  uma doena
sexualmente transmissvel. Uma DST.

-- Ah, j sei. O nome disso  condiloma, causado pelo HPV, o papilomavrus.

--  isso mesmo.  quase igual em portugus.

Pausa.

Agora voc deve estar se perguntando o que que uma menina de famlia estava fazendo
com uma DST. Isso, por acaso, no  coisa de prostituta, de gente promscua, quando muito
coisa de homem? No se trata de uma coisa to distante, que a gente at ri quando ouve
falar? Imagine sfilis, gonorria,

105
herpes. Pois , mas a verdade  que se trata de algo bem mais comum do que as pessoas
pensam. E como o prprio nome j diz, Doena Sexualmente Transmissvel, qualquer
pessoa que transe corre o risco de pegar uma. Assustador, no? Eu diria que sim, se no
fosse a maior inveno de todos os tempos: a camisinha. Graas a ela, as pessoas podem
continuar tendo suas relaes sexuais, diminuindo em muito o risco de contrair uma.

Infelizmente, alguns anos atrs, eu no sabia de nada disso. Faltavam informao,
explicao e educao sexual, sobretudo nas escolas. E eu espero sinceramente que, a esta
altura, as escolas j tenham se dado conta disso e, em vez de ficar s falando de problemas
matemticos, acentuao grfica e ciclo da chuva, falem tambm um pouco de sexo com os
alunos. Ou ser que os adultos de hoje ainda continuam achando que isso  privilgio s
deles?

O doctor continuou conversando comigo.

-- Ento quer dizer que as bolinhas esto voltando?

-- , nasceram duas.

-- Sei. No seu caso, por ter o HIV se torna mais difcil de curar. Mas se ns tratarmos
direitinho, passarmos o remdio mais uma ou duas vezes, vai sarar, t? E me diz quando foi
a ltima vez que voc fez Papanicolau?

-- Papanicolau? Nunca fiz.

-- O qu?! -- puxa, agora sim eu tinha assustado o doctor Gust. -- Nenhum mdico te
pediu esse exame? Ainda mais nas suas condies?

-- No.  que na, verdade, eu parei de ir ao dr. Ginecologista tambm. Eu parei de ir a
todos os mdicos, e s estava me tratando com o dr. Homeopatia.

106
-- Homeo-o qu?

-- Homeopatia -- eu l sabia o nome disso em ingls? --  uma espcie de medicina.

-- So ervas?

-- No, so gotas! Gotas e mais gotas. -- Ele me olhou assustado.

-- Ah,  mais simples, voc vai l, fala tudo prum mdico s, ele te d as gotas e pronto.

-- E foi esse mdico que te tratou do condiloma e no te pediu Papanicolau?

- .

-- Val, voc sabia que DST  uma coisa muito sria? E que, apesar do condiloma parecer
algo inofensivo, ele pode favorecer o aparecimento de cncer no colo do tero, ainda mais
no seu caso?

-- Ah, ? -- s me faltava essa agora. Cncer?

-- Eu no estou dizendo que voc esteja com cncer, mas  muito importante que a gente
cheque isso atravs do Papanicolau, que tambm pode detectar vrias outras infeces.
Todas as mulheres deveriam fazer esse exame anualmente e, no seu caso, por ser
soropositiva,  indicado fazer a cada seis meses.  um exame bem simples, em que colho
material e mando analisar no laboratrio. O procedimento no  muito diferente de um
exame ginecolgico de rotina.

-- T, eu vou fazer.

L fui fazer o tal exame. No existe coisa mais desconfortante do que esses exames
ginecolgicos. Mas, como todas as mulheres tm que fazer mesmo, no adianta reclamar. O
que, todavia, no nos livra de uma certa apreenso.

Tirei a roupa e coloquei o avental. A enfermeira entrou na sala para me ajudar a deitar na
cama. A essa hora, eu j estava nervosssima, mas assim que me deitei dei de cara

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com umas figuras de humor presas no teto. Ollhei aquilo e comecei a dar risada.- Quando o
doctor Gust emtrou na sala eu j estava mais calma. Esses americanos so muito espertos.

-- Podemos comear?

-- Podemos.

-- Ento t. Eu voi comear com o procedimento tal -- eu no sabia o nome daquilo em
portugus, quamto mais em ingls. Mas quando ele comeou, me liguei que era aquele
famoso instrumento que eles usam para ver o tero.

-- Aaaai!

-- Calma, eu sei que isso di, agenta s mais um pouquinho que eu vou colher o material.
Pronto, prontto, j to tirando. Acabou, pronto.

Queria saber quem foi o imbecil que inventou este instrumento. Aposto que foi um homem!
Se eles soubessem o quanto isso di, no inventavam!

-- Pronto, j acabei. Agora eu s vou passar um remdio nas bolinhas. Talvez arda um
pouquinho. Ardeu'?

-- No.

-- timo. Acho que com mais uma ou duas aplicaes a gente acaba com elas

- Pronto, menina, j est livre de mim, pode se trocar e ir l para o laboratrio fazer os
exames de sangue.

Subi ao laboratrio e colhi o sangue. O resultado sairia dentro de uns dez dias.

-- Mas volte aqui na semana que vem, para continuarmos a tratar do condiloma, t? E
continue sorrindo, Val, que voc tem um sorriso muito bonito.

Esse doctor Gust  mesmo muito legal.

A essa altura, j havia se passado um ms e meio e o meu primeiro estgio estava
acabando. Vieram as provas finais e

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eu estudei bastante. Eu queria muito passar para o ltimo estgio e terminar aquele curso.
Alguns de nossos amigos j comeavam a ir embora. Fizemos, ento, uma festa de
despedida. Algo bem tpico da regio, um churrasco  noite na praia. Acendemos uma
fogueira enorme por causa do vento frio que soprava. Montamos a churrasqueira e
comeamos a fazer o churrasco.

-- Churrasco?  isso que  churrasco pra vocs, hambrguer?

-- Aqui na Amrica, o que voc queria?

-- Eu queria uma baita duma picanha.

-- Pi, o qu?

-- Esquece, acho que vocs nunca viram isso na vida.  uma carne deliciosa l do Brasil.

-- Ah, ? J t com saudades do Brasil, Val? -- eles brincaram.

-- No! S t com saudades duma picanha.

-- Pois  assim que comea, viu?

Comemos o projeto de churrasco. A salvao foi uma maionese muito boa que a Raquel
tinha feito. Depois do jantar sentamos  volta do fogo. Aquela era a ltima noite do Peter e
do Andy conosco. No dia seguinte, eles j voltariam para a Sua. Essa  a parte triste de
fazer amigos de outros lugares do mundo, a hora de ir embora. Durante um tempo, ns nos
tornamos amigos bem ntimos. Estudvamos juntos, comamos juntos, passevamos juntos.
Conhecemos San Diego inteirinha, visitamos Los Angeles, Las Vegas, Tijuana, a cidade de
fronteira no Mxico. Conversamos sobre muitas coisas, nossas casas, nossas famlias,
nossos costumes, nossos problemas (quase todos). E agora eles teriam que ir embora e
provavelmente ns nunca mais nos veramos. Que pena! Mas por outro lado isso at que era
bom, assim eu no teria mais que ficar escondendo nada de ningum.

109
Fiquei olhando o fogo forte queimando na fogueira. Aquele alaranjado vivo fazendo ondas
no escuro. Hipnotizante. De vez em quando um estouro e pequenas fagulhas acesas voando
com o vento. Voando, voando, at que se apagavam no breu.

-- , gente, t acabando -- algum disse.

-- Que pena, n? Tava to legal.

-- , agora  voltar pra casa e seguir com as nossas rotinas. Trabalhar, juntar dinheiro,
casar! -- a Rosa vivia falando neste tal de casamento.

-- Pois eu vou voltar pra Barcelona, continuar trabalhando onde estou, juntar uma grana e
abrir meu prprio estdio. Eu sou uma mulher moderna! -- disse a Luli, provocando a
amiga.

E todos comearam a fazer planos. A Carmem, mal havia comeado a fazer faculdade, j
estava pensando em ps-graduao. O Peter, com seu vocabulrio de ingls bem
melhorado, alugaria uma casa onde iria morar com a namorada. O Marcos ia terminar a
faculdade, casar e viver feliz para sempre. O Andy, continuando solteiro, s queria saber de
trabalhar, trabalhar, ser promovido no emprego e ganhar muita grana. A Raquel, dali a
alguns meses, seria transferida para Boston, onde ficaria uns dois anos.

-- E voc, Val, vai fazer o qu?

-- Eu vou ficar aqui mais uns meses e terminar este curso.

-- Mas e depois quais so os seus planos pr futuro?

-- Meus planos? Meus planos so... deixa eu ver...

-- No vai me dizer que voc no tem planos. Todo mundo tem! Vai, fala, quais so os
seus planos pro futuro?

-- Futuro? ... Bem... Ah, j sei! No final do ano eu vou ver neve.

-- Ver neve?! -- o Andy perguntou assustado.

110
--  que eu nunca vi. No meu pas no tem neve. Eu sou de um lugar tropical, lembra? Pra
voc que mora na Sua e v todo ano deve ser uma coisa bem banal. Mas pra mim, que
nunca vi,  algo muito especial.

-- Eu imagino -- ele disse, mas parecia inconformado. Caramba, ser que  to difcil
entender? Eu nunca vi neve, oras. O Marcos tambm nunca viu. Que problema h nisso? E
a eu perguntei se ele j tinha visto o encontro das guas de dois rios de cores diferentes que
se juntam mas no se misturam: o fenmeno da pororoca. Perguntei se ele j tinha visto um
boto cor-de-rosa, ou um tuiui no meio do pantanal.

-- J comeu bocaiva, tacac? Voc no sabe nem o que  uma picanha -- eu brinquei.

-- T bom, t bom, voc venceu. Pode continuar com seus planos de ver neve no final do
ano. -- "Ver neve", ele repetiu baixinho pra si mesmo como se ainda fosse difcil de
entender. S a eu me dei conta de que a dificuldade toda no estava em entender que eu
nunca tinha visto neve, mas, sim, daqueles serem meus planos pro futuro.

, talvez eu devesse ser como as pessoas comuns e ter planos pra dali a mil anos. Visualizei
meu calendrio mental que marcava 1993: setembro, outubro, novembro, dezembro, fim.
Tentei estic-lo mais um pouco. Colocar janeiro, pelo menos. Mas no deu. Acabava com o
final do ano e ponto final. Depois disso, um breu. Pacincia, pensei, os meus planos so:
VER NEVE NO FINAL DO ANO! E para mim j estava muito bom. Cada um se vira
como pode.

Finalmente o boletim saiu e eu havia tirado notas timas. Tivemos uma festa de
encerramento, coquetel, troca de endereos e mais despedidas. Que pena, todos os meus
amigos estavam indo embora.

111
Liguei pro meu pai pra dar as notcias:

-- Ento  isso, pai. J at me matriculei pr prximo estgio.

-- Vai fazer mais curso? Voc est pensando que eu sou banco, ?

-- Que man banco? Voc no disse que esse dinheiro era meu por direito pelo tempo que
eu trabalhei com voc? J mudou de idia? -- Ele deu uma resmungada. -- Ah, e por falar
em dinheiro, eu mandei um recibo de exame mdico pra voc descontar do nosso plano de
sade.

-- Mdico?! Voc foi ao mdico? Voc t doente?! Eu sabia, eu cansei de falar pra voc
no viajar agora!

-- No  nada disso, pai. Foi s uma tosse. E da no final eu resolvi fazer aquele exame de
imunidade.

-- E como  que est? O que  que deu? Deu baixa? Acho melhor voc voltar pra casa. Ou
ento ir logo pra casa da sua tia na Filadlfia.

-- Calma, pai, nem saiu o resultado ainda. -- Maldita hora que eu fui tocar no assunto.
Devia ter feito como eu fazia no Brasil, nem falava nada, dizia que estava tudo bem e ia
levando. -- Quando sair o resultado eu te ligo, t? Ento  isso, aqui t tudo timo, tenho
passeado bastante, conhecido lugares lindos.

-- Sei, v se se cuida, hein? E v se come!

Dias depois voltei ao doctor. Por sorte o Papanicolau havia dado normal, mas as clulas de
CD4, segundo ele, no eram nem um pouco satisfatrias. O ltimo exame que eu havia
feito no Brasil dera por volta de quatrocentos, este agora dera trezentos.

-- Isso indica que sua imunidade continua abaixando. E voc sabe que est mais do que na
hora de tomar AZT, no sabe?

112
-- Eu no vou tomar remdio. E j te expliquei por qu, no expliquei?

-- Olha, Val, eu estive num seminrio de AIDS esta semana. Fui mais por sua causa.
Conversei com outros mdicos da rea sobre o seu caso e todos eles disseram a mesma
coisa: "J devia ter comeado com a medicao!"

Ele ficou olhando para mim, esperando alguma reao, mas eu permaneci esttica. Ele
respirou fundo pensando um pouco, como se estivesse procurando algum outro argumento.
"Pode inventar o que for", pensei, "duvido que ache alguma coisa que me faa mudar de
idia".

-- Eu conheci uma mulher nesse seminrio -- continuou ele -- e, como voc, ela tem o
vrus h alguns anos. D uma lida nisso aqui -- me entregou uma folha de papel. -- Eu vou
l fora resolver um negcio e j volto. -- Saiu, fechou a porta me deixando sozinha na sala.

Comecei a ler. Falava de uma tal de Amanda, uma mulher que descobrira ser soropositiva
havia alguns anos. E que, depois de terminado o perodo de depresso, retomou sua vida
normal. Seguiu sua carreira e casou-se com um homem soronegativo. O casal teve uma
filha, tambm soronegativa, que, na poca, estava com dois anos. Amanda continuava
trabalhando, cuidando de sua famlia e viajando pelo estado, dando palestras sobre mulher e
AIDS.

Casada? com filhos? Trabalhando?

doctor entrou na sala.

-Leu?

-Li.

-- Pois bem, eu conversei com essa mulher no seminrio e ela me contou que, como
milhares de outras pessoas, j tomou medicao e se deu muito bem.

-- Mas  diferente -- eu disse.

113
-- Diferente em qu? Diferente por qu?

-- Porque ela  diferente, oras. Porque ela tem uma vida to... to... to normal.

--  exatamente isso que eu estou querendo te mostrar. Que as pessoas que tm HIV/AIDS
tambm podem levar uma vida normal.

Normal? Normal! Acho que isso  tudo o que eu queria ser. Mas vai tentar ser normal
ouvindo todo dia a AIDS mata, a AIDS  o mal do sculo, vamos acabar com a AIDS. At
parece que as pessoas esquecem que o vrus est dentro de mim, que a AIDS s existe
porque eu existo, se eu morresse, o vrus tambm morreria. Ou seja, de certa forma eu sou a
AIDS. A AIDS mata.  o mal da humanidade.  mrbida,  deprimente,  horrvel. Vamos
acabar com a AIDS. Como  que se pode levar uma vida normal ouvindo isso toda hora,
lendo isso em todos os lugares? Como  que eu posso pensar em seguir uma carreira, casar,
ter filhos, construir qualquer coisa que seja, sendo associada a todas essas coisas horrveis?
Mas acho que o doctor jamais entenderia isso. As vezes, nem eu mesma entendia. Fiquei
quieta sem dizer nada.

-- Vamos fazer uma coisa: voc vai pra casa agora e, mais tarde, pensa em tudo isso com
calma. No final da semana, voc volta aqui e a gente conversa. E daqui a uns quinze dias a
gente repete a contagem de CD4. T bom?

Voltei com o papel da Amanda na mo. Li mais uma vez. Deixei-o sobre a escrivaninha e
pensei. Deitei na cama e pensei. Andei pelo quarto e pensei, pensei, pensei... Amanda, a
mulher soropositiva que vivia normalmente. Como  que podia ser? Eu no sabia. S sabia
que era verdade. Em algum lugar desse mundo as pessoas comeavam a levar a vida
normalmente com HIV e AIDS. -

114
Abri a gaveta e peguei um folheto de campanha da cidade de San Diego que o doctor me
dera. Reli. Comeava falando de como era difcil receber um teste positivo. Da fase de
profunda tristeza e depresso pela qual as pessoas passavam no comeo. Mas que receber
um teste positivo de AIDS no significava que tinha acabado, e sim que tinha acabado de
comear. Pois existiam vrias coisas que se podia fazer para aumentar o tempo e,
principalmente, a qualidade de vida. Como, por exemplo, cuidados com a alimentao,
prtica de esporte, ajuda de psiclogos ou grupos de apoio, acompanhamento mdico com
profissional de sua confiana, uso de medicao quando indicado etc.

Talvez, ento, fosse essa a diferena. As pessoas de l no tinham que se olhar todo dia no
espelho e pensar: "Eu sou o mal do mundo". Ao contrrio, elas estavam preocupadas em
viver o melhor que pudessem. E, pelo jeito, havia muitos outros que, embora no tivessem
o vrus, tambm estavam dispostos a ajudar.

 mais uma daquelas questes culturais, pensei. A mesma coisa sendo lidada de maneira
completamente diferente em dois lugares distantes.

Me lembrei do sermo que eu havia dado na minha amiga Lim aquele dia na sala de aula,
sobre a imposio dos pais na China. "No pode continuar desse jeito!", eu dizia, "tem que
mudar!". , talvez essa questo da AIDS tambm precisasse mudar. Assim como na
Califrnia j havia mudado. Me lembrei do meu discurso inflamado daquele dia: "Quem 
que faz a cultura de um povo, no  o prprio povo? E o povo no somos ns? Pois bem, se
ns j no concordamos com tal coisa, a gente vai l e muda".

Como eu sou imbecil! Essas coisas na prtica so diferentes. Talvez mudar a cultura de um
povo seja impossvel. Me

115
imaginei chegando no Brasil e dizendo "Olha gente, descobri uma coisa, as pessoas que
tm AIDS so normais". Antes mesmo de terminar j teria sido apedrejada. E a, sem
querer, imaginei a tal da Amanda chegando l e dizendo a mesma coisa. Talvez ela at
fosse ridicularizada, mas acho que isso no lhe faria grande diferena, j que ela acreditava
em si mesma. Ela estava levando sua vida normalmente e era isso que importava. Sem
contar que, mesmo falando de uma forma mais abrangente, este pequeno ato, ainda que no
meio de nada, j era alguma coisa. J era um grande comeo.

Talvez fosse isso mesmo que eu devesse fazer, passar a acreditar que as pessoas com AIDS
podiam levar uma vida normal e pronto. Foda-se o resto! Mas a questo agora era: ser que
eu, que fui criada aceitando uma determinada coisa como certa, como verdade absoluta,
seria capaz de fazer uma lavagem cerebral, me livrar de tudo e comear a acreditar em
outras?

Lembro uma vez, quando tinha uns onze anos, fiz uma pesquisa pra escola que me marcou
muito. At ento, sempre que algum me falava em banho eu logo associava com gua.
Lgico, no? Na nossa cultura, tomar banho, limpar-se,  sinnimo de chuveiro, banheira,
no que seja, mas sempre gua. Pois bem, pensava assim at o dia em que fiz essa pesquisa
sobre os povos nmades do deserto e descobri que eles tomavam banho com areia. Areia?
Como pode? Eu jamais havia imaginado uma coisa desta. Mas, pensando melhor, at que
fazia sentido. No deserto no tem gua, s tem areia. As pessoas, ento, se limpam com
areia.

E foi a que me liguei que vrias das coisas que a sociedade vai enfiando em nossas cabeas
como verdades muitas vezes no so to absolutas assim. Comecei, ento, a prestar mais
ateno nisso tudo e a ver como as pessoas se autolimitavam

116
por viverem bitoladas dentro de seus prprios costumes. Quantas coisas poderiam ser
melhoradas se o homem tivesse a coragem de mud-las, em vez de ficar s dizendo: "
assim, vai ser sempre assim"?

Quando eu crescer, eu pensava, nunca vou ficar deste jeito. Vou fazer questo de viver
sempre viajando para os lugares mais diferentes possveis, ainda que seja atravs dos livros.
Entrar em contato com outras culturas, crenas, conceitos, e a ter oportunidade de
questionar os meus e mud-los quando necessrio. S assim uma pessoa pode ser realmente
livre.

E esse, ento, era o meu conceito de liberdade. Quase at de felicidade. O que eu no
esperava era que essas crenas fossem to fortes. E livrar-se delas, talvez fosse impossvel.

Olhei novamente para o papel sobre a escrivaninha. Ser que algum dia eu conseguiria ser
normal como a Amanda? Meus olhos se encheram de lgrimas, meu peito, de desesperana.
Dobrei o papel e guardei-o na gaveta.

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8. Todo mundo devia subir no Empire State Buildmg
Terminado o primeiro estgio, mudei-me para um dormitrio particular onde s dividiria o
banheiro com mais uma pessoa. Preenchi um daqueles formulrios na tentativa de acharem
um par perfeito. Pedi para dividir o banheiro com uma pessoa silenciosa, no-fumante e
americana, j que eu queria aperfeioar o meu ingls. Me colocaram ao lado de uma turca
fumante e barulhenta. Que ouvia som no mais alto volume at as trs horas da manh.
Detalhe: a porra da msica tambm era turca!

Quase enlouqueci. Agentei dois dias, mas no terceiro fui falar com o administrador do
prdio, que, na verdade, era um estudante de administrao. Mais uma inveno dos
americanos; em vez de pagarem um salrio altssimo para um administrador formado,
contratam um estudante dali mesmo como estagirio e pagam um salrio menor. Esse tal
era o Steve, um cara duns 25 anos. Eu j o conhecia.

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-- Escuta aqui, Steve, pra que voc me fez ficar duas horas preenchendo aquela droga de
formulrio se, no final, fazem tudo errado?

-- Voc no est satisfeita?

-- Satisfeita?! Eu pedi um quarto num andar calmo com uma juitmate que no fumasse e
falasse ingls. Vocs me colocaram ao lado de uma fumante, turca, que s fala turco, que
faz reunies no quarto com mais dez turcos e ainda por cima aquela droga de msica no
meu ouvido sem parar! Olha, eu te juro que eu no tenho nada contra os turcos, mas, se eu
quisesse aprender a lngua deles, eu teria ido pra Turquia!

-- Calma, calma, no precisa ficar nervosa, eu vou ver o que posso fazer.

-- Ver no! Acho bom voc resolver!

--  que j est tudo praticamente ocupado, vai ser muito difcil!

-- bom, ento voc me d a grana de volta que eu vou pra outro lugar. -- Era s um blefe,
pois a essa altura provavelmente j no haveria outro lugar para eu ir. Mas, pela cara dele,
tinha funcionado um pouco.

-- Bem, o dinheiro fica difcil de devolver.

-- Ento voc me arranja outro quarto! -- Ele no disse nada e eu provoquei mais ainda.
-- Engraado, eu sempre ouvi dizer que os EUA eram o pas onde tudo funcionava direito,
onde todas as pessoas eram honestas; pois bem, eu me mudei pra c e paguei essa grana
toda porque vocs me garantiram, entre outras coisas, que eu dividiria o quarto com uma
americana. E eu vim pra c para aprender ingls, lembra?

-- Tudo bem, tudo bem. Eu vou dar um jeito nisso. Apesar de que, depois desse seu sermo
todo, eu diria que seu ingls est timo. Passe aqui l pelas trs horas que eu j terei
resolvido.

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Mas olha, eu j vou avisando, lugar calmo aqui nesse dormitrio, vai ser impossvel.

-- Tudo bem. Que voc me coloque com algum que fale ingls e no fume j est bom.

Voltei l s trs horas. Ele estava ocupado atendendo outra pessoa em sua sala. Sentei no
saguo para esper-lo. At a entrada nesse dormitrio era mais bonita, parecia um hotel,
com uma pequena recepo e um jogo de sofs na frente dos elevadores, onde eu estava
sentada. Fiquei olhando o movimento. Vrios estudantes estavam chegando com suas
mudanas, para o novo semestre de aula. Muitas malas, livros, geladeiras, forno de
microondas, computador, telefone. Todo mundo fazendo fora e carregando suas prprias
coisas, inclusive as meninas.

Depois de uns instantes apareceu o Steve. Ele segurava uma chave e me chamou para
vermos um novo quarto. Pegamos o elevador e fomos para o sexto andar. timo, pensei,
era num andar mais alto. Quando nos aproximamos, achei melhor ainda, era o ltimo no
corredor, se tivesse muito barulho seria somente de um lado. Ele abriu a porta e ns
entramos. Como todos os outros, era um quarto retangular, grande, espaoso, com cama,
escrivaninha, cmoda, um armrio embutido com porta toda de espelho. "Esses espelhos
esto me perseguindo." Logo ao lado da pia, a porta do banheiro. O Steve tentou abrir, mas
no conseguiu. "Deve estar trancada por dentro", ele disse. "Vamos entrar pelo quarto de
sua vizinha." O banheiro, que ficava no meio, tinha porta para os dois lados.

Fomos ao quarto vizinho, cuja porta tinha um papel com um nome, Alrica, assim se
chamava quem ali morava. Batemos na porta, mas ningum atendeu. "Ela deve ter sado",

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disse ele abrindo a porta com a chave mestra. "Vamos passar por aqui s para abrir a porta
por dentro." Dei uma olhada no quarto enquanto entrvamos: arrumadssimo. A pessoa que
ali morava certamente era muito limpa e organizada. Enquanto o Steve abria a porta do
banheiro, dei mais uma olhada e vi que, na parede ao lado da porta, havia uma enorme
bandeira de pano com uma criana negra desenhada. De onde eu estava tambm pude notar
que no painel de cortia sobre a escrivaninha havia vrias fotos de pessoas negras. Negra?
A pessoa que morava ali era negra? Certamente era.

O Steve abriu a porta do pequeno banheiro, que era tecnicamente igual ao que eu dividia
com a guria turca do segundo andar. Mas com uma grande diferena: limpssimo. Ele
destrancou a porta por dentro e ns passamos para o outro quarto.

-- E a, Valria, voc fica com este aqui?

Uma negra? Me lembrei do que algumas pessoas me falaram antes de eu viajar: "Tome
cuidado com os negros nos EUA: eles odeiam os brancos. O racismo l  dos dois lados e 
pesado". Mas a eu lembrei tambm que as pessoas haviam dito a mesma coisa quando fui
pra Nova York. E l nunca tive problema algum, ao contrrio, conversei com alguns negros
e todos eles foram muito simpticos. "Isso tudo  to ridculo", pensei.

-- Fico, eu fico com o quarto.

 to ridculo quanto, pensei depois, o que a tal da Alrica faria se soubesse que eu tinha
AIDS.

Trouxe minha mala para o novo quarto e comecei a arrumar as roupas nas gavetas da
cmoda e no armrio, cujas duas Portas de correr eram de espelho. Olhei para a "Eu
mesma" do outro lado: ", minha cara, agora a gente vai ter que se acostumar uma com a
outra nem que seja na marra".

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Fui olhar pela janela, que no era muito grande e ficava ao lado da pia. A vista, bonita,
mostrando l embaixo um pedao da piscina e, na frente, o fim da universidade com vrias
casas, condomnios e muito verde. Nenhum abismo.

Pouco tempo depois, ouvi uma conversa no corredor, abri a porta e dei de cara com uma
turma conversando. Dentre eles, uma menina mais ou menos da minha altura, a pele negra,
de um tom muito mais escuro do que eu estava acostumada a ver por ali, os cabelos
tambm num estilo bem diferente, divididos em pequenos rolmhos espalhados por toda
cabea, a roupa bem colorida, um colar de osso no pescoo e um brinco de argola no nariz.
Falava bastante e ria muito. Depois de um tempo, eles se despediram e, quando ela virou
para ir ao seu quarto, vizinho do meu, notou minha presena. Me aproximei meio sem jeito
me apresentando:

-- Oi, meu nome  Valria, eu me mudei pra c hoje... Eu vou ser sua juitmate.

- Ah, muito prazer -- ela disse me estendendo a mo e abrindo um enorme sorriso. O
sorriso mais branco que eu j vi. Estendi minha mo tocando na dela:

-- O prazer  todo meu.

-- Que legal que voc chegou, eu estava curiosa para saber quem seria minha juitmate. Faz
horas que voc est aqui?

-- Na verdade, eu j estou aqui no El Cone h alguns dias. S que estava em outro quarto.
Mas a pedi para mudar, porque queria ficar com uma americana.

Ela desmanchou o sorriso e pelo tom de voz tinha se ofendido:

-- Ento, voc se deu mal, porque eu no sou americana.

-- Ah, no? -- perguntei me esforando para esconder meu desapontamento.

-- No. Eu sou jamaicana!

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- Ah... Bem, mas pelo que eu t vendo voc fala ingls perfeitamente.

- Falo. Ingls  a minha lngua. Mesmo na Jamaica a gente fala ingls.

- Ento tudo bem. Na verdade, era s isso que eu queria, ficar perto de uma pessoa que
falasse ingls fluente e pudesse me corrigir de vez em quando.

-- Ah, se  isso, ento tudo bem -- ela disse sorrindo novamente. E eu fiquei aliviada.

Convidei-a para entrar no meu quarto e ficamos conversando. Ela era uma pessoa simples e
humilde mas, ao mesmo tempo, forte. Me contou que estava com dezenove anos e tinha
vindo pra San Diego fazer seu primeiro ano de faculdade. Sua me e suas irms moravam
perto de So Francisco. Todos eles tinham vindo da Jamaica havia vrios anos, pois a
situao econmica de l era pssima e eles estavam passando por muitas necessidades.
Depois que chegaram aos EUA, sua me casou de mentira (s no papel) com um amigo
americano e eles puderam ficar de vez no pas. Perguntei se ela no sentia saudades da
Jamaica e ela disse que sim e que de vez em quando ia pra l passar as frias. Mas, pra ficar
de vez, morar, ainda no dava.

--  um pas muito pobre, no tem emprego, eu no teria chance de estudar. Aqui, apesar
de no ser a minha casa, eu posso vir a ser algum na vida. E a, depois que eu estiver
formada e numa situao melhor, posso voltar pra l e at ajudar o meu povo.

-- Mas voc gosta daqui, no gosta?

-- Mais ou menos. Quer dizer,  legal poder vir pra universidade. Eu tive muita sorte. H
dois anos minha me se casou com um outro americano, s que desta vez de verdade. A
famlia dele  rica, e ento eles resolveram pagar meus estudos.

123
Mas morar aqui nos EUA, s vezes,  muito difcil; os americanos so muito racistas, ainda
mais comigo, que sou negra, voc sabe...
-- , eu imagino.

-- E o seu pas, o Brasil? Me conta de l. Uma vez ns fizemos um trabalho sobre ele na
escola. Tem muita gente pobre l tambm, n? Gente que mora nas favelas. No  assim
que se chama? Mas parece que  um povo bem animado. Tem aquela festa, o Carnaval, no
? , acho que  um clima meio parecido com o da Jamaica, clima de reggae, conhece?

-- Claro, Bob Marley. -- Ela comeou a cantar um pedao de uma msica dele. Me
impressionei.

-- Cara, que voz que" voc tem! Voc deveria ser cantora! -- Ela deu uma gargalhada
gostosa.

-- Ah, no. Acho que eu quero ser enfermeira.

-- Sorte de seus pacientes, quando eles estiverem deprimidos, voc pode cantar pra eles. --
Ela riu mais ainda.

-- A minha me tem uma banda de reggae. Eu j andei fazendo uns backing vocaU por a,
mas nada profissional. E voc gosta de reggae?

-- Gosto, gosto bastante.

-- Eu amo! O reggae pra gente da Jamaica  mais do que s uma msica,  como se fosse
um grito de guerra, uma religio.  uma coisa muito forte.

-- , d pra sentir. S a voz dos negros j  uma coisa especial.

-- L no Brasil tambm tem muito back people, n? -- feoa prdad, este era o termo
usado em ingls. Ao contrrio do Brasil, chamar algum de negro nos EUA  considerado
ofensivo.

-  um pas racista como aqui? -- ela perguntou.

-- Racista? -- pensei um pouco, no queria responder qualquer coisa. Racista? Racista? O
que  mesmo ser racista?

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Como  ter uma atitude racista? Caramba, isso  to complexo, to complexo, to
complexo, que nem d vontade de pensar. A impresso que eu tenho  que se pode ficar
horas i horas falando, discursando, dizendo e contradizendo, e nunca vai se chegar a lugar
algum. -- Ah, sei l, Alrica, talvez. Algumas pessoas sim, outras no.

Ela, no se dando por satisfeita, insistiu:

-- Mas voc, por exemplo, voc se importa com a cor das pessoas?

Pronto. Ela tinha conseguido resumir todo o problema racial numa nica frase: a cor das
pessoas. Fiquei olhando pra ela sentada bem ali na minha frente. Seus olhos vivos me
encarando e esperando uma resposta. Seu cabelo esquisito, seu nariz largo, seus lbios
grossos. Um rosto negro. Um pscoo negro. Um brao negro. Uma pessoa negra. Nessa
hora sem querer, me lembrei de uma coisa engraada. Uma dessas coisas que ficam anos
vagando esquecidas pela cabea da gente, at que um dia, sem mais nem menos, aflora:
ainda na escola, no primeiro colegial, com a turma de sempre, nossa amiga D, ruiva, tendo
seus ataques de raiva: "Por que  que eu tinha que ser ruiva? Me fala, por qu, por qu? Eu
odeio ser ruiva, eu odeio este cabelo alaranjado, estes clios amarelos, estes olhos
esverdeados, essa pele branca transparente. Eu entro num lugar todo mundo me olha: Meu
Deus, uma ruiva! Que droga, por que eu no nasci de outra cor? Por que a minha me ruiva
tinha que se casar justamente com meu pai ruivo? E a no teve outro jeito: eu nasci
ruiva!!" A gent morria de dar risada. Abraava ela, beijava ela e binncava "D, no liga, a
gente te ama ruiva mesmo". Mas era verdad ns a amaramos mesmo que ela fosse verde.

-- No, Alrica, acho que eu no me importo com a cor das pessoas.

125
-- Ento quer dizer que l no Brasil voc tinha amigos, amigos mesmo, negros?

-- No. Na verdade nunca tive nenhum. -- Ela fez uma cara de decepcionada. Eu sabia que
ela ia ficar decepcionada. Mas eu no ia mentir. -- Olha, quando voc fala de amigos de
verdade, o que vem  minha cabea so os amigos de escola. Aqueles amigos com quem
voc passa anos e anos junto, se vendo todos os dias, crescendo junto, aprendendo junto. 
como eu j te expliquei, a grande maioria dos negros no Brasil  pobre. Eles no tm
dinheiro pra ir pra escola particular, ainda mais pra minha, que era de classe mdia alta.
Da, ento, no tive oportunidade de fazer amizade com nenhum negro.

-- Entendo. Eu tambm acho que os meus melhores amigos so os que fiz na escola.
Tambm at agora com quase vinte anos a nica coisa que a gente faz  ir pra escola! --
Ela riu. Eu tambm ri, mas com saudades. Ela se levantou e foi at a minha escrivaninha,
olhou meu painel de cortia: vazio. -- Voc ainda no pregou as fotos dos seus amigos no
painel? Puxa, a primeira coisa que eu fiz quando cheguei foi encher o meu com fotos deles.
Eles nem esto to longe, mas d a maior saudade. Pega l a foto dos seus amigos pra eu
ver.

-- ...  que eu no trouxe nada.

-- No trouxe?! Mas voc veio de to longe, vai ficar tanto tempo fora e no trouxe nada,
nenhuma foto?

-- ,  que, pra falar a verdade, eu quase nem tenho fotos deles. Nesses ltimos anos a
gente no tem se visto muito.

-- Mas eles ainda so seus amigos, no so?

-- So, acho que so.

-- Hum. Mas e aqui voc j fez muitos amigos?

-- Fiz, no primeiro estgio. Um pessoal bem legal, mas agora a maioria j foi toda embora,
s ficou um cara que eu

126
conhecia das aulas de conversao. O Oliver, um suofrancs, ele  muito legal. E voc, j
conheceu bastante gente?

-- Conheci o pessoal deste andar. Tem dois caras legais que moram a na frente. E umas
outras meninas. Depois eu te apresento. Falando nisso, a gente vai a uma festa hoje  noite.
T a fim de ir?

-- Obrigada, eu ia gostar muito, mas  que eu j combinei de sair com o Oliver.  a ltima
semana dele aqui na cidade.

-- Ah, tudo bem, amanh ou depois tem outra e a voc vem. Aqui na universidade, at
comearem as aulas, vai ter muita festa. Voc sabe, eu que tenho menos de 21 anos no
posso entrar nos bares nem nas danceterias da cidade, ento tenho que ficar s por aqui.

-- Ah,  mesmo, que saco, no?

-- ,  uma merda. Bem, eu j vou indo que eu tenho que tomar banho e me aprontar pra
festa. A no ser que voc queira usar o banheiro primeiro?

-- No, no, pode ir que depois eu vou.

-- T legal ento. Depois a gente se fala. Passa a no meu quarto amanh pra gente
conversar. E olha, se tiver qualquer coisa que voc no goste, voc sabe, alguma coisa que
eu faa, voc vem falar comigo, t?

-- Pode deixar. E voc tambm, qualquer coisa,  s falar.

-- timo, eu prefiro assim, j que a gente vai ser uitmate., que a gente seja bem sincera
uma com a outra.

-- Eu tambm prefiro -- concordei. Ela sorriu e foi para o seu quarto. E eu fiquei ali,
pensando.

Sincera. Ser que eu estava mesmo sendo sincera? Ser que dividir uma sute com outra
pessoa, se tornar amiga dela e no contar que tem o vrus da AIDS, ainda que isso no lhe
causasse dano algum,  ser sincera? Talvez fosse s uma omisso

127
de algo que no viesse ao caso. Mas, dependendo da pessoa, poderia ser encarado como
uma mentira,, ou, quem sabe at, um crime. Tem gente que simplesmente no gosta das
pessoas com AIDS. E se a Alrica fosse uma dessas?

Tive vontade de cham-la de novo, dizer ttudo e ver qual seria sua reao. Mas eu no
podia me esquecer de que, dependendo de sua reao, talvez eu tivessse que deixar aquele
dormitrio; se complicasse muito, talvez at o pas. No, era melhor no falar nada, ao
menos por enquanto. No falar, ser que isso era falta de sinceridade? Ser que um dia a
Alrica entenderia a minha "falta de sinceridade"? Voc entenderia?

Olhei para o relgio sobre a escrivaninha: sete e meia. O Oliver tinha ficado de me pegar s
oito. Eu j estava atrasada. Tomei um banho rpido e desci para encomtr-lo.

O Oliver era uma pessoa muito divertida. Eu adorava sair com ele, que me fazia esquecer
de tudo e rir o tempo todo. Ele havia acabado de se formar em engenharia. Mas, como no
arranjava emprego, tinha vindo fazer um curso de ingls. Quando cheguei no saguo, l
estava ele me esperando, com seu bom humor de sempre e sua figura engraada. Alto,
magro, loiro, os olhos verde-gua, a pele avermelhada de sol, o cabelo ralo e um sorriso que
no saa do rosto. Se saa, era para se transformar em gargalhada das piadas que ele mesmo
contava. Fomos indo em direo ao carro.

-- Voc pegou seu passaporte, pro caso de a gente querer passar em outro lugar mais tarde?
No quero voltar cedo pro orin. Depois que os americanos chegaram, no d mais pra
dormir mesmo. Acho que esses caras pensam que isso aqui  a Disneylndia. Voc acredita
que ontem, s duas da manh, teve um jogo de basquete no quarto vizinho ao meu?

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-- Acredito. Outro dia, eu passei num quarto onde o cara tinha pintado as paredes de roxo e
escrito uns trecos doidos por cima com tintas amarelas fosforescentes. Quando ele apagava
a luz, ficava tudo iluminado. Da eu perguntei pra ele: "Escuta, pode fazer isso aqui no
dormitrio, "No", ele disse;, "mas eu fiz, vai uma cerveja a?"

-- , cerveja. Isso aqui virou sinnimo de virilidade:. Eles nem bebem mais por prazer
bebem para mostrar que so homens e esto fazendo algo proibido. Tambm, v se pode?
Proibir bebida antes dos 21 anos de idade. At parece quie isso adianta. Aposto que
qualquer moleque de dezenove daqui bebe bem mais do que qualquer um da Europa, onde a
bebida nem  proibida. Proibio... Isso aqui  cheio de proilbio. E depois eles lanam
mundialmente o slogan ridculo: "A Amrica  um pas livre".

Eu comecei a rir. Ri da irritao do Oliver e tambm porque me lembrei da cara de besta
que a gente ficou na primeira vez que fomos a um bar em San Diego e, de repente,, toca um
sino. Que significa isso?

A sai todo mundo correndo pra comprar a ltima cerveja.

Ento aparece o gerente do bar colocando todo mundo pra fora,

depois das duas da manh  proibido vender bebida alcolica.

Logo os bares no tero mais lucro.

Portanto, fecham-se as portas.

Ainda restam algumas danceterias abertas.

Porm, tambm no vendero bebidas,

Contudo, no importa, j est todo mundo bbado.

Todavia, a noite no  mais uma criana.

Entretanto, a "Amrica ainda  um pas livre".

Entenderam? No? Nem eu.

129
Chegamos  pizzaria. Ele estacionou o carro.

-- Pera, Oliver. Voc no pode parar aqui, no t vendo a placa de proibido estacionar?

-- Foda-se! -- ele desceu, deu a volta e abriu minha porta. -- Vamos?

-- Voc vai levar uma multa -- avisei.

-- Este carro  alugado, at esta multa chegar eu j estarei em casa, em Genebra, esquiando
nos Alpes.

-- Oliver? Um suo fazendo isso?

-- Voc ainda no viu nada -- ele disse rindo. Enfiou a mo no bolso e tirou uns quatro
papeizinhos amarelos -- no vai ser a primeira. Vambora.

Fui inconformada. Um suo?

-- T bom, vai. Normalmente eu no faria isso. Mas  que eu estou injuriado com este
paiseco metido a besta. -- Ultimamente ele andava tendo uns ataques de xenofobia. -- No
comeo voc chega e acha tudo maravilhoso. Mas depois de passar aqui quatro meses,
como eu passei, voc se liga que no  tudo isso no. Voc vai ver, voc tambm chega l.

-- T sabendo. Pra falar a verdade, tem umas coisas que j esto me deixando levemente
irritada.

Entramos na pizzaria, que ficava dentro da rea da universidade. Por ali s havia
estudantes. Uma mocinha sorridente veio nos atender.

-- Oi, tudo bem? Como vocs esto? Uma mesa pra dois? Venham comigo, eu vou arrumar
um lugar timo pra vocs. Aqui est o cardpio. Escolham  vontade. E qualquer coisa  s
me chamar, tudo bem?

Ela se afastou. E o Oliver no perdoou.

--  isso que eu chamo de falsidade  la americana.

-- Voc t fogo hoje, hein? Ela s estava querendo ser educada.

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- Educada uma ova! Ela s  est a fim de vender muita pizza e ganhar uma boa gorjeta.
Igualzinha a todas as vendedoras deste pas. Voc mal pe o p numa loja e j vm
quinhentas com aquelas vozinhas irritantes: "Oi, tudo bem com voc? Como voc est?
Como foi seu dia?". At parece que eles esto muito preocupados com o seu dia. O que eles
querem eu sei,  vender! Vender, vender, comprar, comprar!  s isso que eles pensam.
Nunca vi um pas to consumista. Eles inventam qualquer coisa que seja, mesmo que seja a
coisa mais idiota do mundo, e pe l nas prateleiras pra vender. E pior, vendem. So
milhares de produtos diferentes, produtos iguais com uma pequena variao.

-- E a primeira vez que fui comprar uma Coca-Cola? Cheguei pra mulher e pedi: "Uma
coke por favor". "Qual?", ela disse. Como qual? que eu saiba coke s tem uma. Da ela
explicou: "Temos regular coke, diet coke, cherry coke, caffeine free coke, diet coke wth
cherry, caffeine free diet coke, cherry caffeine free dietcoke..,", fiquei tonto. "No, no, me
d uma Pepsi mesmo: "Diet pepi, regular pepi, crutai pep" "Chega, chega, me d s
uma gua. E pode ser da pia mesmo, viu?"

Tive um acesso de riso. Ele tambm riu. Depois ficou srio por um segundo e disse:

-- Tudo bem, tudo bem, sem ressentimentos -- levantou o copo do refrigerante. -- Um
brinde! Um brinde aos Estados Unidos e viva o comunismo! Ops, quero dizer consumismo.

-- Oliver, a gente ainda vai acabar sendo expulso. Comemos a pizza, que no estava muito
boa. Todas as pizzas de l tm gosto de po! (Credo, essa xenofobia pega!)

Pegamos o carro, que obviamente estava com um papelzinho amarelo no limpa-vidro.
Multa! Ele a retirou calmamente e a guardou no bolso.

-- Depois somos ns, os brasileiros, que levamos fama de trambiqueiros -- reclamei.

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-- T bom. Se isso te incomoda tanto, prometo que no fao mais. Pelo menos enquanto
voc estiver olhando.

-- Gracinha.

Depois de passar num pub voltamos para o nosso orm. Paramos na sala de televiso do
meu andar. Ainda no estvamos com sono e, mesmo que estivssemos, no
conseguiramos dormir. Estava a maior zona pelos corredores. O Oliver pegou o controle
remoto da televiso, ligou e comeou a mudar de canal. Num, uma mulher vendendo
bijuterias -- cafonssimas -- diga-se de passagem. Noutro, um dramalho de auditrio;
noutro, um daqueles filminhos que voc s sabe que  comdia por causa das risadinhas
imbecis em off; noutro, esporte: campeonato de cuspe a distncia. A gente comeou a rir.

-- A televiso deles  a melhor do mundo! Cinqenta e tantos canais. Cinqenta e tantos
canais de puro lixo.

-- Calma, Oliver, voc j est quase indo embora, vai voltar pra casa.

-- Pior! -- da ele comeou a reclamar da Sua, que no tinha entrado pr Mercado
Comum Europeu. Por alguns minutos, o Oliver me falou do assunto seriamente, com
detalhes. Mas no demorou muito fez uma piada e caiu na risada.

-- E eu que no consigo arranjar a droga de um emprego. Vou estar com setenta anos e eles
continuaro dizendo: "Seu currculo  timo, mas voc no tem experincia". E agora eu
pergunto: "Como  que eu vou ter experincia, se ningum me d emprego?". Fez uma cara
de bobo e caiu na risada.

Nessas, passa pela sala o Kef, um cara das Filipinas que fazia faculdade de administrao e
era um dos monitores do dormitrio. A gente j tinha conversado algumas vezes, ele era
muito simptico. Por coincidncia havia namorado uma brasileira algum tempo atrs e
tinha passado umas frias no Rio de Janeiro.
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-- Oi, Val, tudo bem? Por acaso voc viu o Steve por a?

-- No, ele no apareceu por aqui no.

-- Se ele aparecer, voc diz, por favor, que eu t l no meu quarto e preciso falar com ele?

-- T, eu digo sim.

Ele agradeceu, se virou e saiu andando. Eu me voltei ento ao Oliver, pra gente continuar a
sesso besteirol. Mas, quando o olhei, percebi que tinha pintado outro clima, ele estava com
uma expresso grave no rosto enquanto observava o Kef afastar-se pelo corredor. O que
demorou mais que o habitual, pois o Kef andava de muletas, arrastando as pernas que quase
no tinham movimento prprio. Ele era deficiente fsico. Ou melhor, eficiente fsico,
porque eu queria ver qualquer um de ns, "perfeitos", fazer o que ele fazia com aquelas
muletas. Mas o Oliver ficou abatido e, quando o Kef sumiu de vista por completo, ele deu
um suspiro triste e comentou:

-- Nossa, no sei como essas pessoas conseguem continuar vivendo. Imagine como deve
ser difcil ter uma deficincia como essa, ficar paraplgico, perder um brao, ou ento uma
dessas doenas sem cura, como alguns tipos de cncer, AIDS! J imaginou? J imaginou
voc ter que passar a sua vida sabendo que vai ficar doente, vai morrer daquilo e no pode
fazer nada? Meu Deus! Olha, eu admiro essas pessoas, porque, se fosse comigo, eu no
agentaria. Dava logo um tiro na cabea.

Me surpreendi com aquilo. Logo o Oliver, que era uma das pessoas mais bem-humoradas
que eu conhecia, que estava sempre alegre, pra cima, achando graa em tudo e fazendo todo
mundo rir? Eu nunca o tinha visto daquele jeito. Mas mais surpreendente ainda foi o que eu
disse:

-- Que  isso, Oliver? Nessa vida a gente se acostuma com tudo.

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Eu disse isso? , eu disse sim. E fiquei pensando. Talvez seja verdade mesmo.  s a gente
parar e olhar ao redor e vai ver que o ser humano  o animal mais adaptvel da face da
Terra. Se isso  bom? No sei. Fiquei olhando para o Oliver.

Talvez ele tivesse razo...

Talvez eu tivesse razo...

Talvez ningum tivesse razo...

Talvez no existisse razo alguma.

Ns mudamos de assunto. O Oliver fez mais piadas. Me fez rir e eu esqueci de tudo.

No dia seguinte, acordei tarde e fui pra piscina. Tomei sol e nadei um pouco. Na hora do
almoo, encontrei a Alrica no restaurante do dormitrio. Almoamos juntas e ela
aproveitou pra apresentar uns americanos do nosso andar que tambm estavam por ali. O
Frank, um loirinho fortinho com um corte de cabelo todo moderninho, raspado atrs e com
um franjo na frente, veio logo me cumprimentando. Foi chegando e falando um monte. S
que pelo jeito tudo gria, eu no entendia quase nada. Identificava sim alguns cool e uns
fuck no meio das frases. Cool, alm de friozinho, na gria, quer dizer legal, um legal metido
a besta. Fuck... bem, acho que todo mundo sabe o que isso significa. Apesar de que, dito
assim toda hora, meio solto, acho que no significa mais nada.  incrvel como as palavras
vo perdendo o significado at se transformarem em simples fora de expresso. Que
merda! J pensou se cada vez que a gente dissesse isso se lembrasse do significado puro e
literal da coisa? Eca! Acho que ningum mais falava, muito menos escrevia. De qualquer
jeito, no deixou de ser engraado eu imaginando a situao inversa: um americano vindo
pra c e ouvindo a gente dizer: "No enche o saco, porra!"

134
-- D pra vocs falarem mais devagar e mais claro, que ela no  daqui? -- me socorreu a
Alrica.

-- Ohfiorry. Where are y ou from, Val?

-- Brazil.

- Brazil? Cooll

-- lt' not cool, it Li hotl -- brincou um outro, baixinho e moreno, fazendo um trocadilho
pra me deixar confusa, todos riram. -- Caliente! -- completou ele, querendo dar uma de
bom.

-- No  caliente, espertinho.  quente! Brasileiro no fala espanhol, fala portugus.

O pessoal deu a maior vaia tirando um sarro da cara dele, o Shark. No final, ficamos
amigos. Como o Frank, ele estava no segundo ano da universidade e iria se formar em
direito. Eles tinham mais ou menos a minha idade, vinte e poucos anos. Mas, s vezes, eu
os achava muito infantis. Eles usavam uma roupa engraada, uns bermudes enormes
cobrindo o joelho e a cintura baixa mostrando um pedao da cueca. Camiseta, tnis e bon
ao contrrio. E isso lhes dava ainda mais um jeito de moleques. Conheci tambm uma
garota, a Suzy. Era tmida, quieta, quase nunca abria a boca. Lembro-me mais de suas
unhas do que dela mesma. Eram enormes, vermelhas, deviam at ser postias. Achei aquilo
horrvel. E ento olhei para as minhas, curtinhas, transparentes ao natural. E me dei conta
de que ela deveria estar achando a mesma coisa.

No mesmo dia,  noite, mais precisamente s oito, fomos a uma festa. Eu que, em So
Paulo, estava acostumada a chegar nos lugares l pelas onze da noite, achei aquilo muito
estranho. Mas a Alrica foi logo me explicando que l era assim mesmo. Comeava cedo e
acabava cedo. E algumas tinham at horrio estipulado pra terminar. Foi em uma das sedes
das

135
(associao dos estudantes), e nessas festas no era to fcil de entrar, mas o Frank
conhecia algum que nos ps pra dentro.

Era uma casa normal do cmpus. Tinha muita gente, muita msica, mas bebida cada um
tinha que trazer a sua. Tambm era s atravessar a rua e comprar na venda do posto da
esquina. Agora, pra andar pelas ruas com uma cerva na mo, s se ela estivesse dentro de
um saco. E mais, que o saco no fosse transparente. Menor de 21 anos no comprava
bebida de jeito algum. E todo mundo tinha que mostrar documento.  bvio que a moada
sempre dava um jeito. Mas era bom que desse um jeito bem dado, pois polcia pela
universidade era o que no faltava e, se pegassem, era encrenca na certa.

Logo que entramos, fomos pra pista de dana. Msica alta, um breu, algumas luzes
coloridas piscando, todo mundo se esbarrando, todo mundo danando. E a no importa a
nacionalidade, a raa, o credo, todo mundo sabe danar. Nunca ouvi sequer de uma tribo,
por mais primitiva que fosse, que no tivesse a dana, o ritmo, como parte de sua cultura.
Se a gente juntasse um ndio, um esquim, um aborgine, um viking e um tibetano e tocasse
uma msica pra eles, todos saberiam o que fazer, ainda que o instrumento fosse apenas o
bater de pedras. Vai ver que  isso: em vez de ficarem medindo suas diferenas e fazendo
guerras por a, com seus fuzis e metralhadoras, os povos deveriam danar mais e descobrir
suas semelhanas.

Danamos todos os tipos de msica e, j no final, tocou um reggae e a Alrica me ensinou a
danar o autntico reggae jamaicano. Depois eles quiseram que eu mostrasse como era a
lambada, ainda famosa naquela poca.

Quando a festa acabou, voltamos todos a p pelas ruas do cmpus, que estava bem
movimentado. Muito carro passando,

136
muita festa terminando e todo mundo voltando pra suas casas. A noite estava maravilhosa.
Um cu negro tomado de estrelas e uma lua quase cheia, brilhando como nunca. Comecei a
sentir falta da msica alta. No silncio dali de fora era possvel ouvir meus pensamentos e
eles diziam: a razo.

No, no, no! Me recuso a pensar nisso. Todo final de noite, todo final de captulo  a
mesma histria, esses malditos pensamentos tenebrosos na minha cabea. Olhei pro pessoal
andando na minha frente. Continuavam animados falando besteira e dando risada. O Shark
se virou e me perguntou se eu tinha gostado da festa. Eu disse que sim.

-- timo! -- ele gritou. -- Amanh ento eu vou te convidar pra outra festa. Uma festa
particular s voc e eu no meu quarto. Ah? O que voc acha? -- ele fez uma cara forada
de sedutor. Eu ri. Ele tambm riu. Esse sorriso dele me lembrava algum. Acho que algum
amigo da minha irm.-- Brincadeirinha -- ele disse e voltou a gritar: -- festa, festa! A
gente precisa de mais festa! Qual vai ser a de amanh?

Festa, pubi, bares.  s nisso que esse povo pensa. Tambm, com vinte e poucos anos, tem
coisa melhor pra pensar? Esto certos eles. E eu deveria estar pensando na mesma coisa.
Mas no estava. S pensava na razo. A razo de tudo isso. Tudo bem que todo ser humano
tropea de vez em quando com essa questo: "Pra que que a gente existe?". A diferena 
que, em vez de passar por cima dela, como todo mundo faz, eu paro e penso. Penso na
suposta Razo.

Olhei novamente para o cu negro, para as milhares de estrelas espalhadas por todo o canto
e pra lua, quase cheia, brilhando majestosamente.  o universo, pensei, o universo infinito.
Da j comea a complicao. Voc j parou pra pensar na relao entre voc e o infinito?
Pois bem, feche os olhos e pense. Pense em voc no infinito. E se o infinito no acaba

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nunca, o que  que significa voc dentro dele? E foi isso que eu fiz, fechei o olho por um
instante e pensei: eu, eu no universo, eu no infinito. Ser que algum poderia me explicar
qual a razo disso? Abri os olhos e vi todos eles: a Alrica, a Suzy, o Shark andando na
minha frente, rindo, brincando e falando besteira. No perguntei nada. Era melhor que
continuassem assim, rindo, brincando, falando besteira. Afinal, com vinte e poucos anos...

Entramos no nosso dormitrio. Eles ainda ficaram pelos corredores fazendo zona. Eu disse
que estava com sono e iria dormir. Fui pro meu quarto. Sentei na cama e fiquei olhando
"pra mim mesma" no espelho. Como  que pode algum existir e nem saber por qu? Me
lembrei de uma vez, quando j estava em Nova York e, como todo turista que se preze, fui
visitar o Empire State Building.

Era de noite, vero, e estava quente. Peguei o elevador que no parava de subir nunca e fui
at o topo. No meio do caminho j comeava a me arrepender. Se  coisa que me d gelo na
barriga  altura. E aquela droga de prdio tinha mais de cem andares. Mas chegando l em
cima no voltaria pra trs. Tomei coragem e fui at a beirada onde vrios outros turistas se
debruavam olhando a vista estupefatos e fazendo comentrios nas mais diversas lnguas.
Ventava frio, e do parapeito onde me encostei, olhando pra frente, se via uma nvoa fina
que cobria todo o cu. Respirei fundo e olhei pra baixo, e foi a que eu vi, l, muito longe, a
cidade na qual eu estava. Os prdios pequenos, as casas minsculas, os carros
microscpicos... e as pessoas? As pessoas, no dava pra v-las. E foi a que eu percebi o
quo pequenos ns somos. In-ig-ni-fa-canteA Comecei a rir. Ri de todos os meus
problemas. Ri de todos os meus medos. Ri dos meus sonhos e dos sonhos de todo mundo.
Ri de mim mesma. E ri de toda humanidade. E

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continuei a rir. Ri tanto que joguei a cabea para trs e, sem pensar, dei de cara com o cu e
a comecei a imaginar Deus sentado l em cima olhando pra baixo. O que  que ele veria de
to alto? Ele no veria nada. No enxergaria ningum. Quase chorei.

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9. Brother, youVe righte gonna fight for our rights!
Tem que haver alguma razo. Tem que ter algum sentido. No  possvel a gente ter um
corpo que sente, um corao que bate, um nariz que respira, um crebro que pensa, uma
alma que sonha e, no fim, no ser nada. Sa da cama e sentei no cho, mais perto do
espelho. Fiquei me olhando, me olhando... Sinceramente, no sei o que  pior: ser um nada
e estar livre de tudo, ou ser alguma coisa e estar presa a outra a qual nem se sabe o que .

Abri a gaveta pra pegar meu pijama. Mas ao lado dele havia uma camiseta velha, enorme,
de malha bem molinha com grandes listras desbotadas, cinza, azul e vinho, e trs botes na
gola. Era do meu pai. Eu tinha passado a mo nela antes de ir embora. Sempre tive essa
mania de usar roupa velha dele. Bem, agora que eu tinha o meu banheiro, dentro do meu
quarto, podia dormir do jeito que eu quisesse. Tomei banho,

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me vesti e deitei. Mas quando estava quase dormindo algum bateu  porta. Caramba, isso
 hora?

-- Quem ? -- perguntei.

--  a Alrica, abre a.

Levantei e abri. Dei de cara com ela. S que ela no estava sozinha. Acompanhavam-na
dois caras.  sempre assim, voc passa dois meses dormindo decentemente vestida e, no
nico dia que resolve dormir toda maltrapilha, s de camiseta e calcinha, aparecem dois
caras na sua porta. Disfara... Segurei a barra da camiseta e puxei pra baixo. Ainda bem que
era comprida. Tive vontade de abrir um buraco e entrar dentro. Mas depois lembrei que a
gente estava num dormitrio americano. Se duvidasse, tinha neguinho andando de cueca
pelo corredor.

-- Tudo bom? -- disse a Alrica. -- Vim te apresentar esses dois caras. Este aqui 
brasileiro. -- Eu j o conhecia. Conversamos um pouco em portugus.

Olhei pro outro cara. Ele era alto, moreno, de cabelos e olhos castanho-escuros. Parecia
mais velho que a gente. E usava roupas mais formais. Era o Lucas.

-- E voc  de onde?

-- Sua. Da parte alem. -- Ele falava manso, quase tmido.

-- Engraado, voc no tem cara de suo. Tem cara de italiano.

--  que minha me  italiana.

-- Ah. T explicado. Voc t chegando agora aqui na universidade?

-- No. J estou aqui faz quatro meses.

-- Tudo isso? No lembro de ter visto voc. Vai ver que nossas aulas eram em prdios
diferentes, por isso que a gente no se cruzou.

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-- E. Mas eu lembro de voc, sim. Te vi uma vez l no prdio da administrao.

-- Ah, ? -- Achei meio esquisito o fato de ele ter me visto uma s vez e se lembrar disso.
Alguma coisa em mim deve ter chamado a ateno dele. Fiquei imaginando o qu. Curioso,
isso. O que ser que leva uma pessoa a se lembrar especificamente de algum no meio de
tantas outras? S espero que no tenha feito nada de errado naquele dia. Dei uma risadinha.
Ele continuou:

-- Achei que voc fosse indiana. Seus olhos...

-- Tem muita gente que acha. Quando fui pra Inglaterra, h dois anos, todo mundo me
perguntava isso. Voc sabe, l tem muito indiano, principalmente em Londres. E uma vez,
em Madri, na Espanha, tambm me perguntaram a mesma coisa.

E aquela histria passou rapidamente pela minha lembrana. Eu tinha ficado hospedada
num hotel por cinco dias. Bem em frente havia uma relojoaria. Todo dia, quando eu
passava por ali, dava uma olhada na vitrine. Mas s entrei mesmo no ltimo dia. Um
indiano jovem, de trajes e gestos humildes, veio me atender. Pedi a ele que me mostrasse
uns relgios e, enquanto eu os examinava, o indiano olhava pra mim. At que ele resolveu
perguntar:

-- Voc  de onde?

-- Do Brasil.

-- Puxa, eu podia jurar que voc tambm era indiana. Faz cinco dias que vejo voc passar
a na frente e, apesar das suas roupas e do corte de cabelo diferente, eu podia jurar que voc
era indiana. Mas quer dizer ento que voc  do Brasil? Pas rico o seu, hem? E voc? 
mais uma daquelas milionrias brasileiras que entram e compram a loja toda?

Comecei a rir. Eu estava de shorts, tnis velho, camiseta desbotada e mochila nas costas.

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- Eu pareo muito rica? -- perguntei. Ele tambm riu. -- Sabe de uma coisa? Acho que o
milionrio daqui  voc. Pensa que eu no vi aquele monte de indianos riqussimos, cheios
Je jias e panos de luxo, caminhando e comprando nas ruas de Londres? -- Era verdade, eu
os tinha visto. Mas sabia que, como no Brasil, aquilo era apenas uma pequena parte da
populao. A grande maioria era muito, muito pobre. Mas, como tudo no passava de uma
brincadeira, e ele tambm sabia disso, continuei gracejando: -- Vai, diz a verdade, voc 
muito rico? Diz a!

Ele continuou a rir e, em seguida, disse meigamente:

-- , eu sou muito rico sim. Eu e todo o meu povo somos muito ricos. Mas ricos aqui -- e
ps a mo no peito --, ricos de corao.

Nunca mais esqueci aquele humilde indiano, que trabalhava numa simples relojoaria, numa
ruela qualquer desse mundo. Um homem rico, um homem rico de corao.

Olhei pro Lucas suo, que eu tinha acabado de conhecer -, disse meio sem pensar:

-- Acho que eu devia ter ido pra ndia.

-- Devia.  um lugar maravilhoso.

-- Voc j foi?

-- J. Duas vezes.

E ento ele ficou me contando de l. Dos lugares, das pessoas, da cultura, da pobreza, da
riqueza.

-- E o Brasil? Tambm deve ser um lugar bem interessante. E bonito. Tenho vontade de
conhecer.

-- E. Tem muita coisa pra ver. Muita coisa.

-- E voc, o que faz por l? -- ele perguntou.

-- O que eu fazia1. Trabalhava com o meu pai, estudava artes cnicas... ,,

143
-- E da veio pra c estudar ingls. E quando voltar?

-- No. Eu no vou voltar.

-- Vai ficar por aqui pra sempre?

-- No sei. vou primeiro acabar esse curso, vou ver neve no final do ano e... depois eu
penso.

-- , tambm no sei ao certo o que eu vou fazer quando terminar o curso. Mas ainda tenho
quatro meses.  bastante tempo pra se pensar. Muita coisa ainda pode acontecer, no 

mesmo?

Caramba, at que enfim. Era a primeira pessoa que eu conhecia por ali que tambm via as
coisas desse jeito: em vez de ficar fazendo mil planos pr futuro, procurava aproveitar o
presente. Afinal, a gente no sabe mesmo o que est por vir.

-- Voc est gostando das aulas? -- perguntei.

-- Estou. Mas eu no estou to adiantado quanto voc. Vou passar pro quinto estgio
agora.

-- Eu passei pro sexto. Voc est s um atrs de mim. Se voc quiser, faz o quinto em dois
meses.

-- , eu sei, mas  puxado. E, alm do mais, acho que j estou meio velhinho pra essas
coisas. Quando eu tinha uns vinte anos como vocs, era fcil. Mas agora, com 31, no sei se
eu j passei da fase.

-- Que  isso? Nem parece que voc tem tudo isso -- mentira, como eu j disse, parecia
sim, s disse aquilo pra ele se sentir bem. As pessoas parece que tm medo de envelhecer.
Queria ver se elas tivessem a sensao, por um minuto, de como  no poder envelhecer
nunca. Talvez elas pensassem melhor no assunto.

O Paulo, que estava mostrando uns CDs pra Alrica, perguntou:

-- Que tal se a gente fosse  praia amanh?

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- Amanh a gente no pode. Eu e a Val vamos visitar uma amiga minha.

--- No domingo, ento? -- sugeriu o Lucas. -- Eu passo aqui s dez pra pegar vocs.

No sbado, como ficou combinado, eu e a Alrica iramos pra Ocean Beach almoar com
uma amiga dela. Acordei mais cedo e fui aparar o cabelo. Fui num cabeleireiro ali perto do
cmpus, voltei pra casa e me olhei no espelho. Estava bom, quase a mesma coisa, bem
curto atrs com a nuca de fora e mais comprido na frente. Continuei me olhando.

A Alrica bateu na porta, pelo banheiro.

-- Pode entrar, t aqui.

-- Val, voc cortou o cabelo? Ficou jia! Xiii, mas pela sua cara voc no gostou muito.

-- No  bem isso,  que... voc j teve a sensao, quando se olha no espelho, de que voc
no parece com voc mesma? Ou de que aquela que voc v no  a mesma que os outros
vem? Ou de que voc no  bem voc? Ou nem nunca foi?

-- O qu?!

-- Nada, esquece.

-- Isso! -- ela me pegou pelo meu brao e foi me puxando. -- Vamos l pro meu quarto.

Quando entrei, dei de cara com as duas bandeiras pregadas na parede. Uma com um X
amarelo de fundo preto e verde. E a outra, com trs listras: vermelha, verde e amarela e
com o desenho de uma criana negra, de braos cruzados, bravinha, fazendo beicinho e
com o cabelo todo cheio de rohnhos.

-- Que bandeiras so essas?

-- Essa aqui  da Jamaica. E essa outra  do Rasta-Baby do Rastafari, a minha religio.

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Dei mais uma volta pelo quarto, xeretando nas coisas.

-- Puxa, seu quarto  to arrumadinho,  to limpinho. Ainda bem que voc no fuma. Eu
detesto cheiro de cigarro.

-- Eu tambm no gosto. Nunca fumei, quero dizer, cigarro. Agora, maconha eu fumo
muito. Por motivos espirituais.

Olhei pra ela e quase ri. Mas a essa altura eu j havia aprendido a esperar uns segundinhos
antes de rir de qualquer coisa. Pois, tratando-se de culturas to diferentes, o que  piada pra
mim pode ser muito srio pra outra pessoa. E  a que entra uma coisa chamada respeito.

--  mesmo?

-- E.  da minha religio.

 como se fosse um ritual?
-- , mais ou menos isso.

-- Que interessante!

-- T pronta. Vamos? O prximo nibus passa daqui a pouco. Caminhamos at o ponto e,
como de costume, o nibus estava no horrio. Entramos, pagamos ao motorista e sentamos
no terceiro ou quarto assento. Ela na janela e eu ao seu lado. Estava quase vazio. No ponto
seguinte, entraram mais algumas pessoas. E, no outro, o motorista "abaixou" o nibus at o
cho, usando um sistema especial que eles tm, para um cara de cadeira de rodas entrar. O
motorista foi at o rapaz e prendeu sua cadeira no devido lugar. Voltou e continuou
dirigindo.

-- Se eu pudesse levar alguma coisa daqui pra So Paulo, eu levaria os nibus. So to
diferentes. L, t tudo sempre lotado, sujo, no tem indicao nenhuma, os motoristas so
impacientes, pra no dizer grossos, e no tem facilidade nenhuma pra deficiente fsico nem
pra idosos.

-- , mas aqui tambm no foi sempre essa maravilha toda no. Muitas pessoas tiveram
que lutar pelos seus direitos.

146
Voc j ouviu dizer que h alguns anos ns, negros, s podamos sentar l atrs?

Era verdade, me lembrei de uma cena de um filme que eu tinha visto. E fiquei imaginando
a situao, a Alrica entrando no nibus e tendo que sentar l no fundo, s porque era negra.
Que absurdo!

Ela apoiou o brao no encosto da frente e comeou a cantar um pedao de uma msica de
Bob Marley, olhando pela janela.

-- Brother, y ou'r right, y ou'r right, y ou'r o right. We go fight. We love tofght. We'regonna
fght. Fght for our righh.

Olhei pra ela, humilde, mas, ao mesmo tempo, forte. Pensei na sorte que eu tinha tido de
fazer amizade com ela. Amizade... ser que eu podia dizer isso? Ser que ns ramos
amigas? Comecei a pensar de novo em tudo aquilo: "Ser que ela  uma pessoa
preconceituosa em relao  AIDS? Talvez no, j que ela tambm  alvo de preconceito.
Quem sabe ela entenderia... ser que eu conto? Conto. Algo me diz que ela entenderia.
Conta, conta... No, espera. E se ela no entender, se for uma daquelas pessoas que tm
medo, que quer ver a gente longe. J pensou se ela se assusta e faz um escarcu, conta l no
dormitrio? Eu sou expulsa de l, expulsa das aulas! Tudo bem que o doctor falou que
essas coisas no acontecem mais por aqui, mas acho que ele se esqueceu do caso Magic
Johnson, um dos melhores jogadores de basquete de todos os tempos, descobriu que estava
com AIDS e depois de muita polmica foi "induzido" a se retirar das quadras. O melhor
jogador de basquete, em plena forma, no est jogando s porque tem HIV. E isso aqui, em
pleno pas de Primeiro Mundo, em 1993. , acho melhor eu no falar nada. Ainda mais
agora que faltam s dois meses pra eu terminar o curso. Dois meses..."

147
A Alrica continuou olhando pela janela. O nibus deu uma leve freada e eu apoiei minha
mo no encosto da frente, ao lado da mo dela. Por alguns momentos nossos braos ficaram
juntos, um ao lado do outro. A diferena das cores de pele me chamou a ateno. Senti
inveja dela. Inveja pelo seu alvo de preconceito estar assim  flor da pele, onde todos
podem ver. A vontade que tive foi de colocar uma placa no meu pescoo dizendo: "Eu
tenho AIDS". Quem quisesse que me virasse a cara, quem quisesse que mudasse de
calada, quem quisesse que expressasse seu desejo de me colocar no fundo do nibus!
Quem quisesse que continuasse sentado ao meu lado. Ao menos eu saberia. Mas faltavam
dois meses pra terminar o curso. Dois meses. E a vontade de continuar l estudando era
mais forte do que qualquer outra coisa. Pelo menos naquele momento.

S para constar: depois de alguns anos, Magic Johnson voltou a jogar. Ele voltou para as
quadras.

Fui ao doctor Gust, j fazia alguns dias que eu no aparecia. Ele como sempre me recebeu
com aqueles olhinhos meigos.

-- Por onde voc andava, hein? J est na hora de repetir a contagem do CD4, n? E as
leses do HPV, como esto?

-- Sararam de vez.

-- timo. Mas voc sabe que isso pode voltar um dia se sua imunidade estiver baixa, como
voltaram dessa vez. Ento, no se esquea: Papanicolau a cada seis meses E se cuida, se for
transar, camisinha! DST no  brincadeira, e no seu caso,  pior ainda.

-- Eu sei. Pode deixar que eu aprendi isso muito bem. Do jeito mais difcil, mas aprendi.

-- Vou te examinar pra conferir se est tudo OK mesmo.

148
Da, voc sobe e faz o exame de sangue. Vou pedir tambm um exame de urina, t?

-- De novo? -- eu devia comear a cobrar cada vez que tivesse que fazer xixi no copinho.
-- T, t, vambora.

Nesse meio tempo tambm teve a histria do emprego.

-- T precisando de dinheiro? -- a Alrica me perguntou um dia.

-- No, t precisando de orgulho.

E era verdade. Eu queria trabalhar, pegar um cheque no final do ms e esfregar na cara do
meu pai: "Olha aqui, eu fui capaz de ter um emprego que no viesse de voc! E l fui atrs
de trabalho. com o meu visto de estudante tinha direito de trabalhar at vinte horas por
semana dentro da universidade. Ainda havia vagas na rea de alimentao. Preenchi uma
ficha, fiz um teste com mais uns dez estudantes concorrentes e passei. Trabalho: arrumar e
servir comida chinesa. Salrio: no me lembro ao certo, trs ou quatro dlares por hora.
Tempo: quatro horas, duas vezes por semana, pra comear. timo! Era tudo o que eu
precisava.

Passei na cafeteria no dia seguinte para acertar as coisas com o chefe, um cara duns 25
anos. De novo, um estagirio de administrao. Esses caras me perseguem.

-- Tudo certo -- ele disse --, s preciso agora do seu Mcial Jecurity -- um documento
necessrio para se trabalhar nos EUA.

-- No t aqui, ainda. Mas j dei entrada nos papis. Deve estar pra chegar por esses dias,
pelo correio.

-- Nada feito, ento. Voc s pode trabalhar com ele na mo.

-- Mas j est pra chegar!

-- Sinto muito. Quando chegar voc volta. Se ainda tiver vaga, mas no posso garantir
nada.

149
Que droga! Logo agora que eu estava to perto. Pacincia, fazer o qu? Me despedi do ex-
futuro chefe, que foi tratar de outros empregados, sentei numa mesa e fiquei olhando o
movimento da cafeteria. A parte de hambrgueres, a parte de doces, a parte da comida
chinesa, vrios estudantes trabalhando. Que pena, cheguei to perto! Me levantei e fui
saindo. Pacincia... Fui abrindo a porta. Pacincia... Olhei pra trs, a cafeteria lotada.
Pacincia? Pacincia uma ova! Esse emprego vai ser meu. Cruzei a porta para o lado de
fora. A luz do sol forte ofuscou minha vista, o calor escaldante queimou meus miolos. Tive
uma idia! Ainda havia uma remota chance. A chance de o documento ter chegado no meu
antigo dormitrio. Sa correndo, atravessei todo o enorme ptio, passei pelas quadras de
tnis, pelo estacionamento, atravessei a avenida, o campo gramado e... finalmente cheguei.
Quase morta, ofegante, mas cheguei. Falei com o cara da portaria.

-- Ser que voc podia ver se tem a uma carta pra mim?  que eu morei aqui no ms
passado e estava esperando uma correspondncia.  um documento importante.

-- Se tivesse chegado alguma coisa, ns j teramos enviado para o seu novo endereo --
ele explicou.

-- Eu sei, mas  que pode ser que tenha dado algum furo, voc sabe, essas coisas
acontecem. -- Ele se preparou para dizer um outro "no, no tem jeito", mas antes que ele
falasse dei um daqueles sorrisos contagiantes: -- Ah, d s uma olhadinha, por favor.

-- Tudo bem, vai -- ele pegou uma caixa com cartas e perguntou o meu nome. -- Olha,
no  que est aqui mesmo? Deve ter acabado de chegar -- ele disse meio pasmo. -- Que
sorte a sua!

-- Puxa, obrigado. Valeu!

150
Sa correndo, atravessei todo o cmpus de novo, cheguei na cafeteria. Olhei ao redor.
Avistei o chefe conversando com outras pessoas. Fui at ele.

-- U, voc aqui de novo?

Estava to cansada que nem conseguia falar, s estendi a mo com o envelope. Ele pegou,
abriu e fez uma cara de surpresa.

-- E a, o emprego ainda  meu? -- perguntei.

-- T, t, pode comear amanh.

E pensar que com quinze anos eu era uma comunista. No que eu tivesse lido O capital ou
qualquer outra grande obra a respeito. Mas tudo o que os professores de filosofia e de
histria diziam sobre o comunismo me davam a impresso de um mundo to justo que eu
me apaixonei perdidamente por tudo aquilo. Na minha agenda eu escrevia "Eu amo Karl
Marx". E no entendia como  que os adultos conseguiam conviver com aquela histria de
vender fora de trabalho, da mais-valia, do lucro etc. Continuei no entendendo. S que
cresci, a Unio Sovitica se dissolveu, o muro de Berlim caiu e meu namoro com Marx se
acabou. E l estava eu, mais uma vez, fazendo parte do sistema capitalista. Que coisa! Acho
que j  hora de os homens criarem algo melhorzinho. Ou ser a vez das mulheres? A
humanidade nos aguarda.

Passados quinze dias, o resultado dos exames j deveriam estar prontos. Sa da aula,
almocei e fui pro centro de sade. Como de rotina, a enfermeira me pesou, tirou a
temperatura. Sentei por alguns minutos na sala de espera. O doctor apareceu.

-- Vamos entrar? A gente precisa conversar.

Seus olhinhos meigos agora refletiam preocupao. J deu merda, pensei. Entramos em sua
sala. Nos sentamos e ele comeou:

151
-- Seus CD4 baixaram ainda mais. Lembra que estavam por volta de trezentos? Agora
caram pra duzentos e isso em apenas um ms. Voc tem que comear a se tratar. Tem que
ir a um especialista.

-- T bom, doctor, em dois meses eu termino o curso, da eu penso nisso. Vejo alguma
coisa l na Filadlfia.

-- Acho que voc no est entendendo, Val. Voc tem que ver isso agora! A gente no tem
muito tempo.

-- Dois meses! Eu s estou pedindo dois meses. Ser que isso  muito?

-- Do jeito que as coisas esto, eu nem sei se voc ainda vai estar aqui em dois meses --
ele disse nervoso.

-- Como assim?

Ele fez um gesto vago, desesperado.

-- Voc est querendo dizer que eu posso morrer em dois meses?

-- Sua imunidade est caindo muito rpido, se continuar desse jeito, voc pode pegar uma
doena oportunista a qualquer momento e a seu organismo no ter foras para se
recuperar, se voc no ajudar com remdios. E a pode, sim, pode at morrer em dois
meses.

Morrer? Morrer. Finalmente depois de tanta espera eu ouvia isso assim, na lata. Morrer em
dois meses. Ele prosseguiu:

-- Estou mais preocupado ainda, pois seu exame de urina est com uma alterao
importante na creatinina. Ainda no sei o que . Mas ns precisamos averiguar. Voc est
entendendo a gravidade do problema?

Gravidade, essa  boa. Pra mim mais parecia soluo. Finalmente eu iria morrer. Depois de
quatro anos ouvindo isso todo santo dia, agora era de verdade. Fiquei imaginando como
seria a tal morte. Provavelmente eu morreria no meu quarto, ficaria l mortinha e
esquecida. No tinha tantos

152
conhecidos no cmpus. Ningum daria por minha falta. At que um dia a direo dos
dormitrios notaria: "Aquele quarto ali anda muito quieto". O cara da portaria vai l e bate.
Nenhuma resposta, bate de novo. Nada. Resolve pegar a chave mestra. "Meu Deus, ela est
morta!". Toca a procurar os papis da estudante. T l o seu nome e seu telefone de casa.
Ela  do Brasil. Ligam. Meu pai atende: "Yourdaughterii dea", o homem diz. "Your
daugbter u dea" Mas ele no entende "Dea, DcaJl", o homem repete. E finalmente
meu pai compreende: Sua filha est morta. Comeam as complicaes. O corpo. Tem que
mandar buscar o corpo. E est to longe, est num outro pas. No sei por que as pessoas se
preocupam tanto com isso, j morreu mesmo,  s um corpo. Mas elas sempre se
preocupam. Iam querer mandar buscar. Iam querer vir buscar. Meu pai ia ter que pegar um
avio e vir at os EUA buscar o corpo. Que merda! At depois de morta dando trabalho.
Comecei a chorar. Odeio chorar na frente dos outros, mas no estava dando. O doctor me
estendeu uma caixa de lenos de papel branco. Puxei um e enxuguei as lgrimas, mas logo
escorriam outras.

-- Tudo o que voc precisa fazer  ir a um especialista. Ele pode ajudar. Pode cuidar do seu
caso.

-- E por que voc mesmo no cuida de mim? Estava muito bem do jeito que estava.

-- Porque eu no posso, porque eu no estudei pra isso. At agora eu fiz tudo o que podia,
mas daqui pra frente voc precisa de um especialista.

-- Eu nem gosto de especialistas!

-- Calma. A gente acha um que voc goste.

-- Meu pai no vai concordar com esta idia. Ele queria que eu fosse num especialista l na
Filadlfia onde mora minha tia.

153
-- Liga pra ele. Explica que voc tem que ir agora. Pode ligar aqui da minha sala.

-- E eu vou dizer o qu? Que eu no posso esperar dois meses, porque eu posso at morrer
nesse tempo? A, sim, ele vai querer que eu volte pra casa. E isso eu no fao! No vou sair
daqui sem terminar este curso.

- Voc quer que eu fale com ele?

-- No ia adiantar. Ele no fala sua lngua muito bem.

-- Ento... Eu no sei como ajudar -- ele disse desolado --, s sei que voc precisa de um
especialista.

--- Eu vou pensar. Vou ver como eu posso fazer... Caramba, quase esqueci da hora. Eu
tenho que trabalhar. Nem sei como vou conseguir desse jeito. Ah, esqueci de contar uma
coisa. Semana passada eu desmaiei duas vezes l no trabalho.

-- Desmaiou? Como?

-- Desmaiei, oras. Ficou tudo preto e eu ca. L  muito quente.

-- Voc costumava desmaiar antes?

-- No.

-- Pode ser de fraqueza. Pode ser por causa da anemia.

-- Anemia? Eu tambm estou com anemia?

-- No te falei?

-- Nem sei. Voc j falou tanta coisa que nem sei.

-- Val, vai pra casa. Descansa e pensa. Aqui est o telefone de uma mdica especialista que
parece ser legal, caso voc mude de idia. E se voc precisar de alguma coisa  s ligar pra
mim. Eu estarei aqui pra te ajudar.

Sa de l atordoada. Eu precisava pensar. Mas precisava trabalhar tambm. S que naquele
dia no ia dar. Talvez eu nem devesse trabalhar mais. Era melhor concentrar todo o resto
das minhas foras nos estudos. Afinal, era pra isso que

154
eu estava l, pra estudar. Quanto ao trabalho, j tinha provado o que eu queria. Era isso,
estava resolvido, pediria demisso. Mas como, assim de uma hora pra outra? Tinha que
arranjar uma boa desculpa. Fui indo em direo  cafeteria pensando no que dizer. Teria
que inventar alguma coisa, teria que mentir. Odeio mentir. Mas, se eu dissesse a verdade, a
que no iam acreditar: "Olha, eu acabei de sair do mdico e ele me deu dois meses de vida.
Vocs vo me desculpar, mas eu vou parar de trabalhar pra vocs. Tenho umas coisinhas
mais importantes a fazer". Eles iam achar que eu tinha enlouquecido. Era melhor eu mentir,
inventar alguma coisa, mas o qu?

Cheguei  caffeteria. L estava minha chefe de setor, arrumando umas coisas no canto, fui
at ela.

-- Aconteceu alguma coisa? -- ela me perguntou assim que me viu. Minha cara deveria
estar tima.

-- Aconteceu.  que... eu acabei de falar com minha famlia l no Brasil e... e tem uma
pessoa muito doente. Talvez esta pessoa at morra e... -- Meu Deus, o que eu estava
dizendo? -- E... talvez eu precise voltar pra l por causa disso. Eu ainda no sei direito,
mas... talvez eu precise ir embora a qualquer momento. Acho melhor eu parar de trabalhar.

-- Tudo bem, claro, eu entendo.

-- Vocs tm algum pra colocar no meu lugar ainda hoje? No vai atrapalhar? -- O
movimento na janta era pesado.

-- No, pode ir sossegada, tem gente sobrando. E se eu puder ajudar em alguma coisa...

-- Obrigada. Amanh ou depois eu passo aqui pra devolver a camiseta do uniforme.

-- T, e no esquea de pegar o seu cheque l no escritrio. No deve ser muita coisa,
mas...

-- Ah, obrigada.

155
Voltei pr dormitrio, entrei no meu quarto, fechei a porta, a persiana e apaguei a luz. No
escuro, perdi a noo do tempo. Pensei. Eu precisava achar uma soluo, mas s o que
vinha na minha cabea era a histria dos elefantes.

Um elefante sabe, sente quando vai morrer. A se afasta do resto do bando e vai para um
lugar chamado "cemitrio dos elefantes" e l morre sozinho, tranqilo, na paz. Tudo o que
eu queria ser era um elefante. Por que os homens no podem ser simples como eles?
Chorei. Chorei tanto que achei que fosse derreter. Mas a gente nunca derrete, no  mesmo?

"Talvez se eu falasse com algum... Mas quem? Meus pais, nem pensar! Mandariam eu
voltar pra casa. No volto. Talvez minha av. Desde que eu tinha ido morar com meu pai
ela cuidava muito de mim. Acho que ela me entenderia agora. Mas ela nem sabia que eu
tinha AIDS."

Continuei no quarto. No escuro. No silncio. Estranho que tivesse silncio por ali. Talvez
eu j no conseguisse ouvir o barulho vindo de fora. S depois ouvi uma voz que cantava.
Uma melodia desconhecida. Uma voz baixa, suave, mas forte. Vinha do quarto vizinho. Era
a Alrica. Adormeci.

156
10. A Teoria dos Livros
Quando acordei, horas mais tarde, tive uma idia: ligar pra tia Dete. Ela sempre tinha umas
sugestes boas. Talvez pudesse me ajudar. Alm do mais, apesar de distantes mil
quilmetros, pelo menos estvamos no mesmo pas. Contei tudo a ela, quer dizer, quase
tudo. No disse nada a respeito dos dois meses.

-- Entendo -- ela disse, depois de me ouvir --, eu concordo com o seu mdico que voc
deva ir logo a um especialista. Agora, quanto a seu pai, voc pode dizer pra ele que no
adiantaria nada voc largar tudo e vir pra Filadlfia, porque eu ainda no conheo nenhum
especialista por aqui. E voltar pr Brasil assim, de uma hora pra outra, tambm no seria a
melhor soluo. O que voc poderia fazer  ir primeiro a essa especialista que o seu mdico
j te indicou, a mesmo em San Diego, ouvir o que ela tem a dizer, e depois, com base
nisso, resolver o resto. Afinal, ningum melhor do que um especialista

157
pra te aconselhar numa hora dessas. E, enquanto isto, voc continua o seu curso.

-- Puxa, to fcil assim? Como  que eu no tinha pensado nisso antes. Tia Dete, voc  o
mximo em idias!

Era bvio que, pra qualquer deciso que eu tomasse -- tomar remdio, voltar pra casa,
morrer l mesmo... --, a pessoa mais indicada pra me aconselhar era um especialista em
AIDS. Afinal,  pra isso mesmo que existem os mdicos: pra indicar o melhor caminho,
no pra dar ordens como certos doutores infectologistas brasileiros.

Voltei pr quarto e escrevi uma carta pr meu pai explicando tudo. Quando o assunto 
complicado, nada melhor do que lpis e papel na mo. Se eu fosse falar ao telefone ele iria
berrar de um lado e eu do outro e a gente no ia se entender nunca. Assim, por carta, a
pessoa l, engole na marra, mas pelo menos tem mais tempo pra digerir. E, quem sabe, at
concordar.

Enderecei o envelope, dobrei a carta, coloquei-a dentro e fechei. No dia seguinte eu a
levaria ao correio. Fiquei por alguns segundos com ela na mo imaginando que caminhos
percorreria e quanto tempo levaria at que chegasse nas mos do meu pai. Pra falar a
verdade, tive vontade de entrar dentro dela. Mas, ainda bem, eu j estava bem grande, no
iria caber!

Deitei-me pra dormir, mas fiquei recordando um tempo em que eu era bem pequenininha e
o mundo  minha volta era grande, imenso e mgico, e o colo do meu pai, a soluo pra
tudo.

Pra comear, tinha minha casa, era a casa mais linda de todas. A casa que a gente morava
quando meus pais ainda eram casados.

158
A minha casa fica na rua Flix.  a rua mais legal de todas porque tem o nome do gato
Flix, do desenho que passa na televiso. E a minha casa  a mais bonita e a mais grande
de todas! Quer conhecer?  essa que tem o murinho de pedra cinza na frente. E esse
pedao aqui do muro  s meu. S eu posso sentar aqui. Depois do muro tem um jardim. E
um canteiro onde minha me planta rosas. Ela gosta muito de flor. Ela at conversa com
as plantas. Depois, tem a escadinha branca de trs degraus e o corrimo onde a gente
escorrega! Depois, tem a portona pra entrar na casa. Uma portona bem grande assim, de
ferro e vidro. Um dia eu fechei a porta bem forte, s que meu dedo tambm. Da eu fiquei
chorando, olhando pr meu dedinho amassado, minha me falou ento que aquele dia eu
nem precisava ir na escola. Da eu parei de chorar e o meu dedo nem doeu mais.

Quando a gente entra na portona, tem a sala de visita. E nem pode fazer baguna aqui! S
as vezes que a gente sobe na mesa e dana bal pr meu pai. Depois tem a sala de
televiso que tem carpete no cho e um monte de almofadas. E a televiso  to grande,
to grande que fica no cho e tem portinha. E nessa portinha a a gente brinca de casinha.
Depois tem a sala de jantar, mas a gente nem janta nela. E tambm no  lugar de criana
fazer baguna. E ela tem uma coisa secreta, que ningum sabe, uma porta que d l no
quintal e a minha me s abre num dia especial. Da tem a escada que vai l pra cima, mas
tem que subir devagar, porque seno a gente cai e quebra o pescoo. Uma vez eu ca e
quase quebrei!

L em cima, no final da escada, tem uma portinha. Minha me mandou fazer, pra gente
no fugir e cair. Depois, tem um quarto com uma estantezona cheia de livros. Um monte,
um monte assim. E a minha me me deu uma partinha aqui em baixo onde eu alcano, s
pra eu guardar os meus. Eu tambm j tenho muitos livros. Tenho at a coleo que se
chama "Fbulas Encantadas" e que a minha me l toda noite pra gente. Tem a
Cinderela, o Gato de Botas, a Bela Adormecida e um monte de figuras bonitas. Mas os
mais legais de todos so

159
os livros da minha me, que s tem risquinhos e bolinhas pretas. Mas da, quando a pessoa 
grande, fica olhando os risquinhos e enxerga um monte de figuras. Quando eu crescer, tambm vou
enxergar todas as figuras nos risqinhos. Isso se chama saber ler. E a tia l da escola  que vai
ensinar. Da eu vou poder ler todos os livros da minha me e do meu pai e de todo mundo. Eu at
j conheo um risquinho:  esse aqui, : A,  a letra A. A minha me conhece todas as letras e ela
sabe ler todas as co'isas. E ela tambm tem uma coleo que chama "Clssicos da Literatura ".
Ela gosta muito de ler. Ela l o dia todo. E as pessoas ficam surdas quando esto lendo, quer ver?

Me? Me? Me?

viu s


- Maeeeeo!
-- Que , filha?

Ah, agora ela ouviu.

Quando ela fica a lendo na cadeira de balano, eu sempre gosto de ficar olhando a nossa estante.
Ela  to colorida, to cheia de histrias. E foi sentada, olhando pra ela, que eu inventei a Teoria
dos Livros. Sabe como ? Assim: cada livro tem uma histria, e cada histria tem personagens, que
so as pessoas que moram dentro do livro. Da quando a gente apaga a luz e vai dormir, todos os
personagens saem dos livros e ficam passeando pela estante, conhecendo todo mundo. A Rapunzel
encontra com o Joo do p de feijo, que encontra com a Lcia j-vou-indo, que conversa com a
Chapeuzinho Vermelho, que j at conheceu o homem do livro da minha me, e do livro do meu pai
tambm. E fica todo mundo contando suas histrias um pro outro. E fica todo mundo feliz! Mas
mais feliz ainda eles ficam quando agente l o livro deles. Porque o livro gosta muito de ser lido.
Da ele fica l na estante esperando ser acolhido. E quando agente escolhe ele,  a maior festa.
Puxa, deve ser bem legal morar dentro de um livro! Eu queria morar dentro de um.

Atrs desta estante a tem outro quarto, o meu! A minha caminha  verde-clarinha e tem um papel
que chama papel de parede. Ah, no 

160
engraado? Ele tem desenho de florzinha e eu at j arranquei um pedao. Mas a minha
me falou assim, que no pra arrancar pedao, seno meu quarto vai ficar todo feio.

Tem tambm um bercinho. E dentro do bercinho tem um nen sentado. Ele  gordo e tem a
cara amassada.  a minha irmzinha. Ela t fazendo um beicinho. Ih, vai chora, vai
chora... Choro. Esses nens s choram.

-- T na hora de dormir. As duas, bonitinhas, j pra cama.

A gente deita e minha me apaga a luz e fecha a porta. Xiii, ficou escuro. E no escuro
mora o bicho. Eu quero a minha me! Mas se eu for l no quarto dela ela me d uma
bronca. Ento eu saio da minha cama e entro no bero da minha irmzinha. Fica meio
apertado e ela  s um nenm, mas se eu abraar ela bem forte o bicho nem pega agente.

Depois tem o banheiro. Eu tomo banho com a minha irm. Da eu minto pra ela que eu sou
mgica e ela acredita. Eu fico embaixo da gua do chuveiro e ponho s o brao pra fora,
da a gua escorre pelo meu dedo. S que eu falo pra ela que eu sou mgica e sou eu que
t fazendo sair gua pela minha mo. E ela acredita! Puxa, minha irmzinha  to
bobinha, ela acredita em tudo o que eu falo, at ri e bate palma. Mas, sabe, quando eu
crescer, eu vou ser mgica mesmo. Quando eu crescer eu vou ser a "Jeanie  um gnio ".

Depois, ali, tem o quarto do meu pai e da minha me. A gente gosta muito de fazer
baguna l. Eles tm uma camona e a gente fica pulando e acorda o meu pai e a minha
me. Esse  o quarto mais legal! Mas depois... meu pai no mora mais aqui, e ficou muito
feio.

Tem mais coisa pra ver l embaixo. Tem a sala de almoo onde a gente tambm pode
jantar. Tem que passar por esse corredor e ali naquela portinha d embaixo da escada,
num quartinho escuro, que tambm mora o bicho. No entra a no! Bora l na sala de
almoar. Tem uma mesona. E uma mesinha com um telefone vermelho. A minha me t
falando nele. T brigando. Agora ela parou, tirou do ouvido e ps em cima da mesa. u

161
-- Que voc t fazendo, me?

-- T deixando seu pai de castigo.

O castigo pr meu pai  muito fcil, quando  pra mim ela me deixa sem televiso, quando
 com ele, ela s tira o telefone do ouvido. Que castigo mais mole. Pronto, acabou o
castigo, ela voltou a falar. Que coisa mais chata. Olho pela sala pra procurar alguma
coisa mais interessante:

-- Uma irmzinha l no canto. -- Que brinca, brinca? Que brinca!

Ela nem responde. Acho que  porque ela no sabe falar ainda muito bem, eu chego mais
perto e abro a perna.

-- Passa aqui, De trenzinho! -- Ela passa engatinhando.

- Agora sou eu! Abre a perna! -- Ela no entende. Vou l e abro sua perninha. -- T
presa, t presa, t presa, t presa! --falo de brincadeira. Ela no acha graa, continua
quieta. De repente sinto uma gua quente na minha cabea -- Que cheiro ruim...  xixi! --
manh, ela fez xixi em mim!

-- Vocs duas so impossveis! No podem ficar um minuto sozinhas que aprontam. Vamos
j pro banho!

E eu aprendi: essas irmzinhas quietinhas, que nem sabem falar ainda, podem ser muito
perigosas.

Depois tem a cozinha. O cho  de quadradinho vermelho e a porta  de sanfona, que vai e
vem! E foi aqui na cozinha que eu tive a minha primeira experincia de morrer. Qu sab?
Minha me tava l no jardim mexendo no canteiro. Tava passando uma meleca verde que
ela tira dum pote. No pote tem um desenho bem feio. Esse desenho a chama caveira. Por
que ser que o homem fez esse desenho feio a?

-- Me, posso ajud? Ela me d uma pazinha.

-- No, eu tambm quero passar a meleca verde nas plantinhas!

-- Toma, s um pouquinho. Mas no pe na boca, hein? Isso  veneno. Voc morre!

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Morre? Como  que morre mesmo? Passei a meleca na plantinha, no pezinho dela.

-- Pronto, cabei. No quero mais ajud.

-- Ento vai l dentro e pede pra ROse lavar sua mozinha. Vai, vai logo.

A ROse  a nossa bab. corri at na cozinha. Ela tava l cantando e lavando loua na pia.
Fiquei atrs dela, mas ela nem me viu. Olhei pra minha mo, toda suja de meleca verde. E
lembrei do que a minha me tinha falado: "No pe a mo na boca,  veneno, voc
morre". Continuei olhando pras mozinhas, mais de perto, mais de perto, huummm...
tentador. Abri bem a boca, botei a lngua pra fora e dei s uma lambidinha. A de repente
ficou tudo preto e parecia assim que eu tava descendo duma montanha-russa:

- M!

A Rose, lavando a loua, se virou:

-- Que , menina?

-- Nada, nada no! Lava minha mo, lava, lava! Minha me falou pra voce lavar minha
mo.

Puxa, agora sim eu sabia por que o homem tinha desenhado um desenho bem feio no pote
da meleca verde.

E depois da cozinha ainda tem mais um quarto. No falei que a minha casa era grandona?
 um quarto de baguna. E aqui pode fazer tudo o que quiser. E  onde a Cida assiste
televiso. Cida  a empregada, ela  um pouco gordinha e usa um leno colorido na
cabea. E ela tem uma blusa amarela bem bonita, assim sem manga e apertada que tem um
desenho de um homem que canta. Outro dia o homem at apareceu na televiso, a Cida me
mostrou, ele se chama Elvis Presley e ela me contou que ele era bem famoso e cantava
muito bem, mas da bebeu, bebeu, bebeu, ficou bem gordo e morreu. A Cida quase chorou.
Da ela sempre usa a blusa dele. Eu acho a blusa muito bonita, quando eu crescer eu vou
querer ter uma igual. Mas minha me falou que eu nem posso ter uma igual, porque a
blusa  cafona. Minha me acha tudo cafona

163
L fora tem mais o quarto das empregadas e o quintal bem grande que a gente anda de velotrot e
de jipinho. E no Natal meu pai fala que vai me d uma bicicleta de verdade! Que eu j vou ser bem
grande pra andar nela. E vou andar sem rodinha! E mesmo se eu cair, eu nem vou chorar, porque,
eu j sou bem grande e nem choro mais. S outro dia que eu chorei. S um pouco. Meu pai tava
fazendo a barba com aquela espuma engraada na cara, ele ps at no meu nariz. Mas eu limpei
Logo, seno nascia uma barba ni mim. Da ele ps a gilete na pia e falou assim: "No mexe a".
Mas eu mexi. S um pouquinho, mas meu dedo cortou um monto, e saiu um monte, um monte
assim de sangue. Da eu chorei. Mas o meu pai pegou eu no colo e ps o meu dedo na boca dele at
parar de sair sangue, e me abraou bem forte at eu parar de chorar. Eu sarei, da eu fiquei feliz,
no chorei nunca mais e ele ps eu na caminhha para eu dormir.

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11. Carpe diem

Perdi a hora no dia seguinte. Cheguei atrasada na aula do Tim, pedi licena pra entrar e me
sentei no canto. Ele veio at minha carteira me entregar o texto com o qual os outros j
estavam trabalhando. Comecei a ler. Quando j estava na metade, entretanto, me dei conta
de que no havia prestado ateno em nada. Recomecei, mais uma v tentativa. Larguei a
folha e olhei ao redor, todos lendo, concentrados em aprender. Aprender o que mesmo?
Boa pergunta. O que  que a gente est aprendendo, e pra qu? Senti-me uma imbecil, ali
sentada naquela sala de aula. Do que me serviria tudo aquilo? Tantos textos, tantos estudos,
tanta cultura, tanta sabedoria e o que  que eu sabia realmente a respeito de tudo? Nada.
Tive a triste sensao de que a minha vida toda no havia passado de um jogo. Mas que, em
vez de estar jogando, eu estava sendo jogada.

O professor se aproximou novamente, trazendo a folha de questes. Olhei para seus olhos
verdes e sua barba ruiva e tive vontade de gritar com ele: "O que voc pensa que est
fazendo?

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Nos ensinando o qu? Onde pensa que iremos chegar com toda sua sabedoria? Olhe pra
ns, olhe pra si mesmo, aonde foi que chegamos? No percebeu ainda que, quanto mais a
gente estuda, mais a gente aprende que no sabe nada?!" Mas no gritei, no emiti sequer
um som. Afinal, ele no tinha nada a ver com aquilo. S estava fazendo sua parte. Todos
ns fazemos.

Mais outro dia e mais outro, mais uma aula sem sentido, e mais outra. Mais uma tarde livre,
pra no dizer vazia. E numa dessas aproveitei para devolver a camiseta do uniforme na
cafeteria. A chefe me lembrou do cheque. Fui at o andar de cima receb-lo. Cinqenta
dlares e alguns quebrados. Na sada, sentei-me na escadaria sob o imenso cu azul e
examinei o pequeno papel em minhas mos. E pensar em tudo o que eu havia feito s pra
mostrar aquele papel pro meu pai. "T aqui, , fui capaz de arranjar um emprego que no
viesse de voc". Que besteira! Acho que no fundo sempre soube que ele no tinha dito
aquilo por mal.  sempre assim, ele fala um monte, berra, estrebucha, depois no agenta,
vira pro lado e comea a rir. E agora eu estava ali sentada com aqueles cinqenta dlares na
mo. E pensar que o mundo gira conforme aqueles papeizinhos.

"Voc sabe quanto custam cinqenta dlares?" Me lembrei do motorista, a primeira pessoa
que eu conhecera em San Diego e que me perguntara isso quando lhe disse que podia ficar
com o troco. Na verdade, eu no sabia direito. Naquela poca de inflao era uma baguna:
cruzeiros, cruzados e cruzados-novos! A converso no era to rpida assim. Mas agora eu
j estava craque e sabia exatamente quanto valiam. Dava pra comprar um tnis, olhei pro
meu j bem velhinho; uma jaqueta, as noites estavam cada vez mais frias; ou quem

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sabe jantar algumas vezes por a, o dobro disso se fosse no Brasil (naquela poca, bvio,
hoje  o contrrio). E dava tambm pra no fazer nada, caso voc morresse com eles no
bolso. No  contraditrio isso? As pessoas lutam tanto por uma coisa que no fundo no
tem valor algum.

A no ser,  claro, que voc cruze com um motorista atencioso que a ajude a achar o
caminho de casa, bem na hora em que voc estava mais perdida. E, por falar nisso, onde
ser que andava toda a sorte que ele tinha me desejado?

Domingo  noite fui tomar um caf com o Lucas, no The living room, um caf do cmpus
que tinha mesmo a cara de uma sala de estar. Jogos antigos de sofs e poltronas espalhadas
pelos cantos acompanhados de mesinhas iluminadas com abajur e msica ambiente. O
Lucas pegou um capuccino pra ele e um chocolate com chantily pra mim e fomos nos
sentar numa mesa com duas poltronas. Ele me contou de um jantar que eu havia perdido,
das suas aulas da semana, dos seus colegas de classe, do hotel onde estava morando...

-- E voc, no vai falar nada? T to quieta hoje.

-- No t com vontade de falar. Continua falando, me conta a alguma coisa.

-- O qu?

-- Sei l. Alguma coisa. Me conta por exemplo, hum... da sua viagem pra ndia.

-- Da minha viagem pra ndia?

-- , voc j me contou como  l, mas ainda no me contou o que foi fazer l.

Ele ficou um tempo pensando como se estivesse lembrando, depois comeou a falar:

-- Eu tinha mais ou menos a sua idade da primeira vez. Larguei tudo e fui pra ficar meses.
Pra meditar. Acho que eu

167
estava procurando uma razo, um motivo, um sentido maior pra isso que a gente chama de
vida.

-- E achou?

Ele apenas deu um meio-sorriso. Pegou a colherinha, mexeu o caf demoradamente e deu
um gole. Ele tinha que saber. Era uma pessoa extremamente culta, inteligente, falava cinco
lnguas, tinha lido muitos livros, entendia de arte, de msica, tinha viajado o mundo, ido
meditar na ndia duas vezes, j estava com 31 anos... Ele sabia. Ele tinha que saber.

-- Me fala, Lucas, qual  a razo da vida, qual  a razo disso tudo?

-- A razo disso tudo? -- ele repetiu e ficou olhando pensativo para a xcara sobre o pires,
como se ali dentro estivesse todo o mistrio. Depois levantou os "olhos ao encontro dos
meus, respirou fundo e finalmente disse:

-- No sei.

-- O qu?! Como no sabe?!

-- No sei. No sei.

--  mentira, voc no est querendo me falar! Ele comeou a rir.

-- No sei, juro que no sei, se eu soubesse te falava.

-- Quer dizer que voc estudou a vida toda, fala cinco lnguas, passou meses na ndia
meditando, j tem 31 anos, 31 anos! E no sabe?

-- Vai ver que a gente s descobre l pelos quarenta, sessenta, cem -- ele disse
despreocupadamente.

-- Ah, ? E quem morre antes disso? Morre sem saber?

-- Talvez ningum nunca descubra, ou talvez descubra depois que morre.

-- Ah, muito justo isso. A gente passa a vida toda aqui, vivendo um dia depois do outro
sem saber de nada. A depois que morre  que a gente descobre. Se descobrir! Tambm vou

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te dizer uma coisa: se, quando eu morrer, no tiver um anjo l em cima me esperando pra
explicar tudo, tintim por tintim, eu juro, quebro aquele cu inteiro!

Ele riu mais ainda. Mas eu no estava achando graa nenhuma, muito pelo contrrio, estava
bem deprimida. Quando finalmente ele parou de rir e recuperou o flego, disse srio:

-- Talvez ns nunca saibamos. De qualquer forma, voc ainda  muito nova pra ficar
pensando nessas coisas. Muito nova.

Segurei o canudo e comecei a afundar o chantily dentro do chocolate quente. Dei um gole.
Estava extremamente doce. Continuei brincando com o chantilly. Por fim, disse:

-- Desculpe, acho que eu no deveria ter vindo aqui.

-- Se voc quiser, a gente vai embora.

-- No t falando deste lugar. T falando deste pas, deste planeta, talvez at desta vida!

-- No diga isso, Valria -- ele sempre dizia o meu nome com o acento errado --, todas as
vidas neste planeta so um milagre.

-- S se for a sua. A minha mais parece um desastre.

-- Meu Deus, como voc fala besteira. Acho que voc anda muito estressada. Que tal se,
no fim da semana que vem, fizermos um daqueles passeios afastados? Ir fazer bem pra
voc meditar um pouco e colocar essa cabea no lugar.

-- , quem sabe.

Segunda-feira: o despertador tocou, outro dia de aula. Desliguei o barulhinho irritante com
um tapa, o pobrezinho voou longe. Virei pro lado e voltei a dormir. Chega desta palhaada,
no vou mais a droga de aula nenhuma! Mas no consegui pegar no sono de novo. Que
jeito? Me troquei e fui.

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Aula do Tim outra vez. L veio ele com mais um texto na mo.

-- Toma, Val, eu espero que voc goste desse aqui.

Contava a histria de um garoto, filho de mexicanos pobres que migraram para os EUA a
fim de trabalharem na lavoura. Era gente ignorante, que no sabia ler nem escrever e mal
falava ingls. Quando chegou a hora, o menino comeou a freqentar uma escola, mas
enfrentava imensa dificuldade, j que no conseguia acompanhar os colegas. Repetiu de
ano duas vezes, at que foi mandado para uma classe especial. A nova professora, ao
contrrio das outras que s o humilhavam perante seu pssimo desempenho, sentou-se no
cho com todos os alunos e tirou do bolso algumas bolinhas de gude, coisa que o garoto
bem conhecia. Ela props ento um simples jogo que ele foi capaz de vencer. Recuperada
assim sua auto-estima e sua confiana, aos poucos, ela passou a ensinarlhe outras coisas, a
contar, a ler, a escrever. O menino concluiu com sucesso aquele ano e todos os outros,
cursou a universidade, se tornou doutor em pedagogia e era ele mesmo quem escrevia
aquele texto.

-- Valeu, Tim!

Sa da aula com outro pique. Era bom, eu iria precisar. Fui at o centro do cmpus onde
havia um servio de informaes sobre os nibus. Me informei a respeito do que iria para
Hillcrest, um outro bairro da cidade. A atendente me deu uma tabela de horrios, agradeci e
fui para o ponto. Estava tendo uma feira por ali, cheia de pequenos estands, uns vendendo
coisas pra caridade, outros fazendo propaganda de academia de ginstica. Dei uma rpida
olhada em tudo. At que vi uma coisa que me chamou a ateno: salto de pra-quedas. Eu
sempre dizia que antes de morrer eu faria uma loucura destas,

170
pular de pra-quedas, voar de pra-iailig ou de asa-delta. Talvez tivesse chegado a hora.
O cara que cuidava do estand se aproximou:

-- E a, t a fim de dar um salto? Voc pode fazer um curso completo ou simplesmente
pular acompanhada de um instrutor.

Ele me entregou um folheto. Agradeci e fui embora. Se eu no fizesse isso um dia, sei que
iria me arrepender. Se no fizesse isso agora, talvez no tivesse mais tempo. Ou talvez
tivesse sim. Amassei o papel e o joguei no lixo.

Peguei o nibus. Eu j conhecia Hillcrest, de noite era mais freqentado pelos intelectuais,
gays e um povo mais cabea. Tinha uns cafs bem legais por ali, mas agora eu estava
procurando uma clnica mdica. Minha consulta com a especialista estava marcada para as
quatro.

Era um prdio grande, novo e bonito. O porteiro indicou o segundo andar e l a secretria
pediu que eu aguardasse um pouco. No preciso descrever a sala de espera, no ? Peguei
uma dessas revistas femininas. Se era do ano passado? No importa, o assunto  sempre o
mesmo: Como obter um orgasmo; Como conseguir um marido. Joguei-a num canto. Bem
que essa mdica poderia me chamar logo. Comecei a roer o canto das unhas.

-- Pode vir -- a secretria me indicou a sala.

A mdica se apresentou. Era uma mulher grande, elegante, de cabelos lisos, escuros, num
tom de vinho, cortados na altura dos ombros. Devia ter uns quarenta anos. Era simptica.
Um pouco formal talvez.

Expliquei a ela quem eu era, por que tinha ido l e mostrei meus exames. Ela olhou e fez
algumas perguntas. H quanto tempo, como foi, se eu usava drogas... Contei toda a histria.
Ela olhou os exames de novo, mas antes que recomeasse a falar eu fui logo dizendo: <'

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-- Voc vai dizer que eu devo comear a tomar AZT, no  isso?

-- Para ser sincera, eu acho que voc j deveria estar tomando. Mas isso  uma deciso sua.
E, para falar a verdade, o que mais me preocupa agora  o seu exame de urina. Voc pode
estar com algum problema srio nos rins. E acho que precisamos ver isso logo. Fazer um
ultra-som e uma cultura de urina mais detalhada.

-- Tudo bem.

-- E a, quando voc voltar com os resultados, a gente colhe outra amostra de sangue e
checa novamente o CD4. Voc no tem sentido dores, febres, gnglios no pescoo,
diarria?

-- No, nada. Nunca tive nada. Ela me examinou.

-- Parece tudo bem. Mas voc sabe que mais cedo ou mais tarde ter que tomar uma
deciso, no sabe? E esse remdio, o AZT, ou outro similar, o DDI, por exemplo, so as
nicas opes que ns temos para tentar retardar a doena.

Tentar retardar a doena,  mole?

-- Em muitos casos vem funcionando -- ela completou. Sinceramente, no via qual era a
vantagem de a gente ficar retardando, pior, prolongando uma coisa que ia acontecer de
qualquer jeito.

-- Eu sei que tudo isso parece meio vago, mas a nossa esperana  que nesse tempo
apaream drogas mais eficazes ou, quem sabe, at a cura.

Talvez, sei l, quem sabe. No sabia o que pensar. S sabia que no estava preparada para
aquilo.

-- Olha, doutora... -- parei um pouco, eu nem sabia o que dizer, "talvez um dia eu tome
este remdio, se eu achar algum motivo", pensei-- por enquanto s o que eu quero 
continuar aqui estudando. Falta pouco mais de um ms. E

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eu no vou me arriscar agora a tomar esses remdios e, de repente, ter algum efeito
colateral. Eu moro num dormitrio na universidade, ningum l sabe que eu tenho AIDS. E
outra, eu nem tenho dinheiro pra compr-los aqui. Se pedir pro meu pai, ele vai se ligar que
eu estou mal. So remdios caros, no so?

-- So. Mas o seu plano de sade no cobre o remdio?

-- No.

-- E eu no sei como poderia te ajudar neste caso, j que  estrangeira.

-- T vendo? Se eu fosse tomar um remdio desses, eu teria de ir pra casa. Mas eu no
posso fazer isso antes de acabar meu curso. Eu sei que parece idiota pra voc, que um curso
de ingls nem  to grande coisa assim. Mas eu j larguei a faculdade, j parei o teatro, no
quero parar mais isso agora. Alm disso, estou gostando muito de morar aqui. Estou
aprendendo muita coisa, no  s ingls, no.

-- Tudo bem, eu te entendo. Um ms e pouco no iria fazer tanta diferena assim. Mas
precisamos checar o seu rim.

Marquei com a secretria um ultra-som para a semana seguinte e peguei as instrues para
um novo exame de urina, que eu deveria colher em casa. "Semana que vem eu penso nisso,
agora preciso de folga!"

No sbado cedo o Lucas passou l no dormitrio pra me apanhar de carro.

-- Que mistrio todo  esse, hein? Aonde  que voc vai me levar hoje?

-- Num lugar bonito, s isso. Voc j viu o deserto?

-- J. E como! Quando a gente foi pra Las Vegas. Era um deserto sem fim, quilmetros e
quilmetros de areia branca e, de vez em quando, uns cctus aqui e l. Dava a impresso de

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que no ia acabar nunca. A, de repente, depois de cinco horas surge, no meio do nada, a
cidade. Cheia de hotis luxuosos, luminosos, magnficos, cassinos estrondosos, e grana,
muita grana naquelas maquininhas enlouquecedoras. Ele riu.

-- , mas hoje a gente no vai ver nada disso.  um lugar muito rico, mas outro tipo de
riqueza.

-- L vem voc com esse papo zen.

-- U, no foi voc quem disse que tambm gostava de meditar? Pega ali o mapa dentro do
porta-luvas. No lembro direito o caminho. Vou te ensinar a meditar de verdade.

Depois de muito rodar por aquela estrada vazia no meio do deserto, ele parou perto de uma
bifurcao. Checou novamente o mapa e prosseguiu.

-- Tem um rio naquela direo.

-- Um rio? Como pode um rio perto de um deserto?

-- No me pergunte, porque eu tambm no sei. Chegamos,  aqui.

Ele parou o carro no acostamento. Naquele trecho tinha bastante vegetao, rvores. Fomos
andando por uma trilha a p, depois de uns dez minutos chegamos ao rio. Ele largou a
mochila das costas, espreguiando. Eu peguei a garrafa de gua e bebi um pouco. Ao nosso
lado tinha uma rvore bonita, repleta de folhinhas verdes que balanavam conforme o vento
suave. Sentamos  sua sombra, de frente para o rio, em posio de ioga.

-- E agora me explica como  que voc medita -- ele disse.

-- Como? Fecha os olhos, relaxa o corpo e... e viaja.

-- T. Essa  uma das tcnicas. Mas quando a gente t num lugar assim, to bonito, no
meio da natureza, o grande lance  ficar de olhos abertos.

-- Mas a no d pra se concentrar.

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-- D sim. Faz o que eu t falando. Respira fundo algumas vezes e ouve o barulho do
lugar. Devagar... Ouve o barulho dos pssaros, o barulho da gua do rio, o barulho do vento
nas folhas. T mais calma?

-h.

-- Agora olhe para o rio, para as rvores, para os pssaros, olhe para toda a natureza a sua
volta. E imagine at o que voc no consegue ver, os peixes dentro do rio, as formigas no
cho, os insetos nas flores... E pense que tudo isso est vivo, vivo sobre a terra. Pense
profundamente nisso.

Engraado, no ? Parece uma coisa to bvia, mas at ento eu nunca tinha parado pra
pensar naquilo. Ainda mais assim, pensando, pensando... Comecei a sentir uma energia
diferente, uma coisa bem forte. Caramba, quanta vida tinha por ali, era mgico. Ele
continuou:

-- Agora respire fundo outra vez e pense que, como o rio, como a rvore, as flores, os
bichos, voc tambm est viva e  mais um deles sobre a terra. Voc faz parte de tudo isso.

Eu-estou-viva. Voc j parou pra pensar nisso algum dia? Ento, pare. Tire tudo da sua
cabea e s pense nisso, mas bem fundo. Ns estamos vivos! Comecei a rir, joguei a cabea
pra trs e deitei.

-- Que isso, Valria, ficou louca?

-- No. Mas  que  uma sensao muito boa. Uma sensao de alvio.

-- Agora me diz, no  um milagre?

-- E. Todos ns somos um milagre.

Chegou o dia de colher a urina para fazer o exame. Peguei a folha de instrues. Eu teria
que, durante 24 horas, fazer xixi num copinho e despejar no recipiente plstico especial que
a mdica havia me dado. Moleza. Durante este tempo ele deveria ficar guardado em
geladeira. O qu?! Geladeira? Era

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s o que me faltava agora. Nesse dormitrio eu no tinha geladeirinha no quarto. Que
droga, como  que eu no vi isso antes? Deixe-me pensar... o Shark! O Shark tem geladeira
no quarto e ele disse que se eu precisasse de qualquer coisa era s pedir. Legal, eu vou l,
bato no quarto dele e digo: "Oi amigo, ser que eu podia guardar um pouco de mijo a na
sua geladeira?". E, detalhe, voltava a cada duas ou trs horas: "Olha, tem mais um pouco
aqui". Tenha santa pacincia. No, nada disso, eu teria que dar outro jeito. Mas que jeito?
Olhei pelo quarto. Eu teria que me virar ali dentro. Vejamos... o que eu tenho de mais frio?
Uma pia e um ar-condicionado. Pia, ar-condicionado, alguma idia? Impossvel. J sei! E
se eu conseguisse gelo, bastante gelo?  isso! Esvaziei a lata do lixo, ali seria o lugar ideal.
Agora s precisava do gelo. Peguei uma sacola plstica no armrio e desci at o restaurante
do dormitrio. Maya, a senhora africana que controlava a entrada, me cumprimentou:

-- Ol, Val, veio comer?

-- No, dona Maya, eu... na verdade eu precisava de um favor. Ser que a senhora poderia
me arranjar gelo?

-- Claro, meu bem.

-- Mas eu vou precisar desta sacola cheia -- disse mostrando a sacola branca.

- Nossa, pra que tudo isso?

-- Bem,  que eu vou fazer uma experincia.

-- Uma experincia?

-- ,  isso a, uma experincia pra faculdade -- fiz figas pra que ela no perguntasse qual.

-- Ah, um trabalho da escola. Tudo bem, aguarde um pouquinho.

Logo ela voltou com a sacola cheia. Eu agradeci e perguntei se, caso precisasse mais,
poderia buscar. Ela disse que sim.

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timo! Quase tudo resolvido. Peguei a sacola e voltei pro meu quarto, torcendo pra no
cruzar com ningum no caminho. Mas no  que bem na hora de sair do elevador o Frank,
aquele loirinho de cabelo esquisito que s falava gria, ia entrando. Escondi rpido a sacola
atrs de mim. com ele essa histria de experimento no ia colar.

- Oi, Val!

E falou um monte. E, pra variar, no entendi porra nenhuma. Como sempre s dava um
sorrisinhho e dizia:

-- h... ha... ha... -- qualquer dia desses ele ia dizer "e a gata, bora l no meu quarto que
eu t a fim de dar uns amassos". E a idiota aqui ia estar respondendo: h. bom, contanto
que ele no visse o que tinha dentro daquela sacola e perguntasse pra qu, timo. No final
ele se despediu com Later, que eu deduzi que era a minimizao de See you [ater.

-- Ok, bye -- eu disse e corri pr quarto.

Passei o resto do dia trancada l, fazendo xixi no copinho e despejando no recipiente que eu
conservei dentro da lata de lixo com gelo. Ainda bem que no apareceu ningum por l.
Tambm, se aparecesse, eu diria: " um ritual da minha religio. A gente bebe depois, vai
um pouquinho a?".

No dia seguinte, cedo, peguei o recipiente cheio e coloquei numa sacola e fui pro ponto de
nibus. Mais uma estupidez de minha parte. Deveria ter pego um txi, mas s fui me
lembrar disso depois que j estava sentada no nibus em movimento. S me restou, ento,
torcer pra que a sacola no casse e derramasse o mijo por todo o canto.

Enfim, chegamos sos e salvos ao hospital. Entreguei meu companheiro  enfermeira e fui
fazer o ultra-som. Bem simples por sinal: meleca gelada na sua barriga e uma camerazinha
que, como no sei, consegue filmar o seu rim l dentro. O

177
resultado iria, em alguns dias, direto pra mdica. E algo dizia que tudo estaria bem.

Na quinta, depois da aula, sa para dar uma volta. As vezes, tenho essa necessidade de sair
andando por a, sozinha, meio sem rumo. Fui caminhando pelas ruas do cmpus em direo
ao ponto de nibus. Estava um sossego por ali. Atravessei a avenida e, quando cheguei ao
outro quarteiro, vi uma menina andando de bengala branca logo  minha frente. Ela era
cega, eu j a tinha visto antes. Ela tambm morava no meu dormitrio, mas nunca havamos
conversado.

Apressei o passo at ficar ao seu lado e disse:

-- Oi, ser que eu posso te ajudar? i Sem parar de andar ela respondeu:

-- Obrigada, mas eu posso andar sozinha.

-- Eu sei que voc pode -- insisti -, mas ainda assim eu posso te ajudar. -- S ento ela
parou.

-- Tudo bem, mas no me segura, deixa que eu seguro em voc. -- Ela segurou no meu
brao. -- Puxa, como voc  magrinha! -- comeamos a andar. -- Como  que consegue
se manter assim vivendo aqui, com toda essa comida engordativa

-- Eu sempre fui magra.

-- Sorte a sua. Desde que eu cheguei aqui j engordei uns quatro quilos.

-- A gente vai ter que sair desta calada -- avisei --, ali na frente tem umas obras, t tudo
quebrado -- mudamos de caminho. -- Voc  de onde?

-- De Israel.

-- Ah, voc  judia?

-- No, eu sou palestina.

Pronto, j dei um fora. Mas tambm como  que eu iria adivinhar, naquela regio  a maior
baguna, t todo mundo sempre

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em guerra. Mas ela, pelo jeito, no se ofendeu, continuava a sorrir.

-- E voc?

-- Eu sou brasileira. Vim pra estudar ingls. Voc tambm t estudando aqui?

-- T. S que eu j acabei o curso de ingls e agora estou na universidade.

-- Nossa, que legal.

-- ,  muito bom. Voc tambm depois que acabar o curso pode prestar o TOEFL e entrar
na universidade.

-- , bem que eu gostaria... Como  o seu nome?

-- Saara.

-- Saara? Como o deserto? Que bonito.

-- E o seu?

-- Valria. A gente j est quase chegando no ponto de nibus, voc vai pra l?

-- No, eu vou at a biblioteca.

-- Voc quer que eu te acompanhe at l?

-- No precisa, agora  uma reta s. Obrigada. Voc vai pegar um nibus?

-- Vou, acho que eu vou at o Hurton Plaza, aquele shopping.

-- Hum, isso me lembra que eu preciso comprar umas roupas. Qualquer dia desses tambm
irei at l.

Tive vontade de convid-la para vir comigo. Mas fiquei sem jeito.

-- A gente se cruza por a, ento, tchau!

Peguei o nibus que j estava l parado. Me sentei  janela. Logo ele partiu em direo 
cidade. Pensei um pouco na Saara. Caramba, que fora de vontade que aquela guria devia
ter. Vir pra estudar num outro pas, morar sozinha, se virar sozinha, tudo isso sendo cega.
Fiquei imaginando por alguns

179
segundos como devia ser a vida de uma pessoa que no enxerga. Me lembrei do que ela
havia dito, que precisava comprar umas roupas. Como ser que uma pessoa cega compra
roupas?

O trajeto daquele nibus era bonito. Depois que deixava o cmpus, passava perto do Balboa
Park. Um parque enorme,' maravilhoso, cheio de plantas, flores e eventos culturais.

Como  que uma pessoa cega compra roupas? Olhei para as minhas. Eu estava com um
shorts jeans, ganho de presente, eu o adorava, o seu azul j estava clarinho de tanto usado e
lavado. Estava at desfiando. Mas l voc pode andar todo rasgado que ningum liga. Olhei
pra minha blusinha preta, justinha e de gola alta sem manga. Lembrei do dia que eu a
comprei. Entrei numa loja e a vi num canto. Achei bonitinha, experimentei, confortvel,
comprei. Parece simples, no ? Mas como uma pessoa cega faria isso?

Continuei olhando pela janela. Vi um pedao de mar. San Diego era realmente uma cidade
muito linda. De um lado, a praia, e l longe as montanhas. Se l nevasse, pensei, no final do
ano, quando chegasse o inverno, as montanhas estariam branquinhas. Ento eu no
precisaria ir to longe pra ver neve. Ser que eu teria tempo mesmo pra ver neve?

J sei. J sei como uma pessoa cega compra roupas: assim como uma pessoa com AIDS
pensa no futuro. No escuro. Bem, em todo caso, ela estava vestida. E eu? Iria ver neve no
final do ano!

Na sexta, quando estava na sala de TV assistindo a um filme, o Lucas aparece me
convidando pra subir uma montanha. A noite estava linda. Fomos de carro at a base.
Depois subimos por uma trilha a p. A lua cheia estava to clara que iluminava todo o
caminho. Fomos conversando e vimos dois coelhinhos. No demorou muito, chegamos ao
topo. Sentamos

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bem na encosta. Olhei pra baixo. Puxa, como era alto, me deu um gelo na barriga e minhas
pernas ficaram moles. O Lucas j fazia posio de ioga, pronto para meditar, acho que ele
estava bem inspirado aquele dia. Me ajeitei colocando a mo no cho, sentando um pouco
mais pra trs. Pedrinhas rolaram l pra baixo. Se algum casse dali, era morte na certa. Um
pequeno deslize e, num instante, bau-bau. Curioso isso, o que ser que determina esse
instante exato de cada um:

-- Voc acredita em Deus?

- Ahn?

-- Voc acredita em Deus? -- era o Lucas me fazendo uma pergunta.

-- s vezes -- respondi.

Ele fez uma cara de reprovao. Era uma daquelas pessoas que tm uma f inabalvel.
Muitas vezes eu o invejava nisso. Continuei, irnica:

-- Acho que Ele  um gordo, seminu, sentado l em cima, com as pernas cruzadas,
comendo pipoca, olhando aqui pra baixo e dando risada da cara da gente.

-- Minha nossa!

-- T s brincando -- eu disse. Mas, na verdade, no estava. Muitas vezes acho isso
mesmo. Noutras, nem sequer acredito que Ele existe. Acho que foi tudo uma inveno do
homem devido  sua fraqueza e incapacidade de admitir que  o nico responsvel por sua
prpria vida. E o nico a ocupar o espao, muitas vezes vazio, de si mesmo.

Noutras ainda, entretanto, d quase pra ter certeza que Ele existe. Como nessa noite,
sentada no alto de uma montanha sob o cu repleto de estrelas e a lua, de papel laminado.
Deitei para apreciar melhor aquele espetculo, mas logo me sentei novamente.

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-- O que foi? -- perguntou o Lucas. -- T to inquieta, por que no sossega?

-- Porque eu tenho medo de altura. E esse lugar  muito alto.

-- T melhor assim? -- ele disse segurando minha mo. -- No se preocupe que voc no
vai cair. Agora v se medita um pouco.

Ele continuou sentado e eu me deitei mais uma vez, pra apreciar o cu. Como aquilo tudo
brilhava! E como  bom tomar banho de lua. Tive a sensao de que se eu esticasse o brao
tocaria as estrelas com as pontas dos dedos.

-- Lucas?

-Hum?

-- O que voc acha que acontece com a gente depois que a gente morre?

-- No sei. Talvez existam outras vidas.

-- No vai me dizer que voc tem aquela viso esprita que o sujeito tem que ficar
nascendo de novo e de novo e de novo at pagar todos os seus pecados.

-- No. No tem nada a ver com pecado. Tem a ver com evoluo. Acredito em outras
formas de vida, em outros planetas talvez.

Outros planetas... At que era interessante esta idia. No que eu estivesse desprezando a
minha Terra. Mas seria bom mudar um pouco. E, de certo modo, fazia sentido. Por que o
universo, o Deus, ou sei l quem teria se dado ao trabalho de criar tantas galxias, tantos
planetas se s usasse o nosso? Talvez existisse naquele instante um outro ser, semelhante a
mim, sentado numa montanha num outro planeta, olhando o cu, inclusive a Terra, e
imaginando as mesmas coisas.

Depois de algumas horas divagando num longo silncio, resolvemos voltar, j estava
ficando muito tarde. Fomos

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descendo pelo mesmo caminho, s que agora escorregadio. Tnhamos que tomar o dobro do
cuidado, o que no foi problema depois de toda aquela energia de l de cima. Estvamos
acesssimos, conversando bastante. Mas, mesmo assim, no teve jeito. Num certo trecho
tomei um baita escorrego e o Lucas, que segurava a minha mo, foi junto. Camos os dois.

-- Fuckl -- s assim mesmo pra ele soltar um palavro. -- Voc est bem?

Tive um acesso de riso. Tombo pra mim  uma coisa muito engraada. O sujeito t l, todo
dono de si, fazendo uma coisa que aprendeu h tempos: andar. Mas, de repente, no tem
jeito, perde a pose e tim, se esborracha no cho. Parece at que voltou a ser criana.

-- Pra de rir, t louca? -- mas eu no conseguia parar e no final ele acabou pegando no
embalo.

-- , a gente t achando engraado, mas podia ter quebrado uma perna -- ele disse,
levantando e se livrando da poeira.

Eu continuei a rir, acho que estava com o riso solto aquele dia. At o final da descida
demos mais umas deslizadas, por pouco no camos outra vez. E no fim chegamos 
concluso de que, se quisssemos continuar com aquelas andanas, teramos que comprar
sapatos adequados.

No dia seguinte fomos a uma loja especializada em tnis pra trilha. Demos uma olhada. Ele
pegou um dizendo que aquele era o melhor.

-- Deixa eu ver -- era uma espcie de tnis de cano alto, de couro macio, marrom, todo
forrado por dentro, bonito. Olhei o preo, cem dlares. -- Carinho, hem?

-- , mas essa  a melhor marca que existe. Dura a vida inteira.

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-- Ah, ? -- e pra que eu iria precisar de uma bota que durasse mais do que eu? -- No, eu
no quero -- larguei ele l e fui olhar outras coisas. Ele veio atrs:

-- E vai querer tomar outro tombo?

-- At que iria ser bem engraado...

-- Se for por causa da grana eu te dou de presente.

-- No  nada disso, que coisa!

-- Ento volta l e experimenta pelo menos.

Ele pediu uma pro vendedor. Experimentei contrariada.

-- A, no sei nem amarrar esse negcio.

-- D aqui, Cinderela -- ele zoou --, pronto,  assim. Agora anda um pouco e me diz, no
 muito melhor?

Detesto admitir, mas realmente era uma maravilha. Supermacia e deixava o tornozelo bem
firme.

-- Inclusive - ele disse -- esse tipo de bota  bom contra picada de cobra.

-- Voc nunca me disse que naquele lugar tinha cobra.

-- E voc achou o qu, que tivesse s coelhinho no meio do mato?

Ele pediu uma do nmero dele e, enquanto experimentava, eu fiquei pensando: na semana
seguinte sairiam os resultados do meu exame de rim. Se desse alguma coisa sria, no
haveria outro jeito: eu teria que voltar s pressas pro Brasil, talvez nem chegasse a usar
aquela bota.

-- Pronto, perfeito -- ele disse. -- Vamos levar?

--  que...

-- Ih, no vai comear de novo.

-- T, t bom, eu levo essa droga. Mas tambm tem uma condio, eu quero estrear
amanh!

-- Tudo bem, no sei por que a pressa, mas a gente faz outra trilha amanh cedo.

184
Fomos ao Cuyamaca Park fazer uma trilha longa. Garrafa cheia dgua, alguma comida na
mochila e mapas. Seguimos por entre as rvores. O cheiro de mato era muito bom. Fomos
conversando, cruzamos com pouqussimas pessoas, trs andarilhos, dois caras de mountam
bike e um grupo a cavalo. Bichos? Nenhum. Mas at que foi bom, pois placas indicavam
que naquela regio podia ter lees de montanha. Diziam tambm que eles costumavam ser
inofensivos. Mas essa histria de dar de cara com um leo no meio do mato me pareceu
aventura demais pro meu gosto.

Depois de umas duas horas, sugeri que parssemos um pouco. Descansamos bastante.
Aproveitei pra tirar fotografia duma imensa rvore velha com um grande buraco no tronco
totalmente oco. Ela me fez lembrar de um homcle com quem eu havia cruzado certa noite
a caminho de um bar. Um crioulo grande, que enquanto passvamos na calada se ps ao
lado de uma pequena rvore, de galhos j secos, comeou a berrar: "Thut tree u mine! Thu
tree u mine!Mine!". E batia a mo no peito, orgulhoso de sua arvorezinha. A princpio,
achei que ele fosse louco ou estivesse bbado. No tinha um lar, roupas decentes, um tosto
sequer no bolso, s tinha aquela arvorezinha e estava to feliz. Mas, pensando melhor,
loucos e bbados somos ns que temos tantas coisas e muitas vezes no conseguimos ser
felizes com nada. Todo ser humano deveria ter uma arvorezinha pra amar. Eu tinha umas,
mas elas estavam muito longe, eu as havia deixado l no Brasil.

Recomeamos a andar, dessa vez subindo um pedao de um morro e, quando alcanamos a
parte mais alta, a vista l embaixo se mostrou lindamente. Um tapete verde em alto relevo.
Tirei mais fotos. O Lucas se enfiou no meio de uns emaranhados de galhos secos pra ver a
vista do outro lado.

-- Daqui  mais lindo ainda, venha ver.

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Entrei l no meio pra apreciar a paisagem. Milhes de pinheiros enfileirados, o cu azul e
algumas nuvens passando. Que sossego, dava vontade de nunca mais sair dali. Maldita hora
que os homens inventaram as cidades. Decididamente eu preferia ser uma ndia e viver nua
no meio do mato. Na hora de sair dali, entretanto, machuquei a perna num galho.

-- Ai que merda! -- lamentei, me sentando num tronco para ver o que havia acontecido.

-- Machucou? -- perguntou o Lucas. -- Deixa eu ver -- e veio com as mos prontas para
me examinar, quando berrei:

-- No encosta no meu sangue!

-- Credo, Valria, eu no tenho nenhuma doena contagiosa, no -- se virou e saiu
andando ofendido.

-- E voc sabe se eu tenho? -- perguntei, mas ele no ouviu.

Voltou logo em seguida com uns pedaos de lenos de papel que tinha pego na mochila.

-- Toma, limpa com isso. Passa um pouco de saliva que, na falta de outra coisa, ajuda. Eu
devia ter trazido uma caixinha de primeiros socorros. Isso. J est limpo, agora sobe a meia
pra no ficar exposto. D pra andar?

-- Lgico, s foi um arranho.

-- Ento, vamos.

Ele pegou a mochila e foi andando na frente. Estava puto da vida. Tambm eu no tinha
nada que ter berrado daquele jeito. Ainda que ele encostasse a mo no meu sangue, desde
que ele no tivesse nenhum ferimento, no haveria problema algum. Mas sempre entro em
pnico quando me corto perto de algum. Apressei o passo para alcan-lo.

-- Lucas, pera, desculpe.

-- Tudo bem, j passou.

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Passou uma ova. Demorou vrios minutos at que voltasse a falar direito comigo. Mas
depois esqueceu de vez e fomos conversando todo o caminho de volta.

Quando chegamos no carro j eram umas trs horas da tarde, e antes que voltssemos pra
casa paramos pra almoar num restaurante rstico, em Juhan, uma cidadezinha estilo velho-
oeste. De sobremesa, comemos torta de ma com sorvete de baunilha, bem tpico da
regio. Estvamos conversando sobre nossas trilhas e lembrando os belos lugares quando,
sem mais nem menos, ele pra e diz num tom meio srio:

-- Posso te perguntar uma coisa? -- Odeio quando algum pergunta isso pra mim. Por que
no faz a pergunta logo de cara? L vem bomba.

-- Pergunta, oras.

-- H algum tempo que estou pra te perguntar... mas... -- pronto, comeou a enrolar. --
... aquele dia que a gente subiu aquela montanha e... e ficou sentado l em cima, de mos
dadas...

-- Sei, e da?

--  que... bem, por alguns minutos eu pensei que...

-- Pensou o qu?

-- Pensei... -- ele largou a colher e ajeitou o bon. --  que eu no queria que voc
pensasse que... voc sabe, eu no posso me envolver com voc.

-- Se envolver comigo? -- No comeo no entendi direito. De que diabos ele estava
falando? Mas depois me liguei e comecei a rir. -- Ah, Lucas, isso nem passou pela minha
cabea.

Ele fez uma cara de quem no gostou muito. Acho que nenhum homem gosta de ouvir isso.
Deve ferir o orgulho de macho deles (ainda que suo). Expliquei:

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-- No h nada de errado com voc, no. Mas a ltima coisa que eu ia querer agora, na
minha vida, era me "envolver" com algum -- ele me olhou como se eu fosse um enigma.
E antes que fizesse mais perguntas, completei: -- Escuta. Voc no me disse que estava de
casamento marcado? No deveria estar pensando nessas coisas.

-- Eu sei, mas  que ns temos andado to juntos que...

-- Se voc preferir, ns no samos mais.

-- No, no  isso. Eu s queria que as coisas ficassem claras entre ns.

-- Ento pode ficar sossegado, elas esto claras. Sabe, eu gosto muito de voc, gosto dos
passeios que a gente faz e acho que j fazia tempo que eu no conversava tanto com
algum. Mas no aconteceu nada naquela montanha e nem vai acontecer nunca.

-- Se algum dia acontecesse, voc me falaria?

-- Se voc preferir assim, falaria.

Voltamos pra casa num enorme silncio. Ele devia estar pensando no que eu estava
pensando. E eu pensando no que ele estava pensando que eu estava pensando. Ah, os
humanos... Se fssemos cachorros no perderamos tanto tempo com isso.

Na outra semana, voltei  mdica especialista. Meus exames de ultra-som e urina no
tinham apresentado nada de anormal. Mas, em todo caso, ela sugeriu que eu os repetisse
dentro de trs meses. Perguntei ento se eu poderia ficar l nos EUA mais algum tempo.

-- Vamos primeiro checar seus CD4, est bem?

-- T. Mas se eles tiverem subido pra uns quatrocentos, eu posso ficar aqui at o final do
ano, sem me preocupar em tomar remdio?



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-- Valria, os CD-4 de uma pessoa no sobem assim do nada de uma hora pra outra.

Isso  o que vamos ver, pensei. Se aquela era a condio pra eu poder ficar l mais uns dois
ou trs meses, eles teriam de subir na marra! Voltei para o cmpus pensando friamente
naquilo. "Os CD4 so meus, no so? Esto dentro do meu corpo. Por que  que no posso,
ento, control-los? Os homens se julgam to sbios, a cincia to avanada, j pisamos at
na Lua, e no somos capazes de multiplicar umas celulinhas dentro de ns com o prprio
crebro. Se eu fosse Deus... Bem, deixe isso pra l. S sei que eu vou ficar aqui at o fim do
ano, nem que seja a ltima coisa que eu faa nesse mundo."

Comentei com o Lucas que eu estava pensando em ficar em San Diego mesmo depois que o
curso terminasse, mas no sabia onde morar. J estava de saco cheio do dormitrio, Ele
sugeriu, ento, que eu morasse numa casa de famlia. O Lucas se lembrou ento que a
Helen, nossa professora de redao, estava alugando um quarto. Marcamos um jantar para
conversar em sua casa. Ela era uma mulher extremamente bonita. Tinha os cabelos
cacheados, castanhos num tom de cenoura, a pele branca e lisa como seda, os olhos verdes
e um sorriso perfeito. Usava sempre culos de grau, cuja armao retangular era da cor do
seu cabelo. Tinha 38 anos, era uma pessoa calma e passava uma enorme segurana. Ela
tambm adorava fazer trilhas e meditar. Conversamos sobre a hiptese de eu ir morar l e,
depois do jantar, ela pegou um tar} pra ler pra gente. Foi uma noite gostosa e descontrada
e eu achei que iria gostar de morar naquela casa.

Num dia  tarde, voltando da aula, passei pelo quarto da Alrica. Ela estava conversando
com uma amiga de escola,

189
uma cubana, que tambm morava l havia alguns anos. Comeamos a falar da Jamaica e de
quo bonitas eram suas praias. Eu disse que, infelizmente, ainda no conhecia, alis, nem
tinha visto muitas fotos. S me lembrava de um certo cartaz que vi numa agncia de
turismo, de uma garota morena, de cabelos compridos, saindo molhada de uma praia com
uma camiseta escrito Jamaica.

-- Ah, eu tambm j vi esse cartaz. S que a garota no  morena, ela  negra.

-- Ah ? Engraado, me pareceu que ela era branca, assim morena que nem eu.

A amiga dela, cubana, que tinha a pele clara e os cabelos castanhos, olhou pra mim e disse:

-- Mas voc no  branca. Assim como eu tambm no sou.

-- Voc tem alguma ascendncia negra na famlia? -- perguntei. -- Porque eu, at onde
sei, no tenho nenhuma.

-- No, tambm no tenho. Mas mesmo assim no sou branca. Eu odeio os brancos!

Fiquei um pouco incomodada. No estava entendendo por onde aquele papo ia. A Alrica
continuou calada. Prossegui:

-- Bem, eu desde que me conheo por gente sou considerada branca, tive, sim, uma
tatarav ndia, mas infelizmente no cheguei a conhec-la.

-- A gente no est falando de gente como voc. Estamos falando daqueles brancos, loiros
de olhos claros, como os americanos. A gente odeia eles! -- reafirmou a menina.

-- Engraado, meu av, pai de minha me, tem olhos claros. Eu tenho tias loiras de olhos
claros. Eu poderia ter nascido loira de olhos claros. Eu sou branca -- eu disse num tom
irnico, quase que me desculpando. Olhei pra Alrica e perguntei. -- Voc tambm odeia
todas as pessoas brancas?

Ela simplesmente desviou o olhar. Eu insisti:

190
- Odeia?

Sem olhar nos meus olhos, respondeu:

-- Eles no gostam da gente.

-- Eles quem, Alrica?

-- Os brancos, Val. Eles no gostam da gente.

Fiquei indignada.

-- Eu sou branca, Alrica! Voc tem certeza que odeia todas as pessoas brancas?!

Ela baixou a cabea e no respondeu. Tambm pudera,  s parar e olhar um pouco pra trs
na Histria e lembrar de tudo o que fizeram com os negros. Uma das maiores vergonhas da
humanidade. Ser que algum nem sequer imaginou que quinhentos anos depois isso ainda
iria refletir assim, em duas garotas que no tinham nada a ver com o assunto e moravam
lado a lado numa universidade? Se pudssemos apagar o passado. S consegui dizer:

-- Pra mim, Alrica, a gente era amiga de verdade. -- Me levantei e sa do quarto.

No esperei que ela viesse atrs de mim. E de fato no veio. S alguns dias mais tarde,
enquanto eu estudava em meu quarto com a porta semi-aberta, ela foi entrando sem pedir
licena, se sentou na minha cama e comeou a me contar as ltimas novidades, toda
animada. Talvez esse tenha sido o jeito dela me dizer que as coisas estavam bem. E que,
sim, ns ainda ramos amigas. Tambm nunca mais toquei no assunto. Um problema
assim, de tantos anos, no poderia ser resolvido em apenas uma conversa. Esquecer?
Difcil. Mas felizes daqueles que conseguem passar por cima.

Umas semanas depois notei que a Alrica estava namorando um cara branco. Para ser mais
exata, americano, ruivo de olhos verdes. Lembro que um dia fui at seu quarto pedir ajuda
numa lio e acabei perguntando:

191
-- T namorando, n guria?

-- Ah, Val, ele  to legal. Acho que eu estou amando! - ela disse com aquele sorriso
bonito.

E eu, como no podia deixar de ser pentelha:

-- Jia' Mas v se se cuida, hein? To usando camisinha?

-- No, a gente ainda no transou.

-- Ah, Alrica, t pensando que eu sou idiota? Faz dias que esse cara no sai daqui de
dentro. At j dormiu aqui, vai me dizer que vocs no fizeram nada.

-- Ih, a gente j fez muita coisa boa! -- e pela cara dela deviam ser mesmo muito boas. --
S que transar, de penetrao, ainda no.

-- Ah, t sabendo...

As campanhas da Califrnia diziam: "Vocno precisa ter penetrao para ter uma
relao sexual. Existem vrias maneiras de demonstrar carinho e afeto a quem voc ama.
Como toques, carcias, abraos, massagem, masturbao a dois (desde que no haja cortes
nas mos), tomar banho junto, dar uns amassos, fazer sexo oral de magipak, aquele filtro
fininho de plstico etc. etc. etc." Algumas at que iam mais longe: "O maior rgo sexual
humano continua a sero crebro'.

Enfim, era o tal do sexo seguro, ltima moda entre os jovens de l. E j estava mais do que
na hora dessa moda pegar aqui tambm.

No sbado, o Lucas passou pra me pegar pra irmos a uma cerimnia indgena para a qual a
Helen nos havia convidado. O local ns j conhecamos. Um descampado enorme, um
pouco seco, com alguns montes. Mas ele foi todo o caminho dizendo que naquele dia
haveria algo de especial, estava esperando muito daquela cerimnia, que seria uma bno
dada ao local por ter pertencido ao povo indgena e agora estar se tornando uma reserva.

192
Assim que chegamos avistei Helen, fomos falar com ela. Conheci o Thomas, seu filho
loirinho que foi jogar bola com o Lucas. Sentei-me ao lado dela, que estava tomando conta
de uma mesa cuja organizao do parque havia montado para vender camisetas e arrecadar
fundos. No havia muitas pessoas por ali.

-- No ser uma cerimnia muito grande, no  mesmo?

-- No, coisa simples. Eu j avisei ao Lucas, mas ele insiste em esperar grandes revelaes
pra hoje -- ns rimos. -- Ah, voltando quele assunto de voc morar l em casa, j arranjei
tudo, agora s depende de voc -- ela disse simpaticamente.

Olhei ao redor, ningum por perto. Pensei: seja o que Deus quiser. Na pior das hipteses,
receberia um no, mas agora j terminara o curso, se eu tivesse que partir, pacincia.

--  que antes de eu mudar pra sua casa, voc precisa saber de uma coisa... -- respirei
fundo. -- Eu sou HIV positivo.

Ela me olhou meio espantada. Por um instante, achei que tinha estragado tudo. Ento ela
me disse sorrindo:

-- E da? O que  que tem isso?

-- Bem, achei que voc tinha que saber, pra eu morar com voc.

-- No vejo o que uma coisa tem a ver com a outra. Mas  claro que voc pode vir morar
comigo.

Pensando bem, no tinha nada a ver mesmo.

-- Achei melhor falar, porque nem todo mundo pensa assim -- expliquei.

-- O preconceito, no  mesmo?  uma pena. Mas pode ficar sossegada que eu no sou
assim.

-- Que bom.

-- Faz pouco tempo? -- ela perguntou um pouco depois.

-- Seis anos.

193
-- E sua sade?

-- T bem. Acabei de fazer exame de imunidade. O resultado sai daqui a uns vinte dias.

-- Deve ser uma barra, n? E o Lucas, sabe?

-- No. Mas a gente no t namorando.

-- Eu sei. Mas ele  seu melhor amigo, no ? Olhei pra ele jogando bola, distante dali.

-- . J pensei em contar vrias vezes, mas d sempre um medo. Estava esperando acabar
o curso, pra no ter problema na universidade.

-- Entendo.

-- Talvez eu conte hoje.

-- Acho que faria bem pra voc. Deve ser muito difcil guardar uma coisa dessas.

-- , no  fcil, no. Algumas pessoas se aproximaram. O Lucas e o Thomas tambm.
Logo em seguida comeou a cerimnia: um nico ndio e o seu falco, pousado no ombro,
andando em crculos e pronunciando umas palavras que nenhum de ns entendia. Achei
triste. Como  que pode uma cultura to rica e de tantos anos acabar assim, esquecida?

O Lucas ficou decepcionadssimo. Logo que terminou sugeriu que fssemos andar. Nos
despedimos da Helen e subimos at o alto de um morro para assistir ao pr-do-sol.
Sentamos de frente para o horizonte. A vista era linda.

-- Lucas? Eu preciso te falar uma coisa.

- Diga...

Olhei pra ele por alguns instantes e tentei colocar na minha cabea que, acontecesse o que
acontecesse, no estragaria tudo de bom que fora at ali. Mas fiquei aflita e comecei a me
desculpar:

-- Olha, talvez voc no goste do que vai ouvir, talvez fique bravo por eu no ter contado
antes, talvez no queira mais

194
olhar na minha cara... Tudo bem, qualquer reao que voc tiver, tudo bem...

Ele passou a mo no meu cabelo:

-- Ei, calma. Eu vou entender -- e fez uma cara como se j soubesse o que eu iria dizer.
Mas eu sabia, qualquer coisa que ele imaginasse no era o que iria ouvir agora.

-- Voc sabe o que  HIV?

-- Sei -- ele disse, mas com um jeito de quem no estava entendendo o que aquilo tinha a
ver com a gente.

-- Pois , eu tenho HIV, eu tenho o vrus da AIDS.

Ele ficou em silncio, parado, me olhando. Eu queria alguma reao. Que berrasse, gritasse,
me xingasse... Mas no, ficou esttico, aptico, s me olhando. At que, lentamente, virou a
face de novo pro horizonte e olhou pro infinito por alguns instantes. Depois fechou os olhos
e baixou a cabea. Pude ver uma lgrima escorrendo pelo seu rosto.

Fiquei desesperada.

-- Calma, Lucas, tambm no  to ruim assim. Eu nem t morrendo ainda... quer dizer,
talvez esteja, mas no foi voc mesmo que me ensinou que a gente tinha que prestar
ateno na vida, enquanto ela estivesse viva?

Ele tentava sorrir, mas balanava a cabea inconformado. Por fim me abraou. Mas me
abraou to forte que chegou a me incomodar. Quando me largou eu disse:

-- Ei, eu estou aqui ainda, viu? Ele ficou mais aliviado:

-- S agora eu te entendo. s vezes eu ficava te olhando e no te entendia direito. Te
achava diferente... Meu Deus... Como foi que aconteceu?

Contei tudo a ele, que ficou com o olhar perdido, triste. O sol j havia se posto, dando ao
horizonte um tom cor-de-rosa e ao cu azul um toque melanclico. E eu tinha feito um
amigo

195
chorar. "Essa  a parte injusta da AIDS", pensei. "As pessoas me fazem feliz e eu as fao
chorar."

Demorou um tempo at que o Lucas se acostumasse com aquela histria. Nos primeiros
dias, no houve jeito de aquela melancolia passar. Mas depois ele acabou entendendo que
melhor seria aproveitar os dias e continuar fazendo as coisas que a gente mais gostava.
"Vamos brincar de carpe diem eu dizia. "Lembra do arcadismo, das poesias arcdicas que
exaltavam a vida no campo. E do movimento carpe diem que pregava que os homens
deveriam aproveitar cada dia como se fosse o nico e ser feliz agora?". E foi isso que
fizemos.

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12. minha terra tem hortnsias...
Na outra semana ocorreu a cerimnia de encerramento do curso. Mas, como nesse estgio
eu s havia feito as aulas mais tcnicas da manh, no pegaria o diploma, j havia pego um
certificado. Mesmo assim fui at l pra prestigiar e despedir dos amigos que estavam de
partida. S que, quando estou distrada conversando com um pessoal, ouo o meu nome
pelo microfone. Levei um susto. Olho pra mesa e l est o professor Tim com um canudo
na mo. Ele fez sinal com a cabea para que eu me aproximasse. Cheguei perto e disse:

-- J peguei o certificado.

-- Eu sei -- ele respondeu --, mas fiz questo de te dar esse diploma em mos. Parabns!

Nunca entendi por que ele fez aquilo. Talvez porque, no fundo, soubesse que pra mim
aquele simples curso tinha tido um valor especial. E esse pode ser o lado bom da AIDS,
pensei, fazer com que eu saia do lugar-comum e consiga ver as coisas por um prisma
diferente.

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Me despedi tambm do pessoal do dormitrio. A Alrica me deu um disco de reggae da
banda de sua me e eu lhe deixei uma carta dizendo que havia aprendido muita coisa com
ela e que sua voz era uma bno, que ela nunca deixasse de cantar.

Levei tambm um carto pro doctor Gust, agradecendo tudo que ele fizera por mim. Contei
a ele que tinha conseguido acabar o curso e ele ficou muito feliz. Perguntou como havia
sido com a especialista e eu disse que tudo bem, no tinham achado nada no meu rim.

-- E ela  legal? -- ele perguntou.

-- D pro gasto. Mas legal, legal mesmo aqui s tem voc.

-- Que  isso, Va..

-- Verdade, doctor. Voc  especial. Se eu pudesse, te levava pro Brasil.

-- Ah, menina... V se se cuida, hein?

-- T, vou me cuidar.

-- E no se esquea de continuar sorrindo sempre.

-- T, vou me lembrar disso tambm.

Me mudei pra casa da Helen. No comeo, tive um pouco de vergonha, me sentindo uma
intrusa. Vergonha de abrir a geladeira quando tinha fome, vergonha de ligar a TV quando
quisesse, mas depois acabei me acostumando, alm do que ela me deixava bem  vontade.

Me matriculei tambm numa academia de ginstica. Agora que eu estava com todo o dia
livre, seria bom poder fazer exerccios mais regularmente. Continuei estudando ingls por
minha conta. No sabia ao certo o que iria fazer dali pra frente. Antes de resolver qualquer
coisa, precisava saber do resultado dos CD4.

As tardes, geralmente, eu saa com o Lucas. Aproveitamos bem aqueles dias. Conhecemos
o Zo de San Diego, considerado

198
um dos melhores do mundo, fomos a outros parques, praias, cinemas, shows, restaurantes,
museus. Tudo uma maravilha!

Certo dia, voltando desses passeios, paramos em casa. Comemos alguma coisa e depois nos
sentamos  mesa para olhar um novo tar que a Helen havia comprado. Diferente dos
outros que eu conhecia, suas figuras eram lindssimas, pareciam verdadeiras obras de arte.
O tar de Aleister Crowler, "o espelho da alma". A gente continuava com aquela
brincadeira de ler cartas de vez em vez e, quando juntvamos ns trs, amos at tarde rindo
e jogando conversa fora. Mas nessa tarde a Helen no estava, o Lucas pediu ento que eu
lesse uma vez pra ele. No que eu soubesse, mas tnhamos um livro que explicava o
significado de cada carta. Por sinal, era um timo exerccio de ingls, o vocabulrio no era
nada fcil. Ficamos lendo e conversando at que, meio do nada, falei:

-- Sabe, Lucas, vou sentir muito a sua falta quando voc for embora.  uma pena que a
gente seja de lugares to diferentes. Se eu pudesse, ia querer ficar pra sempre perto de voc.

Pra qu? Na hora ele no falou nada, at fez uma cara de ",  mesmo". Mas, no dia
seguinte, chegou l em casa feito louco, todo nervoso, dizendo que precisvamos conversar,
que aquela situao no poderia ficar daquele jeito, que no era certo a gente se ver todo
dia, toda hora. Me irritei:

-- Ento no aparece mais aqui, oras!

-- No  isso, voc no entende.

-- No entendo mesmo. Se a gente  amigo, qual o problema de sair junto?

-- Ser que a gente  s amigo mesmo? Eu j no consigo ficar um dia sem te ver. No
domingo, no cinema, a gente ficou o tempo todo de mos dadas!

199
-- Ah, que problemo, hein? No seu pas os amigos no pegam na mo, ?

-- No  isso...

-- Voc est achando o qu, Lucas? Vamos falar ingls claro: que a gente vai acabar tendo
um caso,  isso? Pois se for esse o problema, eu j te falei que no vou ter caso nenhum
com voc!

-- Eu tambm no.

-- Ento, pronto, pra que esse estardalhao?

-- Voc disse, outro dia, que gostava de mim...

-- Ah, ento no era pra gostar? Voc  meu melhor amigo e eu no posso gostar de voc?
Devo gostar de quem, ento? De algum inimigo?

-- O problema no  gostar,  o jeito de gostar.

-- O problema agora  o jeito. O jeito! -- eu j estava berrando.

--  isso, eu no sei mais de que jeito a gente est se gostando.

-- Que man jeito? No existe essa de jeito. As pessoas se gostam e pronto!

-- Meu Deus, existe uma diferena!

- Que diferena, droga!

-- Eu no acredito que voc no entenda...

-- No entendo mesmo! No comeo voc vivia dizendo que pras pessoas serem amigas de
verdade, e olha que isso hoje em dia  raro, elas tinham que se entregar, confiar, gostar
mesmo umas das outras. E agora que a gente chegou nesse nvel voc quer o qu? Voltar
pra trs? Ento tudo bem, daqui pra frente a gente vai ser amigo de bom-dia, boa-tarde,
certo?

-- Valria...

-- E j falei que meu nome no  Valria. Se no sabe falar direito, no me chama. E quer
saber do que mais? -- fui at a entrada da casa e abri a porta. -- Sai daqui!

200
Ele me olhou arrasado (no sei por qu, foi ele mesmo que arrumou a confuso toda) e saiu.
E eu ainda bati a porta com toda fora. Que bosta! Por que  que as pessoas tm que
complicar tudo?

Algumas horas mais tarde chegou a Helen. Me perguntou que cara era aquela e onde estava
o Lucas. Contei tudo.

-- , eu j vinha percebendo. Vocs esto numa situao complicada. Mas, afinal, voc
gosta dele de que jeito?

-- L vem voc tambm com essa histria de jeito. Gostando, oras. Gosto de conversar
com ele, gosto de subir montanhas, gosto de ficar perto dele.

-- S isso?

- Voc acha s? Eu pensei que gostar de algum assim j fosse uma grande coisa.

-- Mas existe uma grande diferena.

-- Que diferena, Helen?

-- O sexo.

-- Ah, grande merda!

-- Valria, sexo no  uma merda.

- Pra mim, . Quer dizer... sei l. Acho que eu esperava outra coisa. No um um "meu
Deus, vamos ver estrelas no cu!". Eu s achava que, no mnimo, voc devia se sentir
perto, bem perto da pessoa com quem voc estivesse transando. Mas no foi nada disso que
aconteceu, muito pelo contrrio, eu me senti extremamente sozinha. E sentir-se sozinha
quando se est sozinha  ruim. Mas sentir-se sozinha quando se est com algum 
infinitamente pior.

-- S que isso aconteceu no passado. No significa que vai acontecer sempre. Talvez um
dia voc ache algum que te faa sentir de um outro jeito. E se essa pessoa for o Lucas?

201
-- Sinceramente? No acho. Tem muita confuso. Eu tenho AIDS...

-- Camisinha existe pra qu?

-- No  s isso, ele  praticamente casado, a gente mora a milhes de quilmetros de
distncia e... e tambm nem sei se estaria preparada. J fiz essa besteira de transar sem
pensar direito e aprendi que as conseqncias podem ser catastrficas. E olha que eu no
estou falando s de AIDS e DST, no. Estou falando de uma coisa chamada sentimento.
Talvez um dia eu at mude de idia. Mas, por enquanto, as coisas vo ficar do jeito que
esto.

A conversa parou por a. E caso voc esteja pensando agora "Oh, ela renunciou aos
prazeres da carne!", pode ir parando que no  nada disso.  s que eu sempre achei que
uma relao sexual deveria ter um motivo especial. Afinal, orgasmo s por orgasmo, eu
fao muito bem sozinha. Alis, antes de continuar essa histria, deixe-me contar uma
coisinha.

Quando eu tinha uns quatro ou cinco anos, comecei a fazer uma coisa. Ningum havia me
ensinado no. Nem sei como eu tinha descoberto. S fazia e pronto. Era o meu segredo.
No tinha hora certa pra acontecer. Qualquer hora era hora. Era s estar assim, meio de
bobeira. Cruzava as pernas e apertava bem forte. To forte, to forte, at que de repente eu
alcanava uma luz. E essa luz passava por todo meu corpo. Era to intensa que me fazia
tremer. E quando acabava, eu ficava cansada, mas feliz.

 lgico que eu nem desconfiava do que se tratava. S sabia que era bom. Muito bom. Era
mgico. Era isso! -- aquilo era a chave pra quando eu crescesse eu virar a Jeany  um
gnio.

Alguns adultos, entretanto, comearam a me dar bronca: "Pra de fazer isso menina. Que
coisa mais feia!". No entendia

202
por que era feio. Ser que eles no enxergavam a luz? Ou no conseguiam ver sua beleza?
Certa vez, minha me chegou a dizer que "aquilo" era nojento. E o meu pai, quando minha
irmzinha perguntou o que eu fazia, muito atrapalhado, explicou: " como a Tiquinha faz
quando brinca com as almofadas". Tiquinha era a nossa cachorra. Legal, agora eu era igual
a um cachorro. Chamei a vira-latinha para um papo cabea: "E a, Tiquinha, o que  isso
que a gente faz?". A cadelinha no respondeu e eu continuei sem saber. O jeito, ento, foi
parar de fazer. Na frente dos outros,  claro.

L pelos doze anos quase descobri. Estava brincando na casa de uma amiga, quando umas
gurias mais velhas soltaram a palavra masturbao. "O que  isso?", perguntei  minha
amiga, que tambm no sabia. Corremos ento para o dicionrio. Ma ma, mas,
masturbao: "ato de frico". "Ah? Voc entendeu? No? Nem eu, deixa pra l, bora
brincar."

com catorze anos, numa feira de cincias, levamos nosso coelho Pafncio, lindo, enorme,
fofo, todo branco de nariz cor-de-rosa pra ficar algumas horas exposto. Mas no  que
colocaram sua gaiola bem vizinha  gaiola de uma senhorita coelha? Pronto, o bicho ficou
doido. E a garotada em alvoroo. Os guris gritavam: "Vai l, Pafncio, bate uma, mostra
que tu  macho que nem a gente, se masturba a, mano velho".

Foi a que me liguei, se masturbar, "bater uma". Era quilo que o Pafncio, a Tiquinha, eu e
pelo jeito o colgio inteiro fazia. Mas por que ser que os meninos podiam e at se
vangloriavam, enquanto ns, meninas, levvamos bronca? Ser que mulher no podia fazer
aquilo? Ser que eu era doente?

Pra complicar as coisas, durante toda a adolescncia, nenhuma amiga tocou naquele
assunto. Tabu entre garotas. E eu, pobrezinha, continuei a achar que era meio pinu. S fui
me dar conta da normalidade da situao quando comecei a

203
fazer terapia. "Mas isso  a coisa mais normal do mundo", a dra. Sylvia me explicou um
dia.

Gente, sejamos coerentes, masturbao  natural,  bom e  segura. Deixemos nossas
crianas e adolescentes se masturbarem  vontade (ainda que seja escondido no quarto).

E que todos ns encontremos a luz!

Voltando  histria...

No dia seguinte quela discusso, tnhamos um concerto marcado. Estava to puta que
pensei em no ir. Mas imagine s se eu deixaria de ir a um concerto, ainda mais de violino,
que eu adoro, s por causa do Lucas.

A Helen ficou de me encontrar s oito. Coloquei uma blusa preta fina, um sapato, uma
cala jeans, o cabelo lisinho arrumadinho, um batom e est timo. timo? H! h! h!
como  que eu nem lembrei que as pessoas costumavam ir a concertos de plumas e paets?
No comeo, quando cheguei ao teatro e vi aquilo, quis fazer um buraco e entrar dentro.
Mas, pensando bem, concerto  pra gente ouvir msica ou  pra peruada desfilar seus falsos
brilhos? Empinei o nariz e sa andando. E o mais cmico de tudo  que, certamente, eu
estava chamando muito mais ateno ali do que qualquer uma daquelas velhas "rvores de
Natal".

Ainda bem que a Helen tambm estava mais normal. O Lucas? Nem reparei. S olhei pra
cara dele e disse um formal: "Boa noite, como vai?" Puxa, s vezes eu sou to infantil que
at di. Na hora de nos sentarmos, a engraadinha da Helen entrou primeiro na fileira,
fazendo com que eu fosse obrigada a me sentar bem ao lado dele. Mas nem por isso perdi a
pose. Continuei tratando-o como se fosse um mero conhecido.

O concerto foi maravilhoso. A j palia e os outros msicos tocavam lindamente. O som dos
violinos enchendo todo o

204
ambiente e nossas almas. Ah, as Quatro estaes de Vivaldi. Deus devia estar muito
inspirado quando inventou a msica. Quando inventou qualquer forma de arte, o teatro, a
pintura, a literatura. Muito mais inspirado do que quando inventou o amor.

O Lucas deve ter sentido a burrada que havia feito, pois no dia seguinte ao concerto me
ligou pedindo desculpas, dizendo que as coisas no precisavam ser daquele jeito. Ns at
samos mais algumas vezes juntos. Subimos mais montanhas, conversamos em outros
bares, mas nunca mais foi a mesma coisa.

Um pouco antes do Natal, ele foi l em casa. Estava indo viajar por duas semanas. Me
levou um presente e se despediu dizendo que voltaria pra me ver depois do Ano-Novo. Mas
eu sabia que aquela seria a ltima vez que nos veramos.

Em meados de novembro ficou pronto o resultado do meu CD4 e tinham subido para 450.
Milagre? Diferena de laboratrio? Coincidncia? No sei. S o que me importava era que
eu poderia ficar at o final do ano. com isso, entretanto, surgiu um novo problema. Fazer o
qu?

O curso de ingls eu j havia terminado, o prximo passo seria a universidade. Vestibular l
no existe, eu s teria que prestar TOEFL, um exame de ingls pra quem  estrangeiro.
Mas, mesmo se passasse, ainda tinha aquele velho problema: o tempo. Eu j estava com
AIDS havia sete anos, sete anos! No existia registros de gente que tinha ido muito alm
disso. No mximo uns onze, estourando doze anos. Mais uma vez dificilmente conseguiria
terminar uma faculdade e, ainda que terminasse, no daria tempo de exercer droga de
profisso nenhuma. Em todo caso, a Helen insistiu que eu prestasse o exame e eu acabei me
inscrevendo.

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Nesse tempo, tambm surgiram outras questes. O dinheiro que eu tinha guardado no
daria pra mais muito tempo. Pensei em procurar outro emprego, cheguei at a fazer ficha
em alguns lugares, mas o problema agora era que o meu visto era de turista e trabalhar seria
ilegal. E eu nem estava a fim de viver ilegalmente. Se voltasse pro Brasil, o que eu faria por
l? No queria mais trabalhar pro meu pai, no sei se teria pique de retomar o teatro.
Poderia, talvez, arrumar algum emprego com meu ingls, dar aula pra crianas, fazer
traduo... Mas no podia me esquecer que, se algum descobrisse que eu estava com
AIDS, corria srio risco de ser mandada embora. Que neuras! Acho que era melhor ficar l
pelos EUA, pelo menos o preconceito era um pouco menor. Mas e se eu ficasse doente?

Me senti completamente perdida. Como se estivesse numa mata fechada, sem trilhas, sem
mapas, sem ningum pra seguir. Sem ao menos ter certeza que havia mesmo algum lugar
pra ir. Procurei ento um livro. No um que falasse de remdios, tratamentos, ou a cura
pelo suco de laranja. Mas um livro que falasse de gente. Uma coisa simples, que contasse
como era o dia-a-dia de uma pessoa com AIDS, o que fazia, o que pensava, o que esperava.
Mas no achei nenhum. Caramba. Ser que ningum podia fazer o favor de escrever um
livro desses?

At que surgiu uma sorte enorme. A Helen ganhou num sorteio duas passagens de avio e
estada num hotel para um fim de semana em So Francisco. Como l ela tinha um amigo
que havia cuidado de um primo que tinha morrido de AIDS, ela me convidou pra ir com
ela. tima idia, adoraria conversar com ele e conhecer a cidade, que alis era tida como a
capital da AIDS.

O Greg, seu amigo, estava nos esperando no aeroporto. Lembro que eu estava ansiosa por
conhec-lo. A Helen havia

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me dito que ele era um cara que no jogava as regras da sociedade. Apesar de ser formado
(os dois haviam feito faculdade juntos), ele s vivia de bicos, s vezes trabalhava de
cozinheiro num restaurante, noutras ajudando num escritrio, noutras saa viajando pelo
mundo.

Eu o achei simptico. Tinha os olhos imensamente azuis e um sorriso de criana. S andava
de jeans velho e um leno azul-claro na cabea. No primeiro dia, fomos at sua casa. Fiquei
encantada com os janeles imensos que ocupavam a parede e iam at o teto, iluminando
bem a sala, caractersticos de l.  tarde, demos uma volta pela cidade. Linda! Muitas
casas, flores, subidas e mais descidas, pontes, o mar, o per, a ilha de Alcatraz. O pessoal
tambm muito interessante, hippies, gays, punks, intelectuais. A vida cultural de l parecia
ser bem intensa.

No segundo dia, a Helen contou ao Greg que eu tinha AIDS. Conversamos um bocado, mas
ele achou melhor me levar pra conversar com a Anne, uma terapeuta corporal que
trabalhava muitos anos com pessoas j doentes.

Fomos at seu consultrio  noite. O Greg nos apresentou dizendo a ela que eu j vivia com
aquilo fazia tempo mas, como vinha de um pas onde as pessoas no gostam nem de tocar
no assunto, queria mais informaes sobre a doena. Entramos eu e a Helen em sua sala. A
Anne se sentou  minha frente. Era uma mulher pequena de olhar sbio.

-- Bem, Valria, o que mais gostaria agora era olhar pra voc e dizer que as coisas no so
to ruins assim. Mas, infelizmente, no posso. Ficar doente de AIDS , hoje em dia, uma
das coisas mais difceis que j vi. Fora a doena em si, ainda existe muito preconceito e, em
alguns casos, at abandono. Tive muitos pacientes que morreram sozinhos em hospitais

207
ou casas de apoio sem a visita de um parente, nem sequer de um amigo. Algum na sua
famlia j sabe?

-- Meus pais e alguns tios.

-- E eles estariam dispostos a cuidar de voc quando ficar doente?

-- Acho que sim.

-- Isso j  de grande ajuda. Vamos ento ao resto. Voc deve ter ouvido por a que depois
de desenvolvida a doena, a pessoa inevitavelmente morre. Em alguns lugares  assim
mesmo. H pases subdesenvolvidos em que entre contrair o vrus, adoecer e morrer no
leva mais de um ano. Nos mais desenvolvidos, porm, existem casos que passaram dos dez.
A gente nunca sabe quanto tempo uma pessoa ter, e os remdios de hoje em dia no
funcionam por muito tempo. Mas o que quero que fique bem claro  que j existem pessoas
que ficaram doentes, chegando  fase terminal, como se diz, mas ainda assim conseguiram
se recuperar e viveram mais uns anos. Tenho pacientes que j ficaram mal duas, trs vezes
e continuam lutando.  difcil, as infeces oportunistas so duras, o tratamento  muito
caro e, s vezes, os efeitos colaterais piores ainda. Mas alguns deles continuam firmes.
Voc no imagina a garra dessas pessoas: so verdadeiros guerreiros. Talvez alguns
alcancem novos tratamentos, quem sabe at a cura, outros infelizmente no, morrero antes.
Alis, todos ns morreremos um dia, o resto da sociedade  que parece que se esqueceu
disso. Voc s tem, ento, duas opes: quando adoecer, sentar e esperar morrer, ou
acreditar em alguma coisa e continuar lutando. Certamente essa segunda  bem mais difcil
e exige muita fora. E eu no te conheo, mas s pelo fato de ter chegado at mim, vindo
buscar informao de to longe, eu aposto que seja do segundo time. -- Para ajudar --
continuou ela -- existem os grupos de

208
apoio.Aqui nos EUA j est mais do que provado que essas reunies, onde voc conversa
com pessoas que esto na mesma situao, ajuda, e muito. L voc vai trocar informaes
sobre doenas, tratamentos, dicas de nutrio, dicas para se proteger de infeces. E o
melhor, vai ter apoio e conforto dos outros. Inclusive,  aconselhvel que voc faa algum
trabalho voluntrio na rea, numa ONG (Organizao No-Governamental), por exemplo.
Se envolva de perto com a causa, com as pessoas. Ficar vendo tudo s pela televiso, na
maioria das vezes, d uma idia errada.

-- Outra coisa, voc tem um plano de sade que cobre despesas de AIDS? Como j disse, o
tratamento  carssimo.

-- Tenho.

-- E mdico? Um especialista de sua confiana, com quem voc se sinta  vontade para
fazer perguntas, trocar idias?

-- Pra falar a verdade, no.

-- Pois trate de arrumar, vai precisar. E s mais uma coisa: faa planos, pense grande,
tenha objetivos. Por outro lado, viva cada dia como se fosse o nico, faa tudo o que quer
fazer, sem deixar nada pra depois. Curta ao mximo sua vida e seja feliz agora.

-- Carpe diem, n? T sabendo.

-- Ento  isso, Valria. Eu espero ter contribudo para alguma coisa.

Ela ainda me deu um livro de um mdico, com quem trabalhava, que falava sobre o
assunto. Agradeci. Nos despedimos e eu e a Helen voltamos a p pro hotel.

A noite estava limpa, mas fria. Ns duas samos meio atordoadas de l. Acho que, no
fundo, espervamos algum que fosse passar a mo na minha cabea e dizer que no era to
difcil assim, mas fora exatamente o contrrio. Parecia que eu

209
tinha dado um mergulho numa piscina certa de que a gua fosse aquecida. Mas, depois de
mergulhar, o choque: a gua estava gelada. Se eu iria me afogar, ou me acostumar e sair
nadando, s o tempo diria.

Continuamos as duas andando, num profundo silncio, pelas ruas de So Francisco. Me
lembrei mais uma vez do solitrio urso-branco do zoolgico do Central Park. Ele debaixo
da gua, mergulhado naquela piscina, me olhando atravs do vidro. Aquela gua deveria
estar bem gelada.

J prximo do hotel, a Helen sugeriu que parssemos em um restaurante. Era tarde e ainda
no havamos jantado. Entramos e pedimos algo pra comer. Quando o garom se afastou
ela disse:

-- Ser que foi uma boa idia ter te trazido aqui?

-- Claro, Helen, pra ser sincera, foi um soco no estmago. Mas  melhor saber da verdade
do que ficar fingindo que nunca vai acontecer nada. J estava com o saco cheio dessa
situao, tudo muito intocvel, parece que todo mundo quer me enfiar embaixo do tapete.
Eu tenho AIDS, caramba, o que  que eu posso fazer? E voc foi a primeira pessoa que me
fez ver isso de frente. Agora pelo menos eu posso fazer alguma coisa. Foi de muita ajuda
voc ter me trazido aqui. De muita ajuda mesmo!

E ela continuou me ajudando muito mais. Assim que voltamos a San Diego, comeamos a
cuidar melhor da alimentao. Comida mais natural e integral, frutas e verduras orgnicas,
sem agrotxicos.

Fui tambm a um grupo de apoio especfico para mulheres. Lembro que, pela primeira vez,
eu conheci, ao vivo, outras pessoas com AIDS. E, para minha surpresa, elas eram normais.
Que ridculo isso!  claro que elas eram normais, assim como eu tambm era normal. No
sei por que as pessoas insistem

210
nessa idia de que pessoas com AIDS so andrides. Conversamos bastante durante a
reunio. Me fez bem. Era o comeo do fim do ostracismo.

Numa outra ocasio, cruzei com um cara j bastante doente. Ele tinha sarcoma de Kaposi
por todo o corpo e dificuldade para andar e enxergar. Estava falando com um advogado,
entrando na Justia por ter tido problema no trabalho. No consegui entender aquilo. O cara
quase morrendo, mas l lutando. Por qu?

-- Talvez porque ele saiba que atrs dele tem muita gente. Mesmo que ele morra, outros
viro. E se ningum comear a lutar pelos seus direitos, essa situao no mudar nunca.

Escrevi para meus pais contando tudo o que havia aprendido naqueles dias. Era uma
tentativa de educ-los. Chega desse silncio ignorante!

Devem ter recebido bem, pois quando liguei de novo pro meu pai, dizendo que estava
querendo ficar l por um bom tempo, ele concordou. Ainda disse que seus negcios
estavam indo bem e, mesmo que meu dinheiro acabasse, ele poderia me mandar mais.

O final do ano estava chegando e, com ele, o inverno. Eu havia desistido daquela idia de
passar o Natal com a tia Dete na Filadlfia. L o frio estava de lascar, uns vinte abaixo de
zero. Eu no estava acostumada com aquilo e podia aumentar o risco de contrair alguma
doena. Combinei com ela que iria depois, noutra ocasio. com isso, porm, meus planos
de ver neve foram por gua abaixo.

-- Nada disso -- disse a Helen --, voc no queria tanto?

-- Queria, mas onde  que eu vou arrumar neve aqui na Califrnia?

211
-- Existe um lugar a umas quatro horas daqui. Nas montanhas. A gente podia passar um
fim de semana l. J tinha pensado em levar o Thomas pra algum lugar nessas frias. Que
tal?

-- Voc t falando srio?

-- Olha, s no posso garantir que esteja nevando quando formos. Mas, com certeza, j
nevou e a montanha estar repleta de neve.

Fomos de carro, um caminho muito bonito e, conforme amos chegando  parte mais alta,
os primeiros sinais de neve. Um amontoado aqui, outro mais ali. Mais  frente, o telhado de
uma casa todo branco, e mais outro, e mais outro. A cidadezinha era uma gracinha. A nossa
pousada ficava afastada do centro, na parte mais alta. Estava tudo branco por ali e o sol,
ainda que fraco, refletia na neve, deixando tudo mais claro ainda. Assim que a Helen
estacionou o carro, eu e o Thomas samos correndo e nos jogamos no primeiro monte.

-- Neve! Neve! Neve!!!

Ficamos jogando pra cima, atirando um no outro, fizemos um boneco e o Thomas me
ensinou a deitar e a fazer um anjinho desenhado com o prprio corpo no cho. Como era
macio! E como era gelado! Mesmo de luva no demorou muito tempo para que eu no
sentisse mais as mos.

Nosso chal era fofo, tinha lareira e tudo. Mas assim que deixamos as coisas l dentro,
fomos dar uma volta na floresta que existia bem em frente e estava toda branca. Acho que
no tem palavras pra descrever o que eu senti andando no meio daquilo tudo. Voc j
realizou algum sonho? Ento realize, e vai saber do que eu estou falando.

Quando voltamos pra San Diego continuei com a rotina, ginstica de manh, estudava 
tarde por minha conta e  noite

212
ficava em casa com a Helen. Ela estava me ensinando os significados das figuras bonitas e
intrigantes do tar. Nos fins de semana fazamos trilha, pegvamos um cinema, um bar...
Era legal aquele estilo de vida americano, cada um que limpe sua casa, que recicle seu lixo,
que cuide de seu meio ambiente.

Logo chegou o TOEFL, fiz a prova numa boa. Mas o resultado s sairia no final de janeiro.
Mesmo se passasse, s poderia entrar numa universidade em setembro. At l o que fazer?
Pra complicar, a Helen andava com planos de mudar de emprego e de cidade. Fiquei
imaginando eu morando em San Diego sozinha, nada agradvel.

Nesse tempo li o livro do mdico que a Anne havia me dado. Dava dicas de alimentao,
falava de infeces e de tratamentos. Mas o que mais me chamou a ateno foi o jeito que o
tal doutor se referia a seus pacientes: como gente. No como meros risquinhos na escala de
um grfico. Pensei em ir a So Francisco, me consultar com ele no incio do prximo ano.
Era uma idia.

Uns dias antes do Natal, entretanto, comecei a ter febre alta. Logo de cara no dei bola,
achei que era coisa comum do HIV, mas a febre persistiu, sempre  noite. E uns dias
depois, tomando banho, senti uns carocinhos aumentados no pescoo. Marquei uma
consulta com a especialista l mesmo de San Diego. Ela me pediu uns exames que ficariam
prontos depois do Ano-Novo.

O Natal chegou. A Helen foi pra casa de sua me. Me convidou, mas eu no quis ir. No
conhecia muito bem o pessoal de l e tambm queria ficar em casa pensando. Isso  noite
pra se ficar em casa pensando?

Assim que eles saram, fechei a porta e apaguei a luz. S ficaram as luzinhas da rvore de
Natal. Fiquei um tempo

213
olhando pra ela, bem bonita. Os americanos tm um jeito legal de enfeitar suas rvores.

Andei pela sala: que silncio, que escurido. Acendi uma velinha com cheiro de baunilha.
Essas velas so uma delcia. Fui com ela at a cozinha. Nas paredes a Helen havia pregado
vrios desenhos que o Thomas tinha feito na escola. Um costume legal de l, a criana fica
superorgulhosa. Num, um sol enorme, noutro um arco-ris, noutro um menininho e sua
me. A psicologia diz que se pode dizer muito sobre uma criana atravs de seus desenhos.
Vai ver que  por isso que, quando crescem, os adultos param de pintar.

Andei at a sala novamente e me sentei  mesa. "O que ser que meu pai deve estar fazendo
nessa noite de Natal? No mnimo alguma palhaada. Arrotando alto, por exemplo, pra
minha av morrer de vergonha. O tio Dure deve estar se esbaldando com o Felipe cachorro
pela sala, a tia Cia deve ter chegado com aquele arroz maravilhoso. Minha me deve estar
em Manaus com meus tios, minha outra av em Corumb com meus primos e a outra parte
da famlia toda reunida no Rio de Janeiro, l sempre junta um monte de gente... e eu aqui,
sozinha."

Comecei a me perguntar se era aquilo mesmo que eu queria para os prximos meses, para
os prximos anos, para o resto da vida.

Apaguei a vela e fui dormir.

Nos dias seguintes, tudo de novo. Acordava cedo, comia muito bem, aveia, leite, granola,
frutas, iogurte. Ia pra ginstica ou andava no imenso campo gramado. Dava trs, quatro
voltas, me sentindo superbem. Mas, l pelas cinco, seis horas da tarde, no tinha jeito, a
febre. Cada dia mais forte, 38, 39 graus, parecia que ia cozinhar minha cabea. Acordava
toda

214
suada, mas tomava um banho e me sentia novinha. Pensava at que a noite anterior tinha
sido s um pesadelo. Voltava pro campo gramado, dava duas, trs voltas. "Eu no vou ficar
doente, eu no posso ficar doente, nem um mdico especialista de quem eu goste muito eu
arranjei ainda." Mas  noite...

O Ano-Novo foi pior. Dessa vez, nem se eu quisesse iria sair com aquela febre toda. E de
qualquer jeito no via graa de Ano-Novo com frio. Estava acostumada a ir  praia ver
fogos, usar roupa branca, leve, ficar descala  meia-noite para dar sorte. Mas l no,
aquele tempo fechado, nublado. Me lembrei tambm que dentro de pouco tempo chegaria o
Carnaval. J pensou eu num pas que no tem Carnaval? E o tuiui do pantanal? Um banho
de mar nas praias do Nordeste? Um passeio de barco no rio Amazonas? As hortnsias do
jardim do meu prdio?

"Minha terra tem hortnsias onde canta o sabi i As aves que aqui gorjeiam, no gorjeiam
como l."

No dia seguinte peguei o telefone:

-- Pai, vou voltar pra casa.

-- O que aconteceu?

-- Nada. S quero voltar.

-- T bom, filha. Faa como quiser. E a passagem?

Como achei que no ia mais usar a passagem, que era vlida s por seis meses, tinha
mandado pra ele levar na companhia area e ver se trocava ou pegava algum reembolso.

-- Me manda de volta. Mas manda logo que a validade vai at o dia 9, domingo, e  o
ltimo dia que eu posso usar.

- Vai dar tempo de chegar a? <

-- Vai. Manda por sedex, chega em dois dias. ,< .

215
Na tera, voltei  mdica. De novo no tinham conseguido achar nada nos meus exames.

-- Vai ver no  nada -- eu disse --,  s uma febre de HIV

-- No. Essa febre est muito alta. Voc deve estar com alguma infeco. Vamos ter que
checar seu rim novamente. Vou pedir outro ultra-som.

-- Eu resolvi voltar pro Brasil. Vou embora domingo.

-- Certo. Ento no temos tempo de fazer mais nada aqui. Mas assim que chegar l procure
um mdico -- ela me deu um relatrio de todo meu histrico e os exames que havia feito
por l. -- D isso a ele.

-- T, obrigada.

Quarta-feira passei o dia em casa esperando o correio chegar: nada. Quinta-feira: nada.
Sexta: nada. No final da tarde j estava desesperada. Merda! Que merda! No vai dar tempo
dessa porra chegar! Por que  que eu sempre resolvo tudo em cima da hora?! Eu vou perder
esse avio... meu pai vai me matar! To fodida!

Nessas ouo um barulho, olho pela janela, um caminho: Federal Exprex. Sa correndo e
abri a porta. Um homem vinha na minha direo com um envelope na mo.

-- Isso a  pra mim, moo?

-- Voc  a Vale...?

-- , sou eu mesma! -- disse arrancando o envelope das mos dele. Vi o remetente: meu
pai. -- Olha, moo, obrigada, obrigada, mesmo! Pensei que o senhor no vinha mais. Pera
s um minutinho a, t? -- Corri no meu quarto pra procurar algo pra dar a ele: um
chocolate suo,  isso! -- Olha, isso aqui  pra voc.

-- Pra mim? Nossa, obrigado! Puxa, em vinte anos de correio nunca vi algum ficar to
feliz por receber uma encomenda.

216
No me leve a mal, no, mas o que  que tem a dentro?

-- Uma passagem, uma passagem de volta pra minha casa!

No domingo, a Helen me levou ao aeroporto. Eu j havia explicado a ela o porqu daquela
deciso. E ela tinha entendido.

-- Se cuida, t? Procure um mdico e tente dar continuidade s coisas que estava fazendo
aqui. No se esquea de meditar bastante e, se precisar, use as cartas -- ela havia me dado
de presente um tar igual ao dela.

-- Obrigada por tudo. E faz fora pra ir pra l no Carnaval.

-- T, vou fazer. Boa viagem!

A viagem em si no foi muito boa, no. Queimei de febre a noite toda. Tomei um Tylenol
pra abaixar mas, como sempre, suava mais ainda e me dava um mal-estar terrvel. A sorte
foi que o avio no estava muito cheio, pude pegar trs poltronas s pra mim e deitar.

217
13. Eu sou gente!
Brasil, janeiro de 1994.

No dia seguinte cedo, cheguei ao aeroporto, peguei as malas e fui para o saguo. Mas meu
pai no estava l. Caramba, ser que ele tinha esquecido de vir me pegar? Pensei em ligar
pra casa. No tinha ficha. No tinha dinheiro pra comprar. Pra falar a verdade, no sabia
direito nem qual era a nova moeda do pas. Podia pedir uma ficha pra algum, podia ligar a
cobrar, mas estava to cansada que encostei o carrinho com as malas no canto e me sentei.
Estava tonta outra vez. Era melhor esperar um pouco. Tive medo de desmaiar e roubarem
minhas coisas. Eu devia era pedir ajuda pra uma daquelas pessoas passando por ali. Mas
tambm no tinha mais foras. Fiquei quieta, sentada, atordoada em meio quele tumulto de
aeroporto.

De repente, meu pai apareceu no meio daquele gentaru. Veio se aproximando. Estava com
uma cara de quem viu um fantasma.

218
-- Minha filha?!! -- Pelo jeito o fantasma era eu. -- Aconteceu alguma coisa?! O que 
que voc est fazendo a? Eu fui pro porto errado.

Me levantei.

-- Tava te esperando -- que bom que ele tinha chegado. Que bom que ele tinha vindo me
pegar!

-- Voc t magra, hein? T pesando quanto?

Isso! Viva meu pai! Fazia seis meses que eu no o via, louca por um abrao e um beijo,
mas em vez disso ele pergunta quanto  que eu estou pesando. E como se no bastasse:

-- Voc est amarela! Voc j viu sua cor? No tinha espelho na sua casa, no?

Faz de conta que eu no ouvi nada disso. Vamos comear tudo de novo. Dei um beijo nele.

-- Oi pai! Tudo bom?!

Ele pegou o carrinho com as malas e fomos em direo ao carro. Foi me contando como
estava e como ia tudo por l. Para dizer a verdade, ele reclamou muito:

-- O pas est uma merda -- ele dizia --, no sei aonde vamos parar. -- Depois comeou a
reclamar da minha irm, da minha me. E eu j comeava a me arrepender de ter voltado.

-- Vai ao mdico quando? -- ele perguntou.

-- Amanh

-- Vamos l no dr. Infectologista?

-- Nem ferrando!

-- Minha filha, larga de ser turrona, ele  o melhor infectologista do pas.

-- Melhor infectologista ele pode at ser, pena que no entenda de gente.

-- E vai fazer o qu, ento? <

-- Sei l. Acho que vou no dr. Homeopatia.

-- Homeopatia no serve para essas coisas.

219
-- T pai, amanh eu penso.

Ele continuou falando na minha orelha, mas eu j nem prestava ateno. Ficava s olhando
pela janela. Agora estvamos passando pela Marginal, o rio Tiet, carro de marcas
conhecidas, placas escritas em portugus, gente falando minha lngua. Eu estava em casa.

Minha av me recebeu com o mesmo carinho de sempre. Me abraou demoradamente, me
beijou e perguntou o que eu queria comer.

-- Nada, v, obrigada. Agora s quero dormir.

Fui direto pro meu quarto. Olhei na estante: meus livros. Abri a janela, l estava ela, minha
rvore. Maravilhosa, imensa, majestosa. To alta que alcanava o 6 andar do meu
apartamento e ficava ali, sempre na minha janela, como se estivesse me protegendo.

Olhei tambm para a rea da piscina, l do outro lado, o jardim estava repleto de hortnsias
azuis. Olhei para as ruas calmas do bairro, s casas, muitas rvores e flores coloridas.
Fechei a janela e dormi tranqila.

No dia seguinte, fui com meu pai ao dr. Homeopatia, que me pediu uns exames. Quando
ficaram prontos levei at l. Ele concluiu que eu deveria estar com alguma infeco, apesar
de no conseguir descobrir exatamente qual era. Me receitou, ento, dois antibiticos, pois,
em sua opinio, tratar infeco s com homeopatia no resolveria.

Meu pai estava com uma viagem marcada pra dali a dois dias. Pensou em cancel-la, mas
eu insisti que no. Afinal, eu j estava medicada e no haveria mais nada que ele pudesse
fazer. S me restava repousar e tomar os remdios e dentro de uma semana j estaria
melhor.

220
Ele foi e eu fiquei em casa com minha av cuidando de mim. Mas algo parecia estar errado.
A cada dia, eu me sentia mais fraca, mais cansada, j no conseguia andar direito, j no
estava comendo quase nada e, no final da tarde, infalivelmente, aquela febre de 38, 39
graus.

Eu j havia falado com minha me depois que chegara. Mas naquele dia, quando acordei,
minha av me deu o recado de que ela havia ligado duas vezes. Liguei, ento, para Manaus.
Minha irm, que estava l passando as frias, atendeu. Conversamos um pouco e eu
perguntei pela me.

-- Ela saiu, disse que iria comprar passagem.

-- Passagem pra onde?

-- Pra. Ela disse que quer te ver.

-- Ah. Meu Deus, fala pra ela que no precisa vir, que eu estou tima!

Nesse exato momento a porta do meu quarto se abre:

-- Minha filha, que saudades!

-- Pode deixar -- aviso pra minha irm --, ela j est aqui. Desligo o telefone e vou falar
com ela.

-- Me, o que voc t fazendo aqui?

-- Ah, liguei pr dr. Homeopatia, ele disse que seu caso era grave, achei melhor vir.

-- Legal o dr. Homeopatia, hein? A tica dele, ele enfiou onde?

-- Fui eu quem ligou! Eu estava preocupada. Voc sempre esconde as coisas de mim.

-- No t escondendo nada. S no acho que era o caso de voc pegar um avio e baixar
aqui.

 tarde, fomos ao dr. Homeopatia novamente, que, depois de me examinar, concluiu que os
antibiticos no estavam resolvendo nada, eu provavelmente estava com algo mais srio, s
que ele no sabia o qu. -- Voc deve procurar um

221
          -- disse. Boa essa homeopatia, n? Na hora de vamos ver, mandam a gente pra
infectologista
medicina tradicional.

Sa de l me sentindo abandonada. Eu estava sem nenhum mdico de novo. Quando
entramos no carro, minha me comeou:

-- Vamos pro consultrio do dr. Infectologista.

-- No! Nele eu no volto nem morta.

-- Meu Deus do cu, ser que voc no est percebendo a situao?!

-- Me, no comea a berrar, t? Vamos pra casa, l eu penso.

Chegando em casa ela foi pegar sua agenda.

- T fazendo o qu?

-- Vou ligar pra alguns conhecidos e pedir a indicao de outro especialista.

Outro especialista? Imaginei a situao. Eu indo ao consultrio de mais um mdico, e
comear tudo do zero, explicar tudo, contar a histria inteira. Fora as perguntas: "com
quantas pessoas voc transou? J usou drogas? E sexo anal, j fez?". No, no e no! No
agento mais isso.

-- No quero outro especialista! -- berrei.

-- bom, minha filha, voc tem dois segundos pra decidir. Ou eu vou tratar de achar outro
mdico, ou ns vamos ao dr. Infectologista.

Pensei. Bem, merda por merda, pelo menos o dr. Infecto eu j conhecia.

- T bom, vai, liga pr dr. Infecto -- mas j era tarde, fiz figas para que ele no estivesse no
consultrio. Ela pegou o telefone. Comeou a discar, algum atendeu. -- Ele nem vai
lembrar quem sou eu.

-- Quieta.

- Al, dr. Infectologista? Oi, tudo bem? Aqui  a me da Valria, e eu t ligando porque ela
no est nada bem.

222
Eu acho que ela precisa ser internada urgentemente. h... sei... sei... -- Ela tapou o bocal
do telefone e me perguntou:

-- Voc quer ir pro hospital Albert Emstein ou pro Oswaldo Cruz?

-- O qu? Vai me internar assim, por telefone?

-- Emstein ou Oswaldo Cruz?

-- Emstein, droga -- eu tinha parente que j havia ficado l, alm de ser mais perto de
casa.

-- Tudo bem, ento estamos indo pra l -- ela disse desligando o telefone. -- Pronto, tudo
resolvido.

-- Ele sabia quem eu era, por um acaso?

-- Lgico.

-- Ele est indo pra l?

-- No. Vai mandar um assistente.

Ainda bem, pensei. Assim no precisaria olhar pra cara dele.

Nessas, meu tio Dure, irmo do meu pai, vem chegando em casa. Minha me lhe diz que
estamos indo pro hospital e ele se oferece para nos levar. No s nos levou como tambm
entrou conosco na sala de espera. Enquanto minha me foi avisar a recepcionista que eu
havia chegado, sentei-me ao seu lado. Ele passou a mo na minha cabea:

-- Voc est fraquinha, n, Preta? Mas logo, logo vai sarar.  s tomar um sorinho e
pronto.

Voc quer saber como  meu tio? Imagine a pessoa mais fofa do mundo. Fiquei lembrando
de quando era pequena e ele me levava ao Playcenter. Montanha-russa era de praxe, at o
dia em que apareceu o loopmg.

-- Esse a so duas voltas de cabea pra baixo. Voc tem certeza de que quer ir?

-- Tenho, tio! -- e apertava minha mozinha dentro da mozona dele. O corao
disparado.

223
-- No t com medo?

-- Nem um pouco.

Fomos uma, duas vezes e era a maior farra. Minha tia costumava dizer que ele era mais
infantil que eu e minha irm juntas.

E agora ele me trazendo pro hospital, e nem desconfiava que eu tinha AIDS.

--  tio, logo, logo eu saro...

J havia lido muitos artigos nos EUA que discutiam qual era a melhor hora para se contar.
No existe a melhor, cada um sabe a sua. Mas a pior hora certamente seria aquela.

-- Tio, quando eu for falar com o mdico voc espera aqui, t?

Por falar em mdico, como seria esse agora?

Minha me me chamou, avisaram que ele j havia chegado. Fui com ela at seu consultrio.
Era um cara novo. Cabelos claros, olhos claros. S me faltava isso. Ser que ele era parente
do dr. Infectologista? Perguntei. Ele respondeu que no. Que era s assistente. Bem, menos
mal.

Sentamos  sua mesa. Dei uma rpida explicao sobre o que estava acontecendo e lhe
entreguei o relatrio que trouxe dos EUA. Ele comeou a ler. timo, assim eu no
precisaria falar nada.

Enquanto ele lia fiquei olhando pra sua cara. Tinha cara de gente boa. Boa demais pra um
mdico. Era isso, vai ver que nem tinha terminado a faculdade ainda.

-- ... voc j  infectologista? -- perguntei como quem no quer nada.

-- Eu j -- ele respondeu sem tirar os olhos do relatrio.

-- Sei. Hum... e voc j tem um consultrio?

-- Tenho, sim. Eu atendo l mesmo, com o dr. Infectologista.

224
bom, ento ele era mdico mesmo, de verdade. Mais um mdico na minha vida. Vou ter
que arranjar um pseudnimo pra esse a. Vou cham-lo de... de dr. Anjo. Mais tarde explico
por qu.

O dr. Anjo continuou l lendo o relatrio. Ele estava quase babando em cima das folhas. Os
mdicos adoram minha histria! Que bom seria se, em vez disso, eles gostassem um pouco
mais de mim.

- J acabou a? -- perguntei

-- Ainda no. Falta s mais um pouco.

Caramba, que demora. Ele virou mais uma folha e mais outra. Olhou os ltimos exames.

-J?

-- Peeera!

Minha me me deu uma olhada feia, Ele leu mais uma folha. Por fim disse, juntando tudo.

-Pronto.

-- E a, o que  que eu tenho?

-- Antes vem aqui um pouco -- ele disse se levantando.

-- Vem aqui aonde?

-- Aqui -- ele disse mostrando a maca. -- Vou te examinar. Senta aqui.

Se  coisa que eu odeio so esses exames de mdico desconhecido. A maioria deles tem a
pssima mania de pegar na gente como se fssemos um pedao de carne no aougue. Mas
depois que o dr. Anjo colocou as mos no meu pescoo eu fiquei mais calma. Acho que ele
sabia que estava pegando numa pessoa.

-- Tem uns caroos a -- avisei.

-- T sentindo -- ele disse apalpando minha garganta --, so gnglios.

--- , os gnglios.

225
Depois ele colocou a mo embaixo do meu brao. Acho que estava procurando mais
gnglios. Olhou meus olhos e examinou a barriga. A tirou o estetoscpio em volta do seu
pescoo, colocou nos ouvidos e a outra parte no meu peito. E ficou l concentrado ouvindo
meu corao. Depois ouviu minhas costas. E eu que nem sabia que costas tinham barulho.
Voltou pro corao. Vai ver que era mais legal. E eu na falta do que fazer imaginei o som
que deveria sair daquele aparelho. Deve ser interessante. Se eu tivesse cinco aninhos
pediria para ouvir um pouco. Essa  uma das desvantagens de ter 22.

Finalmente o exame acabou e voltamos  sua mesa:

-- Bem, Valria,  o seguinte: voc est com uma anemia profunda, to profunda que o seu
coraozinho est tendo que bater dobrado pra suprir as necessidades do seu corpo. E ele
est to sobrecarregado que em questo de horas voc teria tido uma parada cardaca.

Nessa hora eu quase ri. Sei que  ridculo rir numa hora dessas. Mas  que eu (Eu!) me senti
uma coisa to frgil. Num segundo estava l vivinha e noutro, puf, havia deixado de existir.
Pensando bem, indo pra esse hospital, eu acabara de perder uma enorme chance. A chance
de morrer rapidinho e sem dor. Que merda! Minha me no achou graa nenhuma. Pelo
contrrio. Olhou pra mim com um olhar fuzilante e disse:

-- T vendo?!

Bem tpico de mes. Parece que elas esto sempre ali s esperando o momento mais
oportuno pra dizer o seu eterno "t vendo?".

O tal de dr. Anjo, no sei se pra dar uma de super-homem, ou se para tentar consertar a
situao, disse:

-- Mas isso no seria problema, pois, com um dia de U T I, eu te tirava dessa.

226
Dessa vez ri mesmo. Definitivamente esses mdicos no entendem nada de salvao.

-- O que ns precisamos fazer agora -- prosseguiu ele --  uma transfuso de sangue e
alguns exames pra descobrir o porqu da infeco. Pode ser?

Pra tudo. Ele no ordenou? No mandou? No imps? Ele perguntou se pode ser?

-- Pode? -- ele insistiu.

-- Pode -- eu respondi, ainda atnita. Ser que aquilo era um sonho?

-- Ento t. Eu vou pedir pra enfermeira preparar um quarto. Voc deve passar uns dias
aqui internada. Tudo bem?

Meu Deus, aquilo realmente era um sonho. Ser que o tinham importado dos EUA, ou
simplesmente ele era inteligente o bastante para saber que perguntar a opinio do paciente
de vez em quando no doa nada.

- Tudo bem -- eu disse, mas antes de sair perguntei: -- Escuta, enquanto eu estiver aqui
nesse hospital,  voc que vai tomar conta de mim?

--  sim. Eu passo pra te ver todas as tardes.

Que timo, pensei.

-- E o dr. Infectologista -- continuou ele -- vem te ver pela manh.

Que droga. Bem que a gente podia pular essa parte.

Ele ainda me explicou como seria a transfuso e os exames de sangue e me encaminhou
para a enfermaria onde a enfermeira me pegaria a veia..  lgico que, quela altura, eu no
sabia o significado de pegar a veia, mas depois de um ms de hospital aprendi esses e
vrios outros termos.

Pois bem, pegar a veia significa enfiar uma agulha na sua veia e deixar ela l presa a um
canudinho por onde passa o soro.

227
-- Vou dar uma picadinha -- disse a enfermeira simptica --, pode doer um pouquinho.
Doeu? No? Que timo.

Depois fui para um quarto. Um bom quarto. Bege e branco. Uma cama que subia e descia.
Uma televiso presa no teto. Uma geladeirinha na frente da cama e um sof de um lado e
uma poltrona de outro, na frente da janela. Um banheiro e um armrio. Meu tio ficou um
pouco l com a gente e depois se despediu e foi embora. Minha me dormiria comigo.

Coloquei o meu pijama e me deitei na cama. A enfermeira da noite veio se apresentar. No
demorou muito chegou o homem do banco de sangue. A transfuso era simples, pelo
caminho por onde entrava o soro agora entraria o sangue. S que, como era mais grosso,
doa quando passava pela veia. Mas o tio ficou l o tempo todo at dosar a velocidade certa
para no doer muito.

Quando chegou a febre, vieram os enfermeiros fazer os exames. Como se tratava de uma
cultura, ele deveria ser colhido trs vezes, com intervalo de trs minutos, em locais
diferentes. Mais tarde, tive de fazer outra bateria. S que dessa vez a febre estava to alta e
eu tremia tanto que mais dois enfermeiros tiveram que vir me segurar. E, ao final de uma
semana, tinha mais de vinte picadas pelos braos.

Para o dia seguinte, ficaram marcados outros exames. De urina, ultra-som, tomografia
computadorizada. Mas o que me preocupava quando acordei naquela manh era s uma
coisa: a visita do dr. Infecto. E como era de esperar, logo, logo ele apareceu:

-- bom dia, Valria.

Ele estava a mesma coisa de sempre. com seus 45 anos mais ou menos, alto, forte e seco.
Me examinou detalhadamente e disse que precisaria do resultado dos exames para dar

228
um diagnstico preciso. Antes de sair olhou pra mim e fez uma cara de reprovao:

-- T vendo, se tivesse tomado remdio quando eu mandei no estaria aqui agora.

Parabns! Esse  o dr. Infectologista. Tava demorando! Eu sabia que ele ia dar uma dessas.

Acho que nem preciso dizer pra onde tive vontade de mand-lo. Melhor que isso, eu mesma
deveria me mandar dali. Era isso, ia arrumar minha trouxa e iria embora. Que trouxa coisa
nenhuma, eu ia era de pijama mesmo!

Assim que ele saiu me levantei da cama. Mas me lembrei que estava presa quela droga de
soro. Jlia, a enfermeirachefe, entrou no quarto.

-- Levantou sozinha, meu anjo, voc quer alguma coisa?

- Quero. Quero sumir daqui, tive vontade de berrar. Mas a Ju era uma pessoa to calma e
to atenciosa que tive vergonha dos meus pensamentos.

-- S vou sentar um pouco no sof -- disse.

-- Deixe que eu te ajudo -- ela empurrou o pedestal do soro. Agora, aonde eu fosse, ele
iria junto -- prontinho. Sua me foi l na lanchonete tomar um caf. E daqui a pouco voc
vai descer pra fazer o ultra-som, t? Qualquer coisa que precisar  s tocar a campainha.

-- Obrigada.

Passei o resto do dia de mau humor. Esse dr. Infecto pensava o qu da vida? Que era s ele
chegar e dizer tome isso! Eu abaixo minha cabea e digo amm. Ser que ele havia
esquecido que eu era feita de um material chamado ser humano e que, por um acaso, como
todos os outros da mesma raa, era cheia de dvidas? E que essa porra de AIDS era uma
coisa nova, ningum sabia aonde  que ia parar, no se sabia se os remdios eram bons
mesmo, se faziam algum mal, e mais,

229
quela altura, eu nem sabia se queria continuar viva. No, ele no sabia nada disso. Vai ver
que nem lembrava que eu era gente. Era isso, olhava pra minha cama e s enxergava um
tubo de ensaio cheio de vrus pulando dentro. Ou quem sabe ele prprio tinha deixado de
ser humano. Coitado, no fundo, o doente da histria era ele. E quer saber do que mais:
ainda que eu morresse ali naquela cama de hospital, no iria me arrepender nem um pouco
do que tinha feito! E, se ele soubesse de um milsimo do que eu havia aprendido durante
aquela viagem, aposto que me daria razo.

 tarde, chegou o dr. Anjo sorrindo:

-- Oi, Valria, como  que voc est hoje?

-- Quando  que eu vou embora, hein?

-- Que  isso, menina, nem acabou de chegar.

-- , s que j quero ir embora!

-- Me diz, como  que eu posso te mandar embora se nem descobrimos ainda o que voc
tem? Hoje voc j fez uns exames, amanh vai fazer outros e, assim que descobrirmos,
vamos cuidar de voc, voc vai sarar, da eu deixo voc ir pra casa. T bom? Voc viu
como melhorou depois da transfuso?

-- , to me sentindo melhor.

-- Ento. Eu sei que  chato ficar aqui, mas voc vai ter que ter um pouquinho de
pacincia, n? Posso te examinar agora?

E enquanto ele me examinava fiquei olhando pra ele. Ele sim sabia que eu era uma pessoa.

Os dias seguintes foram todos a mesma coisa: exames, televiso, janela. Continuava a ter
que aturar a visita diria do dr. Infecto. Mas, pra compensar, tinha o dr. Anjo. Ele estava
sempre de bom humor, chegava no meu quarto sorrindo. E eu me

230
lembrava do que se dizia por a das pessoas com AIDS, que eram sujas, deprimentes,
portadoras do mal do sculo. Mentira! Eu no era nada daquilo. E a prova disso era o dr.
Anjo cuidando de mim todo feliz.

As enfermeiras e os atendentes tambm eram pessoas muito legais. Fora a Jlia,
enfermeira-chefe, tinha a Verinha, que ainda estava na faculdade e vinha todos os dias
cedo, trocava minha cama, me ajudava a tomar banho no chuveiro (no que eu no
conseguisse sozinha, mas me atrapalhava com aquela parafernlia do soro).

Tambm tinha a Ana Cristina, uma outra chefe do setor que sempre vinha conversar
comigo.

Engraado, eu lembro que quando estava na escola e algum no sabia direito que
faculdade faria a gente zoava: "Faz enfermagem", como se fosse a profisso mais boba
desse mundo. Mal desconfivamos da importncia e responsabilidade desses profissionais.
E do melhor de tudo, do carinho.

De vez em quando tambm aparecia um auxiliar de enfermagem, pra colher sangue, pra
pegar uma veia, pra trazer um comprimido. E os atendentes, a Clo e o Z, que me levavam
de cadeira de rodas at outros andares pra fazer os exames. Tinha tambm a tia que trazia
comida. Me lembro dela sempre perguntando: "O que voc vai querer hoje, meu bem?". E
tinha tambm as duas moas que limpavam meu quarto. Eram superparecidas, cheguei a
perguntar se eram gmeas, mas no, nem irms elas eram.

Passava vrias horas do dia com minha me. No comeo, at achei estranho a gente estar se
dando to bem. Ns sempre fomos pessoas muito diferentes. s vezes, nem entendo como
me e filha podem ser to diferentes. Se no fosse alguma semelhana fsica, desconfiaria
que era adotada. Nunca

231
fomos de conversar muito, sempre senti uma enorme distncia entre ns duas. Coisas de
famlia, acho que todo mundo tem algum problema desse tipo. Mas eu at que estava
gostando dela ali do meu lado, cuidando de mim. No que ela no tivesse cuidado antes. 
s que ela sempre foi muito nova. Casou aos dezessete anos com meu pai, dez anos mais
velho, e me teve com vinte. Na infncia, me lembro das mes das minhas amigas, donas-
de-casa, gordas, de bobs, de avental, fazendo almoo. A minha, no, era magrinha, usava
cala jeans, rabo-de-cavalo, fazia faculdade, muito estranho! Na adolescncia, no sei por
qu, sempre tinha a sensao de que eu cuidava mais dela do que ela de mim. Coisas da
vida. Agora estvamos ns duas naquele quarto de hospital, e com uma tima novidade: ela
havia deixado de fumar!

Meu pai chegou de viagem depois de uns trs dias. Ia me ver de vez em quando. No toda
hora. Estava ocupado correndo pra cima e pra baixo com as coisas do advogado. Ainda
mais essa agora, depois que fui internada, o plano de sade mandou avisar que no arcaria
com as despesas.  mole? E que fique bem claro, meu pai s havia me colocado nesse
seguro, alis carssimo, porque eles se diziam os nicos do pas a cobrir as despesas da
AIDS. E agora que eu precisava tiravam o corpo fora. Que palhaada! Como vrios outros
pacientes, colocamos eles no pau. E, pelo jeito, o processo ia correr anos na Justia.

Meu pai me ligava toda hora e, quando dava tempo, ia at l, ficava um pouco comigo,
enquanto minha me ia dar uma volta. Os dois no sabem ficar cinco minutos juntos sem
brigar. No d pra entender. Foram casados oito anos, tiveram duas filhas e hoje no
conseguem olhar um na cara do outro. Nunca entenderei. S sei que  perfeitamente
possvel.

232
Meu pai no  muito chegado nessas coisas de hospital, seringa, agulha, sangue. Minha av
conta que ele at desmaiava. Mas ele diz que no, que nem liga. Ento, quando ele estava l
e chegava um enfermeiro pra tirar sangue, eu comeava a provocar.

-- Ateno, ele vai pegar a seringa, t, t, t, t, t, t... olha o tamanho da agulha!!! Vai
enfiar em mim, no meu bracinho... Aaaahhhh!!!

-- Voc no tem jeito mesmo -- ele levantava e saa do quarto.

E a gente dava risada. Minha tia Cia ficava inconformada.

-- Volta aqui, vem segurar a mo da sua filha. Tamanho marmanjo desses, no tem
vergonha?  um medroso mesmo!

Numa tarde calma, apareceu um mdico estranho no meu quarto. Foi entrando e se
apresentando. Era o dr. Laparoscopia. Sentou-se  beirada da minha cama e comeou a
examinar meu pescoo.

-- , acho que vou fazer um corte aqui, tiro um desses gnglios e depois  s fechar.

Levei um susto. Que corte? Que gnglio? Quem  mesmo esse cara? Ele fedia cigarro. Tirei
sua mo do meu pescoo.

-- Pera... -- eu disse.

-- Pera, no, menina. Eu dirigi trs horas do meu stio at aqui s pra te ver, no me venha
com essa de pera a -- e botou aquela pata de elefante de novo no meu pescoo.

O sangue subiu  cabea. E como subiu.

-- Olha aqui -- eu disse tirando a mo dele de novo --, o pescoo  meu, a vida  minha e
quem manda nela sou eu! E enquanto eu estiver viva, se voc quiser mexer em mim vai ter
que pedir minha permisso! E se no for desse jeito, pode voltar pro seu stio que eu no t
nem a!

233
Ele se assustou, levantou e saiu do quarto. Eu j tinha comeado a chorar de nervoso, de
dio, de humilhao. Minha me se aproximou cheia de tato.

-- Minha filha, pelo amor de Deus, no fale assim, esse mdico  o papa da laparoscopia
aqui no Brasil...

-- Grande merda ele ser tudo isso e nem saber conversar com as pessoas. J que ele no
gosta de dar explicao pra ningum, ele deveria ser veterinrio. Porque da ele abre a
barriga do cachorro, fecha a barriga do cachorro, joga at jogo-da-velha dentro da barriga
do cachorro, e o cachorro com certeza no vai falar nada. Agora, eu sou gente! E quem
quiser tratar de mim vai ter que me dar explicao!

-- Fala baixo, o mdico t bem a na porta, voc ainda me mata de vergonha.

--  pra ouvir mesmo! -- berrei mais alto.

Ele, que estava logo ali, conversando com a enfermeira Ju, voltou, todo manso.

-- Olha, Valria, voc me desculpa, pensei que o dr. Infecto j tinha te explicado.

-- No, ningum me explicou droga nenhuma!

-- Tudo bem, fica calma, pra de chorar -- disse ele, sentando na cama e j veio com
aquela mozona de novo pra cima de mim. -- Calma, calma, no vou fazer nada -- e
enxugou minhas lgrimas. -- Vou te explicar tudo, t?

Disse, ento, que, como at ali, depois de todos os exames que haviam feito em mim, no
conseguiam diagnosticar nada, eu teria que fazer uma bipsia de um gnglio.

--  simples, s vou fazer um cortinho aqui nessa dobrinha, tirar um gnglio e mandar pra
examinar. No di nada e a cicatrizao  rpida.

-- E eu vou ficar sem o meu gnglio? (Sei que essa pergunta foi bastante imbecil, mas eu
no sou mdica, p!

234
-- Um gnglio no vai te fazer falta nenhuma. Vou marcar para amanh cedo. T bom? Te
vejo l.

Foi saindo do quarto. Minha me atrs pedindo mil desculpas. Odeio quando algum pede
desculpas por mim. Se eu achasse que merecia, pedia eu mesma.

No dia seguinte, a Jlia veio me avisar que eu j iria pr centro cirrgico. Me deu uma
roupinha verde ridcula que a Verinha me ajudou a colocar.

-- Eu vou pr centro cirrgico ou prum baile de Carnaval?

-- Essa roupa  dose, n? E voc ainda nem viu a touquinha e o sapatinho.

Quando eu j estava pronta, o seu Z veio me buscar e me levou na cama at l. Mais uma
voltinha pelos corredores do hospital.

-- Prontinho, minha menina, depois eu venho te buscar -- me entregou pra outros
enfermeiros de roupa azul e mscara. -- Olha, cuidem bem dela.

Entrei na sala de cirurgia. Me mudaram de cama. Era cheia de televises que faziam pi-pi-
pi. Um enfermeiro comeou a injetar alguma coisa no meu soro. Um outro colocou um
pregador no meu dedo. Pregador no meu dedo? Olhei prum lado, mesa com bisturis.
Olhei pro outro, o dr. Laparoscopia se aproximando. Ai, minha jugular! Por que  que eu
tinha que t-lo chamado de veterinrio? Apaguei.

Acordei, no sei quanto tempo depois, no meu quarto. Abri os olhos e reconheci o
ambiente. bom, acho que ainda estou viva.

O resultado da bipsia veio depois de uns dias: tuberculose. Mas o dr. Anjo j foi logo
avisando que aquilo era uma boa notcia. -'

-- Pensamos que fosse coisa pior.

235
-- Eu sei, podia ser cncer, linfoma. Voc pensa que eu no leio? E agora?

-- Agora ns vamos comear a te tratar com o esquema trplice.

--  contagioso?

-- No. Se fosse eu estaria de mscara. S  contagioso quando  no pulmo.

No outro dia, apareceu o dr. Infecto. Disse que ainda precisaramos checar o rim. Seria
muita sorte que eu tivesse com tuberculose nos dois rins tambm. Trouxe outro mdico, o
dr. Urologista. Esse era legal.

Foi chegando calmamente, se apresentou, pegou um papel, um lpis, fez o desenho de meu
rim e comeou a explicar tintim por tintim o que ele iria fazer. Enfiaria uma agulha bem
comprida pelas minhas costas, que iria at meu rim e da pinar um pedacinho do tecido pra
examinar no laboratrio.

-- E eu vou ficar furada? -- J imaginei vazando lquido pelas costas. Decididamente duas
semanas de hospital so pra deixar qualquer um idiota da cabea.

-- Claro que no, n, Valria! Isso fecha sozinho.

-- T, ento fura.

Mais uma vez, centro cirrgico. Anestesia no soro, pregador no dedo. Pra que serve esse
pregador no dedo? Apaguei.

O resultado da bipsia foi o mesmo: tuberculose. Comecei ento a tomar os remdios.
Horrveis! Davam um enjo tremendo! Eu vomitava o dia todo, eram to fortes que
deixavam o xixi vermelho, o vmito vermelho, at o coc era vermelho. Que nojo, nojo de
tudo e eu no podia sentir cheiro de nada. E barulho? Qualquer barulhinho me irritava. O
dr.

236
Anjo explicou que a tuberculose deixa a gente com o olfato e a audio supersensveis, mas
iria passar.

O dr. Laparoscopia veio tirar os pontos do pescoo, o dr. Uro veio ver como eu estava.
Mais um ultra-som do rim. No parava de vomitar. Uma endoscopia: sapinho, candidase
no esfago, mais remdio. Infeco vaginal, chama o dr. Ginecologista, meu velho amigo,
dr. Ginecologista.

-- No agento mais, no agento mais.

-- Calma, voc vai ficar boa.

Estava tambm com candidase vaginal. Muito comum em mulheres com AIDS. Ele me
receitou um creme.

No parava de vomitar. Outra endoscopia: o sapinho sarou. Agora tem gastrite. Enjo dos
remdios. No posso ver comida. E mais um dia e mais outro.

Que tdio.

E mais um dia. "No agento mais esse quarto vazio, essa cama, viver de pijama. Ligo a
televiso, desligo, no agento mais televiso. Olho pra minha me, ela est no sof lendo
um livro. Deve ser engraado. Leio a capa: Incidente em iAntares, de rico Verssimo.
Pena que eu no tenha tido vontade de ler ultimamente. E esse tempo no passa..."

-- Me? Me? -- no falei que elas ficam surdas quando lem? - ME!

- Qu, filha?

-- Que horas so?

-- Quatro horas.

-- bom, pelo menos daqui a pouco o dr. Anjo vem me fazer uma visita.

-- Me, que horas so?

-- Quatro e meia.

-- Puxa, o dr. Anjo t demorando...

-- Que horas, mesmo?

237
-- Cinco horas.

-- Caramba, o dr. Anjo t atrasado!

-- E agora, que horas so agora?

-- Seis e meia.

-- O dr. Anjo me esqueceu,  isso, ele esqueceu de vir me ver, vai ver j passou pra ver
todo mundo e esqueceu de mim!

-- Calma, filha, no  nada disso. Vai ver que ele hoje nem veio. Hoje  feriado.

-- Feriado? Que feriado?

No hospital todos os dias so iguais. Segunda, que  igual a tera, que  igual a sbado...

"Ah , vai ver que ele foi viajar. Que bom... os mdicos precisam descansar de vez em
quando. Deve ser um saco ficar olhando s pra cara de gente doente todo dia. Que bom que
ele foi descansar..."

Virei pr lado e dormi. Dormi um dia e mais outro e mais outro.

-- Opa, vamos acordar!

-- Dr. Anjo, voc voltou?! Onde  que voc estava?

-- Fui viajar um pouquinho. Os mdicos tambm podem passear de vez em quando, n?
Mas voc v que coisa, sa de So Paulo pra pegar chuva no litoral.

-- Ah, ? -- bem feito, pensei. Quem mandou me abandonar nesse hospital sem graa.

-- E voc, como  que est?

-- Muito mal. Voc vai viajar de novo?

-- No, agora vou ficar bastante tempo sem viajar. Ele comeou a me examinar. Pescoo,
barriga, corao.

-- No t vendo nada de mal aqui. Acho que voc est at melhor.

-- Me proibiram de tomar refrigerante.

--  por causa da gastrite.

238
J no posso fazer nada nesse hospital e ainda me probem de tomar refrigerante. Deixa eu
tomar um pouco, s um pouco, vai.

-- T bom, no precisa chorar, eu deixo. Mas voc tem que se esforar pra comer mais. T
muito magrinha.

- Enjoei da comida daqui.

- Eu sei, comida de hospital enjoa mesmo. Quer pedir pra algum trazer alguma coisa de
fora?

-- Pode, mas no vai abusar.

O dr. Anjo era o mximo, ele deixava eu fazer tudo.

-- Posso tambm parar de tomar o remdio vermelho?

- No!

Bem, ele deixava quase tudo.

A essa altura, os parentes (da famlia da minha me, principalmente, que  enorme)
comearam a ligar direto pro hospital. Meus avs de Corumb, minhas tias de Campo
Grande, de Braslia, do Rio. "Mas que tanto essa menina fica no hospital? Bipsia de
gnglio? De rim? Tuberculose? Tuberculose renal?! Existe isso?" Ligavam pra saber como
eu estava: "T bem? Mas por que ainda no te deram alta?". Uma desculpa aqui, outra
enrolada ali. E minha pacincia comeou a se esgotar.

Se eu estivesse com cncer, j estava todo mundo sabendo. Por que  que AIDS no se
pode falar?  algum crime ter AIDS, por acaso? Ou  porque est associada  palavra
morte? Ningum vai morrer, n? S eu. Ou ser que  porque eu Peguei transando?
Ningum transa tambm na face da terra?

Cansei de papo. Cansei de ter a doena proibida, a palavra no pronuncivel. Por mim,
colocava uma placa na porta do quarto: AIDS! Quem quisesse que ficasse do lado de fora.

239
E s no mando escrever no meu tmulo "Aqui jaz Valria Piassa Polizzi que morreu de
AIDS" porque no quero ser enterrada, e sim cremada!

-- E... Bem... T certo, se voc prefere assim, a gente comea a contar. Mas no por
telefone, minha filha.

-- T, quando der.

Tia Adia chegou de Manaus. Minha prima iria prestar vestibular no Rio, ento eles
passaram uns dias aqui. Eles j sabiam. Foi bom ter mais gente por perto. Ainda mais que
essa minha tia tinha tido cncer na cabea havia uns trs anos, feito operao, ficado
semanas internada ali mesmo no Einstein. Depois de meses de quimioterapia, ficou careca,
com a boca cheia de feridas, o rosto inchado. Mas agora ela estava ali, com seu um metro e
oitenta de altura, loira de olhos verdes, linda, saudvel. Eu gostava de olhar pra ela. Era
como se fosse minha luz no fim do tnel. Sem contar que falava mais que a boca,
conversvamos o dia todo, sobre filmes (ela tambm adora cinema), sobre livros, me
contava de Manaus, da viagem que tinha feito pro Oriente...

Quando estava muito desanimada, me trazia revistas de turismo, com fotos do mundo todo.

-- Voc tem que ficar boa pra continuar viajando, voc no falava que queria conhecer
cada canto desse mundo? -- E me mostrava fotos de lugares bonitos. Ilhas Maldivas, de
areia branca e gua azul-turquesa.

Meu tio, seu marido, tambm me paparicava o dia todo.

-- Voc tem que comer. Fala pro tio, pede o que voc quiser que eu vou buscar.

-- No consigo comer, tio.

-- Pensa numa coisa. Uma coisa que voc tenha vontade. Pensa.

-- Sei l, esfiha.

240
Depois de meia hora ele voltou com uma bandeja cheia.

-- Tem que comer pelo menos uma, fora!

Me sentei na poltrona ao lado da janela. Acho que demorei mais de vinte minutos pra
comer aquela esfiha. Vomitei tudo depois. Mas comi.

No dia seguinte, visita do tio Dure. Fofo como sempre, mas com os olhos tristes. J haviam
contado pra ele.

-- Olha, Preta, o que eu trouxe pra voc, arroz com lentilha, que a sua tia fez
especialmente.

Consegui comer outro pouco.

E mais um dia, e mais outro.

Numa manh, o dr. Infecto entra no quarto:

-- Voc precisa engordar, t muito magra.

-- Lgico, s vomito. Esse cheiro de hospital...

-- J sei o que voc tem: hospitalite. T na hora de ir pra casa.

-- Voc vai me dar alta?!

-- Se voc prometer que vai comer e engordar.

Ele pegou um bloco de receiturio, escreveu o nome de alguns exames e deu pra minha
me, pra que eu fizesse depois. J fiquei brava. Por que  que no deu pra mim? No mnimo
j me achava incapaz de cuidar dos meus papis. Mas pior do que isso, pegou um vidro de
DDI e deu a ela, explicando como eu deveria tomar. Ser que ele achou que eu era burra e
no sabia que aquilo era um similar do AZT? Algum, por acaso, me perguntou se eu
queria tomar aquilo? Tive vontade de comear a berrar ali mesmo. Mas tratei de ficar
quieta. Agora, sim, eu queria sair dali o mais rpido possvel.

Liguei pro meu pai. Logo ele veio me buscar. Fechou a conta do hospital, eu me despedi
dos meus amigos enfermeiros e deixei um beijo pro dr. Anjo.

241
Fui pra casa com a veia pega. Teria que continuar tomando um frasco de soro por mais
alguns dias. Pra isso contrataram um enfermeiro que iria at l  tarde aplicar a medicao,
a partir do dia seguinte.

Fiquei feliz de estar de volta  casa. Pelo menos mudaria um pouco de ambiente, de cores,
de vista da janela.

Meus tios de Manaus, que estavam hospedados num hotel, ficaram por l at de noite. Meu
pai achou melhor ir pro apartamento de Santos. Minha me disse que iria ficar comigo, e
ele no quis arrumar confuso.

Estava tudo muito bom pra ser verdade. Mas logo, logo saiu uma briga. Minha me
comeou a dizer que, no dia seguinte, eu teria de fazer os exames, mas eu disse que ela
estava equivocada, que os exames s deveriam ser feitos no final da semana. Ela se virou e
disse: "Voc vai fazer amanh e pronto!".

Acho que eu tenho um problema com este tipo de conduta. A coisa que eu mais detesto
neste mundo  gente apontando o dedo no meu nariz e me dando ordens. Vai ver que
comeou na infncia. Fui criada numa escola Montessoriana, onde os alunos ficavam soltos
numa classe cheia de atividades, cada um fazendo o que bem quisesse. Tnhamos um prazo
para a entrega dos trabalhos, mas quando e como faramos, cada um que escolhesse. Os
professores, "as tias", estavam l pra responder perguntas e ajudar com o que fosse
possvel. No pra ficar dando ordens e fazendo imposies, todo mundo era tratado igual,
inclusive as crianas excepcionais, que tinham classes especiais, mas ficavam na mesma
escola.

Assim, crescamos mais independentes e cientes de nossas obrigaes. Por outro lado,
completamente desacostumadas a serem manipuladas. com doze anos, quando quis morar
com meu pai, tive que mudar de escola, por causa da distncia. Pastei dois anos no mtodo
tradicional. No entendia, pra

242
comear, a distribuio das carteiras, uma atrs da outra, estava acostumada a sentar em
crculo. E aquelas professoras l na frente, dando ordens, lies, como sse s elas fossem
donas do conhecimento. Ningum mais podia abrir a boca, dar uma idia. Ser que
ningum ali dentro sabia pensar com a prpria cabea?

No colegial, mudei de escola de novo. Dessa vez para uma que fosse meio-termo, pelo
menos. Mtodo tradicional, mas professores que levavam em conta nosssas opinies. E por
que no dizer nosso potencial?

E agora, ali, minha prpria me me dando ordens como se eu j estivesse incapaz de
raciocinar por mim mesma. Na hora de tomar DDI, ento, nem se fala, quase enfiou aquele
comprimido gigante, amassado em forma de papa, pela minha goela abaixo. Tomei, mas
tambm vomitei tudo e, depois de muita discusso, resolvemos dormir.

Tive um sonho. Uma bolinha se cdesprendendo da minha barriga. Que sonho mais
esquisito. Acordei com vontade de fazer xixi. Fui sem acender a luz ao banheiro que fica
dentro do meu quarto. Voltei pra cama, me deitei, mas, dois minutos depois, vontade de
fazer mais xixi. Fui. Voltei, deitei. De novo. E de novo. Caramba, como  que podia sair
tanto xixi assim de mim? Mas estava muito cansada pra pensar. L pela quarta vez minha
me acendeu a luz.

-- Que tanto voc vai ao banheiro?

-- Sei l.

-- Voc est menstruada?

-- No, por qu?

Olhei minha calcinha, suja de sangue. Levantei novamente pra ir ao banheiro, minha me
veio atrs. E antes que eu desse a descarga ela olhou. Puro sangue.

243
-- Meu Deus, voc est tendo uma hemorragia! -- Ela correu pro telefone. -- Vou ligar
pr dr. Infecto.

-- No vai incomodar ningum agora -- eu disse, meio tonta.

Ela berrou alguma coisa, mas eu no entendi. Voltei pro quarto e me joguei na cama. J
estava muito, muito mole, comecei a ver tudo embaado e fui perdendo a conscincia. E
vai, vai, vai... como se eu estivesse saindo de mim mesma, e volta, volta, volta, volta,
quarto de novo. Mais xixi, andei at o banheiro me segurando na parede, sentei no vaso,
ficou tudo preto, fiz xixi, voltei pro quarto. Quase no consegui chegar at a cama. E vai,
vai, vai, vai... e volta, volta, volta. Ouo l longe minha me, que estava bem ali no
telefone, dizer algo sobre ambulncia. E vai, vai, vai, vai... vai...

244
15. Para isso servem os anjos

O que  isso? O que t acontecendo? Em vez de perder os sentidos, parecia que eu estava
mais consciente ainda. Que lugar  esse? Um lugar sem formas, sem corpo, sem dimenso,
s conscincia. Lucidez. Paz  a morte,

pensei. Era isso, eu estava morrendo. Morren... volta, volta, volta, volta, quarto de novo.
Minha me histrica no telefone. Da prxima vez eu vou de vez, eu pensei. Que pena que
meu pai no est aqui, queria v-lo pela ltima vez. Olhei pra escrivaninha, pensei em
deixar-lhe um bilhete. Mas no teria foras. Tambm, escrever o qu? Que eu o amava
muito e que ele tinha sido muito importante pra mim. Acho que ele sempre soube disso.
Vai, vai, vai, vai... volta, volta, volta. Meu quarto de novo. Cad a paz? Eu quero ir pra
aquele lugar. Quero ficar l pra sempre. Vai, vai, vai... volta, volta, volta... meu quarto, um
homem gordo de branco olhando pra mim.

245
-- O que  que ela tem?

-- Como o que  que ela tem? Voc que  o mdico e eu que vou saber? -- minha me
chorando.

Um outro, negro, alto, forte, saiu do quarto dizendo que iria buscar uma cadeira de rodas.
Ele deveria ser o enfermeiro.

-- Cadeira de rodas no d -- eu disse --, you desmaiar.

-- A maca no cabe no elevador.

Apaguei. Agora estava indo e voltando mais rpido. Acordei sentada na cadeira, o
enfermeiro me segurando dentro do elevador. Apaguei. Acordei deitada na cama, saindo do
prdio. Ouo uma voz, devia ser do porteiro. "Nossa,  a menina, eu achei que fosse a av!"
Apaguei. Acordei dentro da ambulncia. O enfermeiro, nervoso, suado, trabalhando rpido.
Tentava ajeitar o soro, olhava pra mim e dizia:

-- Calma, calma, vai dar tempo.

Achei graa. Eu estava calma, o nervoso era ele.

-- Pronto, pronto -- ele disse.

A sorte foi que eu estava com a veia pega. Assim que ligou o soro, comecei a me sentir
melhor.

Quando cheguei ao hospital, me levaram para o pronto-socorro e, de l, at uma sala para
tirar raio X. "Eu estou com hemorragia e eles vo tirar raio X? Acho bom chamarem o meu
mdico, j vi que esse povo daqui no manja nada." Me largaram numa cama dura de ferro,
sozinha numa sala. Comecei a sentir dor e de novo uma vontade enorme de fazer xixi. Uma
enfermeira entrou.

-- Moa, por favor, eu preciso fazer xixi. D pra voc me trazer uma comadre? -- aquele
negcio de fazer xixi deitada.

-- T, j vai.

"J vai" e continuou ali, mexendo em alguma coisa.

-- Moa, por favor, eu no estou agentando de dor!

-- J ouvi!

246
J ouvi e ficou ali parada. Pronto. Acabou minha educao, subiu o sangue, o sangue
siciliano.

-- Puta que pariu, caralho, me traz essa porra, seno eu vou mijar aqui mesmo!

A sim ela resolveu se mexer, mas a j era tarde, a dor insuportvel. Continuei berrando.

-- Me tira daqui que vocs no sabem porra nenhuma. Eu quero ir pro meu andar, pro meu
quarto, pros meus enfermeiros. Eu quero o dr. Anjo!

Algum abriu a porta, tia Adia tinha chegado no hospital.

-- Calma, Valria, a gente j vai te levar l pra cima. J ligaram pro seu mdico.

Me levaram pro meu andar. A enfermeira da noite veio me receber.

-- O que aconteceu, minha querida, voc saiu daqui hoje.

-- No sei, no sei. T fazendo xixi de sangue. Manda essa bruxa sair do meu quarto! --
era pra enfermeira idiota l de baixo. -- Cad a Jlia, cad o dr. Anjo?

-- Calma, a gente j ligou pra ele.

-- Liga de novo. Ele vai dormir, ele vai me esquecer aqui.

-- No vai, calma.

-- Me d um remdio pra dor. Eu no t agentando de dor. T doendo muito!

Ela aplicou alguma coisa dentro do soro.

-- Pronto, Valerinha, daqui a pouco j vai passar.

-- Eu preciso fazer xixi outra vez.

-- Vamos fazer o seguinte? Eu vou colocar uma fralda de adulto em voc. Da voc faz
xixi  vontade e no precisa ficar se mexendo, t bom?

-- T,  melhor, que meu rim t doendo muito! O dr. Anjo j t vindo? Esse remdio no
vai fazer efeito?

-- J vai passar, calma.

247
E passou. Dez minutos depois eu estava dando risada. Dando risada?

-- Tia Adia, chega aqui. No conta pra ningum, mas sabe, me deram um whisky muito
bom, t bebaa!

Minha tia olhou assustada pra enfermeira.

-- Isso s vezes acontece,  reao do remdio, Valerinha, agora fica quietinha e dorme.

-- Que dormir o qu? Agora eu quero  uma festa! Tem outro whisky a?

Tia Adia ficou ao meu lado, no sabia mais se chorava ou se ria. E eu fiquei falando
besteira at dormir.

No dia seguinte, acordei um caco. Dr. Infecto veio me ver.

-- O que aconteceu? -- perguntei.

Ele deu uma enrolada. Aposto que no sabia o que estava acontecendo.

-- Est tudo sob controle -- ele disse.

T bom, faz de conta que eu acredito.

-- E olha, ela no quis tomar o remdio -- era minha me dando o ar da graa.

-- Tudo bem. Vamos deixar assim por enquanto.

Acho bom mesmo.

Meu pai chegou de Santos.

-- Minha filha, que susto que voc me deu!

-- Pai, que bom que voc t aqui! Eu quase morro.

Ele passou a mo na minha cabea, me deu um beijo e mudou de assunto. As pessoas no
gostam de falar de morte.

-- E que negcio  esse de ficar brigando com a sua me, hein?

-- Ela que fica me enchendo o saco.

-- Ento agora descansa que voc t muito fraca. Dorme, filha.

248
 tarde, veio o dr. Anjo. Estava com cara de preocupado.

-- Por que eu t fazendo xixi de sangue?

-- A gente ainda no sabe. Mas vamos descobrir, t?

-- T doendo muito.

-- J vo dar mais remdio. Ele me examinou. Pescoo, barriga, corao. -- Voc perdeu
muito sangue. Vamos ter que fazer outra transfuso.

-- De novo?

-- Voc vai se sentir melhor...

Veio o tio do banco de sangue. Tudo a mesma coisa. S que dessa vez duas bolsas. Ele
ligou o sangue  agulha borboleta no meu brao e dosou a velocidade certa.

-- Daqui a pouco eu volto -- disse.

E eu fiquei l mais uma vez recebendo um saquinho. Olhei pra bolsa de sangue presa ao
pedestal. Fiquei imaginando de quem seria. Quem o teria doado. Tentei me levantar pra ver
se tinha algum nome, telefone. Eu poderia ligar e dizer: "Ei, obrigado, seu sangue me fez
muito bem". Que idia boba.  lgico que no tinha nome nem telefone, os doadores so
annimos. Nunca saberei quem foi a pessoa que um dia foi at aquele hospital e fez a
doao. Aproveito ento pra agradecer aqui a todos aqueles que j tenham doado sangue
uma vez na vida. E principalmente queles que doam sempre. Vocs me ajudaram a sarar.

No dia seguinte, estava me sentindo muito melhor. At minha cor havia mudado.
Impressionante. Mas ainda doa pra andar. Continuava a ter que fazer xixi deitada. No
sabia por qu, mas, se sentava, o xixi no saa.

249
Fiz mais um monte de exames, de urina, de sangue, ultra-som, tomografia, ressonncia
magntica etc.

E mais um dia e mais outro.

Chegou a hora dos meus tios irem embora. Eu j sabia que eles tinham que ir, mas, na hora
da despedida, agarrei na tia Adia e comecei a chorar. No queria que ela sasse de perto de
mim de jeito nenhum.

-- Vo vocs, vou ficar mais uns dias. Depois eu pego um avio e a gente se encontra no
Rio.

E ficou ali do meu lado, tentando me animar, me mostrando revistas. Ilhas Maldivas... areia
branca e gua azul-turquesa... Mas eu comeava a duvidar se algum dia voltaria a pisar
numa praia.

-- T com uma dor aqui.

- No esfago?

-- No sei,  aqui dentro.

-- Mas no deu nada na sua ltima endoscopia.

-- Mas t doendo, t incomodando, t ruim!

-- Eu sei o que  isso, Valria, tambm tinha essa dor quando estava no hospital. Chama
angstia -- tia Adia disse.

-- Ento me d um remdio.

-- No existe remdio pra isso.

Legal! J inventaram remdio pra sapinho, pra gastrite, pra tuberculose, j foram at
passear na Lua, mas a tal da angstia ningum decifrou. Em matria de sentimentos, o
homem continua na Idade da Pedra.

Fechei os olhos e comecei a lembrar de coisas pra tentar me acalmar. Tia Adia ali de mos
dadas. Lembrei de um quadro que havia antigamente na casa de meu av, uma paisagem
bonita com uma rvore cada. Fiz de conta que estava passeando dentro dele. Lembrei das
esculturas de mrmore branco do museu de Malibu. Fiz de conta que eu tinha virado uma

250
delas. Lembrei do ltimo filme que eu havia visto nos EUA, O piano, passado na Nova
Zelndia. Lembrei de uma cena, uma moa tocando piano numa praia deserta e uma criana
brincando por perto, fiz de conta que eu tambm estava l, ouvindo a msica...

Num outro dia, o dr. Anjo entrou no meu quarto dizendo que eu teria que passar uma sonda,
j que no conseguia fazer xixi. No sei por qu, mas sempre tive pavor desse negcio de
sonda. Nunca tinha usado, mas s de imaginar um caninho entrando pelo meio das minhas
pernas j me dava a maior aflio.

-- No vou fazer isso. No mesmo!

-- Voc no disse que est com dor, que no consegue fazer xixi?

-- Disse, mas sonda eu no passo.

-- Eu j fiz isso vrias vezes quando estava aqui internada, no di.

-- Tia Adia, vai mentir pra outro.

-- T falando srio. No di mesmo.

-- Chega de frescura, val -- o dr. Anjo falou.

-- Frescura porque no  em voc!

-- Eu preciso do seu xixi pra um exame. Vou chamar a enfermeira.

-- No, espera. Voc fica aqui.

-- T, eu fico. Deixa eu s chamar a enfermeira. Ele voltou com ela.

-- Olha aqui, Valria, olha o tamanhinho disso.  a menor sonda que tem. A gente usa isso
em recm-nascido.

A enfermeira ajeitou minhas pernas em forma de borboleta. Segurei a mo do dr. Anjo, que
estava ao meu lado e comecei a berrar.

251
-- Que escndalo, ela nem comeou ainda.

-- Ah, no?  que eu t com medo.

-- Pronto, agora j foi. Viu, voc nem sentiu!

Ela puxou todo o xixi, pela uretra, com um canudinho e uma seringa.

-- Isso. Acabou. No est se sentindo mais aliviada agora?

-- T. Por que  que t saindo com sangue?

-- Ainda no sabemos. Por isso  que precisamos fazer mais exames. Volto amanh; tchau,
escandalosa!

Quem apareceu depois, pra dar notcia do que havia acontecido, foi o dr. Uro. Sentou-se 
beirada da minha cama:

-- J descobrimos o que aconteceu. Aquele dia da puno no seu rim, quando introduzi a
agulha, acabou lesando uma veia. Por isso voc teve hemorragia.

-- Que falta de pontaria, hein? -- brinquei.

-- Voc me desculpa, essas coisas s vezes acontecem. Achei aquilo bonito. O dr. Uro, que
provavelmente deveria ser um dos melhores mdicos de sua especialidade, sentado  beira
da minha cama, se desculpando. Errar  humano, pedir desculpas  divino.

-- No tem importncia -- eu disse -, posso s fazer uma pergunta? Por que, ento, no me
avisaram que isso poderia acontecer?

-- Sabe, se a gente fosse avisar ao paciente tudo que poderia acontecer cada vez que ele
entrasse num centro cirrgico, ningum mais faria cirurgia. Seria a mesma coisa que se a
cada vez que voc entrasse num carro eu dissesse: "Olha, se voc bater o carro, pode bater
a cabea, se bater a cabea, pode ficar paraplgico, se ficar paraplgico...".

-- J entendi, j entendi. E agora?

252
-- Agora ns vamos cauterizar essa veia com uma agulha que entrar mais ou menos por
aqui, na altura da virilha, e vai at o rim.

-- E se furar outra vez?

-- No, no fura.

- Quando  que voc vai fazer?

-- Amanh, t? S que no serei eu.

- Mas eu queria que fosse voc.

--  que essa no  minha especialidade. Mas chamamos um mdico muito bom.

-T.

-- Eu ainda volto aqui pra te ver.

-- At ento, dr. Uro. E obrigada.

No dia seguinte, cedo, fui pra outro centro cirrgico. Uma enfermeira de mscara me
ajeitou na cama.

-- Quem  o mdico? Eu queria conhecer o mdico.

-- Ele j vem -- ela disse.

Antes que chegasse, porm, comecei a ficar tonta. Acho que j tinham colocado a anestesia
no soro. Apaguei. Um tempo depois acordei, um lugar escuro. Dor, muita dor. Uma
televiso fazia pi-pi-pi. Um pregador prendia meu dedo. De p ao meu lado um homem de
mscara.

-- Posso ver o seu rosto? -- pedi.

Ele no me ouviu, ou fingiu que no me ouviu. Olhei pro outro lado, uma mulher, tambm
mascarada. S via seus olhos grandes, castanhos, de clios compridos. Levantei a mo para
tentar tirar sua mscara. Ela me segurou.

-- Procure ficar quieta.

-- Ento me d mais anestesia. T doendo muito.

-- No podemos. Voc tem reao, se esqueceu?

-- Ento me mostre o seu rosto, eu preciso ver seu rosto.
253
Ela no mostrou. Ningum mostraria. Por que todo mundo anda de mscara por a? O que
escondem? Somos todos iguais. Viemos do mesmo lugar, iremos pro mesmo lugar. Tirem
as mscaras! Deixem-nos ver seus rostos! Se olhem no espelho!

Acordei berrando no quarto.

-- Calma, minha filha, voc est sonhando.

-- Cad o dr. Anjo? Eu t passando mal. Tira essas pessoas do meu quarto!

-- O dr. Anjo j vem. Ela est delirando de novo.

-- Chama o dr. Anjo!

-- T aqui, t aqui, j cheguei. Calma. O que aconteceu?

Eu continuava enxergando tudo turvo. Uma dor insuportvel, medo, agonia, lembranas
ruins. Se existe um inferno, era l mesmo que eu estava. Continuava a gritar e a dizer um
monte de coisas. O dr. Anjo ficou ali, ao meu lado. Segurou minha mo e disse que eu
podia chorar o quanto quisesse. Mais tarde eu soube que meus berros foram ouvidos por
todo aquele andar. O dr. Anjo conversou comigo, me acalmou e depois deu uma injeo pra
dormir. E eu adormeci segurando em suas mos.

s vezes, acontecem coisas na vida da gente que nos fazem desacreditar de tudo.
Desacreditar da prpria vida, do amor e dos seres humanos. Mas  pra isso que existem os
anjos, pra nos fazerem reacreditar em tudo e continuar vivendo.

Uns dias depois, tia Adia foi embora pro Rio, com a incumbncia de contar tudo pros
parentes de l. Eu no estava mais com medo do preconceito. Apesar da poca, supus que
minha famlia fosse inteligente o suficiente pra no me discriminar. S o que me
preocupava era aquela indissolvel associao

254
que se fazia de AIDS com morte. No que eu tenha algo contra a morte. Ela simplesmente
faz parte da vida. E, se pensarmos bem,  a nossa nica certeza. Mas a maioria das pessoas
se julga to imortal que se assusta com uma notcia dessas. Fazem um drama to grande,
como se morrer fosse um crime. Cheguei a me sentir culpada por estar ali no morre-
nomorre. At que me dei conta de quo ridcula era aquela situao. Morreu, morreu,
gente, acabou e pronto, sai e vai comer uma pizza! Que saco! Alis, a sociedade devia dar
uma repensada nessa histria de morte. Velrio, por exemplo, algum poderia me explicar
pra que serve isso? Um morto l deitado e um bando de infelizes chorando  sua volta.
Revoltante! Se algum dia fizerem isso comigo, sou capaz de ressuscitar ali mesmo e
mandar todo mundo pra casa.

Talvez devssemos fazer como as crianas. No entender e pronto. (No entendemos,
mesmo.) Quem sabe at rir!

Me lembro do meu primeiro contato com a morte de verdade. Eu tinha uns sete anos.
Minha me chegou em casa avisando que o vov havia morrido. "Vou contar uma coisa
triste", ela disse antes. Da deduzi que morrer era triste. Minha irmzinha, que quela altura
no deduzia nada, perguntou: "E a vov?". "A vov? Bem... A vov ficou viva",
respondeu minha me. Acho que minha irm ainda no conhecia aquela palavra, pois caiu
na risada, correndo pelo quarto, subindo e pulando em cima da cama e gritando: "A vov
ficou viva! A vov ficou viva!", deixando minha me com cara de besta. E eu? Eu j no
sabia mais se aquilo era pra rir ou pra chorar. Mais tarde meu pai me deu uma boneca linda,
dizendo que o vov havia partido mas se lembrara de me deixar um presente. E eu passava
o dia inteiro com a boneca pela casa. Decididamente, aquilo no tinha nada de triste! E os
adultos deveriam fazer a mesma coisa. Em vez de ficar chorando pelos

255
cantos, por que no se lembrar de tudo de bom que quem partiu lhe deixou?

Naqueles dias, e em outras ocasies tambm, pensei muito em eutansia. Ia at escrever um
captulo aqui sobre isso. Mas cheguei  concluso de que se trata de algo extremamente
pessoal, logo cada um que trate da sua e combine o que quiser com seu mdico. Acredito
que todo ser humano sabe exatamente sua hora de morrer. E s espero que respeitem minha
opinio.

Depois de uns dias, voltei a fazer xixi normalmente. Me explicaram tambm que antes eu
no conseguia fazer sentada, pois a bexiga estava com alguns cogulos que entupiam o
canal da uretra. O dr. Uro passou sonda mais duas vezes pra limpar tudo. Comecei a me
sentir melhor.

Recebi mais algumas visitas, de amigas da minha me, da famlia do scio do meu pai e
seus dois filhos, com quem eu costumava trabalhar. Lembro que um deles me levou rosas
brancas.

-- Que lindas, eu adoro rosas brancas!

-- Estamos rezando por voc, viu? Queremos que voc sare logo. Inclusive pra voltar a
trabalhar, t cheio de servio l te esperando - ele brincou. E eles tambm j sabiam que eu
tinha AIDS.

O resto da famlia, que tambm acabara de descobrir, continuava ligando, desejando boa
sorte. Mesmo aqueles que eu no via fazia muito tempo. Isso  que  famlia! Solidariedade
comea em casa.

E mais um dia e mais outro.

O dr. Infecto continuava a passar l todas as manhs. Chegava com sua armadura de ferro
estilo medieval, daquelas

256
que cobrem at o rosto, me examinava, dava o relatrio e saa. Eu at que tentei consertar a
situao, oferecendo a ele aquele livro que lera nos EUA. Ele, lgico, nem tomou
conhecimento. E eu, ainda por cima, levei uma bronca do meu pai. "Voc no tem
vergonha, minha filha, de dar um livro de um mediquinho americano pr melhor
infectologista do Brasil?" Mediquinho, mas pelo menos enxerga que paciente  gente. E
quer saber do que mais? Se o dr. Infecto quer continuar burro, azar dele! Agora eu tenho o
dr. Anjo pra cuidar de mim, quero mais que ele se dane!

E iria continuar tudo assim. Se num belo dia no acontecesse uma coisa, uma nica
coisinha que mudasse tudo.

Estava ele l, como sempre, feito um poste, com as mos nos bolsos, dando o relatrio do
dia. Eu nem estava prestando muita ateno quando, de repente, sem mais nem menos, sem
pedir licena, sem nenhuma cerimnia, ele se virou, enfiou a mo numa caixa de
salgadinhos, que algum havia me dado de presente e estava sobre a geladeirinha, tirou uns
dois e comeou a com-los. E ficou ali, dando as notcias e mastigando.

E foi a que eu percebi que por trs daquela armadura ridcula tinha uma pessoa sim. Uma
pessoa como outra qualquer. Uma pessoa que sentia, que tinha vontade. Humano bastante
pra passar a mo nos meus salgadinhos e com-los bem ali, na minha frente.

Lembrei ento de uns cinco anos antes. Da nossa primeira consulta. E de como deveria ter
sido difcil pra ele olhar pra uma menina de dezoito anos e dizer: "Voc est com o vrus da
AIDS". No tempo em que isso era praticamente sinnimo de morte.

De como deveria ser difcil pra ele entrar ali, todos os dias, no meu quarto e dar as notcias,
sendo elas boas ou ms.

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-- ... Ento  isso -- ele havia terminado o relatrio --, amanh eu volto aqui -- se virou e
j ia saindo do quarto quando chamei.

-- Dr. Infecto, espera!

-- O que foi?

-- Pega mais um salgadinho.

Ele voltou sorrindo. Enfiou a mo na caixa, pegou um monte e saiu mastigando todo feliz.

, as coisas mudam...

Num outro dia, enquanto eu estava sentada na poltrona perto da janela, ele entrou, puxou
um banquinho e se sentou ao meu lado. Puxou um banquinho e se sentou ao meu lado?!
Olhei pela janela. Vai chover!

-- Ns precisamos ter uma conversa... Ter uma conversa?! Vai chover granizo.

E comeou aquele discurso todo para me convencer a tomar AZT. Disse que iria me fazer
muito bem, subir minha imunidade, me ajudar a engordar, me fazer sentir mais forte...

Pra falar a verdade, eu j havia pensado melhor no assunto e tinha decidido tomar. Mas
deixei ele continuar falando, pra tambm no pensar que era muito fcil.

Quando achei que j estava bom, disse:

-- T bom, vai, eu at tomo esse remdio.

Vocs precisavam ver a cara dele. Respirou fundo, aliviado, e disse:

-- Isso, Valria,  assim que se faz! -- e saiu do quarto orgulhoso, como se tivesse ganho
uma difcil batalha.

O que ele no sabe  que eu, ali dentro, tambm respirei fundo aliviada. "Isso, dr. Infecto, 
cumun que se faz!" Eu tambm havia ganho uma.

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Comecei, ento, a tomar AZT. Mais o esquema trplice da tuberculose, mais remdio pra
gastrite. Uns vinte comprimidos por dia. Continuava vomitando feito louca. Tinha dias que
dava um tdio animal. Vontade de desistir de tudo, de mandar tudo pro inferno.

-- Oi, t na hora de tomar banho.

-- No vou tomar banho nenhum, Verinha, e pode apagar essa luz que eu quero ficar no
escuro.

-- Que  isso, menina, t louca? -- ela abria a janela. -- Olha que dia lindo l fora.

Eu virava pro outro lado.

-- No t vendo nada de lindo.

E ento ela se sentava no sof  minha frente e comeava a jogar conversa fora. Me contava
que estava noiva de novo. Pois o primeiro ela tinha mandado passear em cima da hora,
quando at os convites do casamento j estavam prontos. Me contava as histrias com
detalhes, eu achava engraado e, quando percebia, j estava no chuveiro.

Depois do almoo, sempre dava uma andada pelo corredor. Minha me ia do meu lado,
empurrando o pedestal. Eu olhava as janelas do outro lado, o estdio do Morumbi. Parava
pra conversar com a Ju e a Ana Cristina.

Continuava fazendo exames. Um dia, uma moa do laboratrio entrou dizendo que tinha
vindo colher mais um pouquinho de sangue.

-- Tira do p -- eu disse --, no brao no tem mais lugar.

-- Ih, pode deixar que eu sou especialista nisso, sempre arranjo um lugarzinho.

-- T bom, j que voc insiste -- mostrei meus braos a ela.

-- Nossa... , acho que no vai dar mesmo. Mas no p di mais.

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-- No tem importncia, eu dou um berro. Ela ajeitou tudo. Fiquei olhando.

-- Vou dar uma picadinha.

-- Ai! -- e comecei a rir.

-- Que foi, no doeu?

-- Doeu, mas  engraado. E quando no der mais pra tirar sangue do p tambm? Vai tirar
de onde? Da testa?

E mais um dia e mais outro.

Num desses a, minha me saiu e fez muitas compras. Me trouxe presentes, roupas, um
brinco de ouro, uma agenda. Cada um cura sua angstia como pode.

Minha irm chegou de Manaus. Veio me visitar no hospital. J fazia mais de seis meses que
a gente no se via. Ela entrou assustada.

-Oi!

-- Oi, tudo bem? -- eu respondi, sorrindo.

Ela veio com o namorado. Ele me cumprimentou, me deu flores e ficamos conversando.
Minha me tambm estava l. Ela comeou a falar com ele, ela tambm fala mais que a
boca.

Minha irm continuava quieta, s me olhando.  engraado isso, no hospital a gente nunca
precisa de espelho. Sabe-se exatamente como se est atravs da expresso do rosto das
visitas, ainda que elas tentem disfarar. Continuei olhando pra ela, por um minuto achei que
ela fosse comear a chorar. Ela sempre soube que eu tinha o vrus, mas nunca tocamos no
assunto. Me lembrei de uma vez quando ramos crianas e brincvamos de escolinha. Eu, a
professora, comecei a ensinar um monte de coisas que havia aprendido. Ela, lgico, trs
aninhos mais nova, no estava entendendo nada. Olhava pra

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minha cara, ria e dizia: "No entendi, no entendi, no entendi!". Comecei a ficar nervosa.
 assim... e quanto mais eu explicava, mais ela ria e dizia que no estava entendendo nada.
Perdi minha pacincia e disse que ela era burra. Ela riu mais ainda. Rabisquei toda a
lousinha, joguei o giz no cho: "Burra, burra, burra!". Ela ria mais ainda. "Burra, burra,
voc nunca vai aprender nada!". De repente, ela ficou sria, me olhou assustada, como
olhava agora, e desabou em choro. Fiquei desesperada: " mentira, voc no  burra".
Comecei a abra-la, a beij-la. Peguei-a no colo (ela mal cabia no meu colo), at que
parasse, e prometi pra mim mesma que eu jamais a faria chorar outra vez.

Olhei pra ela sentada no sof bem  minha frente e disse:

-- Eu vou ficar bem.

Ela sorriu e comeou a conversar.

Recebi tambm uma visita da Helen. O Carnaval estava chegando e ela tinha conseguido
vir pro Brasil. Estava hospedada na casa de uma outra amiga brasileira.

-- Que bom, Helen, que bom que voc veio. Vai adorar o Carnaval. Vai pular onde?

-- No Rio. Vamos sair numa escola Je Minlm -- ela disse escola de samba em portugus.

-- J t falando portugus, ?

-- S muito prazer e obrigado.

-- Que legal! Voc vai amar sair numa escola de samba. Deve ser muito emocionante.

-- E voc, como est?

-- T indo... Achei um mdico muito legal. E at aquele que era chato t melhor.

-- Quando voc sai?

-- Ainda no sei.

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-- O Lucas esteve l em casa atrs de voc. Ele quase teve um treco quando falei que voc
tinha ido embora. Dei seu endereo a ele.

-- Eu sei, ele me escreveu. Est agora nas Ilhas Fiji, no Pacfico. J me mandou umas duas
cartas. Mas  engraado. Nunca diz o remetente. Acho que tem medo que eu lhe escreva de
volta.

-- Que bobo. Ah, ia esquecendo, eu trouxe o resultado do seu TOEFL. Voc teve uma nota
tima! Suficiente pra entrar na universidade.

-- Srio?! Deixa eu ver. Que legal! Quem sabe um dia, n? Quem sabe.

Uns dias depois, recebi alta outra vez. Mas na hora de ir embora, quando estava tudo
pronto, quase tive um treco. Meu corao batia forte, fiquei tonta.

-- Acho que eu t passando mal. Eu no vou embora, no, Jlia.

-- Calma, senta um pouquinho, isso  assim mesmo  porque voc ficou muito tempo aqui
no hospital, agora t com medo de ir pra casa.

-- T mesmo. Acho melhor ficar aqui. Da eu fico com voc, com a Ana Cristina, com a
Verinha. Tem o dr. Anjo... No quero ir pra casa.

-- Mas tem que ir, minha querida, ficar no hospital sem necessidade  at perigoso. Corre o
risco de pegar uma infeco. A, depois, quando voc sarar, voc vem aqui visitar a gente.

A enfermeira Ana Cristina vinha entrando no quarto.

-- Que foi?

-- Ela no quer ir embora. Ela se sentou ao meu lado.

262
- Qualquer coisa que voc precisar  s ligar pra c. O dr. Infecto e o dr. Anjo tm bip. Vai
ser melhor pra voc ficar em casa agora. Mudar um pouco. Olha, esse aqui  o Uilton -- o
enfermeiro vinha entrando.

-- Oi, tudo bem?

-- Voc  bom de veia? -- perguntei.

-- Eu sou, pode deixar que eu vou cuidar de voc direitinho.

No primeiro dia em casa tive febre. Liguei pro dr. Infecto. Infeco urinria. Toma
antibitico. Depois de uns dias, olho amarelo. Problema no fgado, mais remdio. No
parava de vomitar.

E mais um dia e mais outro.

Dei umas frias pra minha me. Apesar de ela no admitir, estava bem esgotada. Cuidar de
algum doente um ms direto no  mole. Ela foi pra casa da minha irm no interior.

Fiquei com meu pai e minha av. Tia Cia e tio Dure vinham me ver sempre. E, durante
uma semana, o Uilton veio me aplicar o soro. Ele era bom mesmo de veia, nem sentia
quando me furava. Passvamos as tardes conversando, Ele me contava de sua vida, da
filhinha de seis anos, do novo nenm que estava pra chegar...

Certa vez, perguntei a ele se j tinha visto algum com AIDS ficar mal que nem eu e depois
sarar totalmente.

-- J vi sim. E voc no pode se esquecer de que est nas mos de um mdico muito bom.

-- J sei, o melhor infectologista.

- Tambm. Mas no  s nesse sentido. Faz tempo que eu estou l com ele, acompanho seu
trabalho de perto, nunca vi

263
um mdico se dedicar tanto aos seus pacientes. Tudo o que ele puder fazer por voc, ele
far. Ele se preocupa muito com voc.

-- Ah ? Ento por que  que no demonstra?!

Chegou o Carnaval, meu aniversrio, 23 aninhos. Eu estava melhor, conseguia andar pelo
apartamento. Do quarto pra cozinha, da cozinha pra sala de jantar, da sala de jantar pra sala
de visita, da sala de visita pro escritrio. E me sentava, porque j estava cansada.

Liguei pro dr. Infecto pra avisar que j havia terminado os antibiticos da infeco e o
remdio do fgado. Agora estava vomitando um pouco menos.

-- Isso, Valria, que bom, agora voc vai sarar de vez. Fora a, menina! T torcendo por
voc, um beijo!

Fora a?! T torcendo por voc?! Um beijo?! Vai chover granito. com T mesmo.

E mais um dia e mais outro.

Minha vida agora era diferente. Eu vivia num mundo alheio, um mundo devagar, quase
parando, dentro do mundo agitado das outras pessoas; eu estava ali perto, mas era como se
minha dimenso fosse outra. Sentia saudades dos meus amigos enfermeiros, do dr. Anjo,
eles saberiam do que eu estava falando. Sentia saudades at do dr. Infecto, v se pode?

Alis, que nommhe mais feio que fui arranjar pra ele: dr. Infecto, parece nome de vilo. Se
bem que, no comeo da histria, bem que ele merecia... mas agora... Agora acho que vou
dar um nominho melhor pra ele. Deixe-me pensar... dr. Infecto, ecto, eto. J sei, dr. Afeto.

Bem, ento vocs j sabem, o dr. Infecto, daqui pra frente, passa a chamar-se dr. Afeto.
Mas continua sendo a mesma pessoa. A mesma pessoa? Ser?

264
Permaneci ali no meu mundinho alheio. Na vertical. Mas no totalmente alheio, descobri
algum que tambm partilhava dele: Felipe, o co. J falei dele, n? O baMet-hound,
baixinho.

No passado, ns havamos tido algumas desavenas, nada srio. S o achava muito metido.
Ele pensa que  gente. Gosta de ver televiso com meu pai. Detalhe: meu pai sentado no
cho e ele deitado no sof. Rouba comida descaradamente na cozinha, adora mastigar
minhas canetas e meus batons. E seu lugar predileto parece ser o meu quarto.  s esquecer
a porta aberta e l encontro o belo, repousando sobre minha cama.

-- Sai da, Felipe, seu cachorro! i Ele se vira pra mim com seu olhar esbodegado de olhos
vermelhos e bochecha cada e, de orelhas compridas, como quem diz:

- Fal comigo?

-- Sai, seu imbecil!!! - Sem contar a gozao da vizinhana. Quase morria de vergonha
quando tinha que lev-lo pra passear, os comentrios...

-- Olha l que cachorro mais engraado. Quando ele anda, arrasta tudo no cho. As
orelhas, a barriga, at o saco. Hei, por que voc no coloca salto alto nele?

-- H! H! H!, muito engraado!

Naqueles dias, entretanto, no  que o serzinho esquisito me fez companhia? Essa vida d
muitas voltas mesmo. Agora quem pensava que era cachorro era eu.

-- E a, mano, como  que se vive essa vida de co, em meio a essas pessoas de p?

Ele me olhava com seu olhar troncho, como quem diz:

-- Desencana, meu, curte o momento -- virava pro lado e tirava um cochilo. E eu acabava
fazendo o mesmo.

Um tempo depois, por causa do seu cheirinho desagradvel, pra no dizer fedor
insuportvel, pedi a meu pai que lhe

265
desse umas frias. Foi pra casa da minha irm; mas, quando volta, continua tudo a mesma
coisa. Meu pai e ele assistindo televiso. Meu pai no cho e o Felipe no sof.

Liguei pr dr. Afeto, j fazia uns vinte dias que eu deixara o hospital. Andava me sentindo
meio seca, desidratada. Ele havia me mandado tomar dois litros de gua por dia, mas no
estava conseguindo. Me sentia como uma folhinha seca, daquelas que a gente pisa e faz
crec. Ele receitou, ento, mais trs dias de soro. O Uilton foi l em casa. J no primeiro dia,
me senti melhor; no segundo, melhor ainda e, no terceiro, perfeita. S com um detalhe,
estava vendo uma estrelinha.

-- Que estrelinha, filha?

-- No sei, pai. Uma estrelinha colorida,  at bonitinha, bem ali, .

Meu pai no sabia se ria ou se ficava preocupado.

-- Quer que eu ligue pro mdico?

-- No, acho que no precisa. Agora ela sumiu.

O Uilton tirou a agulha borboleta do meu brao. Pedi que ele esperasse um pouco, fui at
meu quarto buscar um negcio. Mas, chegando l, aconteceu algo muito estranho, senti
meu corpo todo repuxar pr lado e comecei a rodar, berrei pelo meu pai, pelo Uilton. Mas
antes que eles chegassem, ca no cho e bati a cabea na parede. E fiquei ali me debatendo
como se estivesse levando um tremendo choque. Meu pai chegou.

-- Meu Deus, o que  isso?

-- Segura a cabea dela.

-- Feche a porta. No deixe minha me ver isso.

De repente, passou tudo. Meu pai foi pro telefone e o Uilton me ajudou a levantar e me
levou pra cama.

-- Que aconteceu?

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-- Fica quietinha, seu pai j t ligando pro dr. Afeto.

-- Ah, Uilton, eu tinha vindo buscar essa boneca aqui. Eu quero que voc leve pra sua
filha.

--  linda, adorei, Valerinha, mas agora eu quero que voc deite e fique bem quietinha.
Isso, assim. Mas no feche o olho! Eu no quero que voc durma, entendeu?

-- Entendi, entendi. Credo, gente, que estardalhao. Que aconteceu?

O que havia acontecido no sei, s sei que aconteceu de novo, e dessa vez mais forte. E de
novo, e de novo. Me levaram pro hospital e l me sedaram; acordei de noite, quebrada,
como se um rolo compressor tivesse passado por cima de mim com uma dor aguda na nuca.

Minha cama estava com grades em volta e cheia de travesseiros, parecendo um bero
gigante.

-- Pra que isso?

-- Colocaram pra voc no cair, filha. O dr. Anjo j t vindo a.

Ele entrou no quarto. No estava sorrindo. J deu merda de novo, pensei. Ele se aproximou
e passou a mo em minha cabea:

-- Como voc est se sentindo?

-- Muito cansada. O que aconteceu?

-- Voc teve convulses. Mas j est medicada, no ter mais nenhuma.

-- Minha nuca est doendo.

--  porque colheram lquor da sua medula para fazer exame de meningite. O resultado sai
amanh. Mas, pela cor, parece que no . Vou te examinar agora, t bem? -- Pescoo,
barriga, corao.

Ele j ia saindo do quarto quando comecei a vomitar. Ele podia ter ido embora, o exame j
havia acabado, mas no, ele voltou e ficou ao meu lado.

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-- Respira fundo e assopra. Isso, vai, de novo. S tem ar no seu estmago, no tem mais
nada pra sair. Assopra. Isso. Pronto, pronto.

Dessa vez fiquei s trs dias no hospital. Fiz um monte de exames. Acho que nunca
descobriram o porqu daquelas convulses. Voltei pra casa tomando mais um remdio:
Gardenal. Mas at que foi bom, na primeira semana dormia o dia todo. S acordava pra
comer e tomar comprimidos. Dormir e esquecer que existia, era s isso que eu queria. E
acho que teria esquecido mesmo, no fosse meu pai tocando corneta todo dia no meu
quarto.

-- Taratatatat! Ateno, Brasil, est na hora de acordar! Ah, no vai ? Felipe, Felipe, vem
acordar essa ndia! -- Na hora do almoo: - Vamos comer, come, come! Quer que eu faa
aviozinho? Vai mais uma colherada, mais uma colherada, mais uma. Ateno, ela
engordou duzentos gramas!

O palhao chegou a colocar uma balana no meio da sala de visita. Eu tomava um gole de
suco e ele dizia:

-- Isso, sobe l pra eu ver se j aumentou. Vai, quero ver resultado! Olha, Felipe, a
maninha j engordou meio quilo! -- abaixava e beijava o co. Que famlia de doido!

Aos poucos fui me acostumando com os remdios, comia mais, tomava bastante lquido.
Falava sempre pelo telefone com o dr. Afeto e o dr. Anjo.

A Sylvia passou a vir me ver. Eu andava meio deprimida, acharam que um pouco de terapia
podia me ajudar. Ela j tinha ido me visitar duas vezes no hospital. Lembro que eu a
recebia na sala. Sentvamos nas poltronas, eu de frente pra janela, e ficava olhando os
imensos eucaliptos que balanavam conforme o vento e refletiam a luz do sol enquanto
conversvamos. Quando j estava melhor, perguntei:

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-- Se voc fosse eu, o que voc faria do resto de sua vida? Ela pensou um pouco:

- Eu ia passar esse tempo perto das pessoas de quem eu mais gostava.

No comeo achei aquilo meio estranho. Pensei que ela fosse me mandar estudar, trabalhar.
Mas, pensando bem, acho que tinha razo. No final,  isso mesmo que vale, as pessoas.

-- Quem so elas? -- ela me perguntou.

-- Meu pai, minha av...

-- S pessoas da sua famlia? Nenhum amigo? Amigos... por onde andavam meus amigos?
Comecei a ouvir o barulho da nossa baguna na escola, as nossas brincadeiras, nossas
brigas. Que falta que eu sentia deles. , a Sylvia tinha razo, os amigos so mesmo muito
importantes. Olhei pra ela sentada logo ali e sorri. Ela me sorriu de volta. Aquele sorriso
bonito, os olhos brilhantes... E olha um deles bem aqui na minha frente, pensei.

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17. Mos de tesoura

-- A Priscila j ligou duas vezes hoje. No sei mais que desculpa eu dou.

-- T bom, v. Eu vou ligar pra ela.

Eu j havia ligado uma vez do hospital, avisando que tinha chegado. Ela queria ir me
visitar. Eu disse que no, que esperasse eu voltar pra casa. Liguei ento e falei que ela podia
vir.

-- Val, que saudades! -- e me deu um puta abrao. -- T magrinha, amiga.

-- E a, Pri, tudo bom?

-- Que susto voc me deu. Chegou e foi direto pro hospital? O que voc teve?

-- Tuberculose renal.

-- Nossa, nem sabia que existia isso. Mas voc t melhor agora, n? E a viagem, como foi?

-- Maravilhosa!

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Contei um pouco pra ela. Ela me contou do novo emprego que tinha aceito. Agora era
auditora. Me contou tambm do resto da turma.

-- Mas me fala, como  que voc pegou tuberculose? Voc demorou tanto no hospital que
j achei que estivesse com AIDS -- ela disse isso rindo, como se fosse a coisa mais
impossvel do mundo.

Eu dei uma risadinha e fiquei olhando pra ela. Silncio.

-- Fala que  mentira, Val -- ela disse quase desesperada.

-- E se no fosse? Ela comeou a chorar.

-- No pode ser verdade! No pode!

-- Calma, Pri, no  o fim do mundo. Agora eu j estou bem -- e contei tudo a ela. Como
tinha sido, tudo que eu havia aprendido nos EUA.

-- Como  que voc agentou esse tempo todo sem contar pra ningum?

-- Sei l, agentando. Foi por isso que eu sumi.

- O resto do pessoal tem perguntado muito de voc. Esto preocupados.

- T pensando em chamar os mais chegados aqui e contar logo.

-- Voc quem sabe.

Uma semana depois, num sbado, a Pri voltou com a D, a ruiva, o Cris e a Lumpa.

-- Que saudades, moada!

-- E a, Val. Como foi de viagem?

-- Foi jia.

Mostrei a eles as fotos e contei tudo com detalhes. Os trs continuavam na faculdade. Me
contaram as ltimas novidades,

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as fofocas, do resto da turma, por onde andavam o Luiz, a Renata, a Gabi e a Man...
Ficamos lembrando dos tempos da escola, de toda a classe, dos professores, da baguna,
das festas...

-- Bons tempos aqueles, n? A gente era feliz e no sabia.

-- Vocs acreditam que hoje eu tenho saudades at das aulas de fsica?

-- Tambm no vamos exagerar!

-- E a, Pretinha, que histria  essa de tuberculose?

-- Pois , n.  por isso tambm que chamei vocs aqui. No estou s com tuberculose,
no.

A D, que estava sentada no cho na minha frente comeou a ficar branca. Desde a escola,
quando ficava nervosa, tinha esses piripaques. Segurei nela e dei uma sacudida.

-- D, no vai desmaiar. T com AIDS.

Ela apertou minha mo, fazendo fora pra no chorar. O Cris, pasmo, tentou segurar a pose
de mdico.

-- Bem, Val, tudo bem, a gente t aqui pro que der e vier.

-- Eu sabia -- disse a Lumpa. --- A Pri estava muito estranha desde que veio aqui. Na
formatura da Renata semana passada chorou a noite inteira.

- Pri!

-- Ah, Val, desculpa, mas eu no sou to forte pra segurar essas coisas.

-- O que voc andou aprontando nos EUA?

-- No andei aprontando nada l, dona Lumpa.

-- Ento foi com aquele pessoal do teatro. Esse povo bicho-grilo.

-- No  nada disso, Lumpa, pro seu governo foi com aquele namorado do colegial.

-- Aquele que voc conheceu no navio?

-- , sim, senhora.  at bom voc ficar sabendo pra ver se acorda e comea a se cuidar.

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-- , gente, tem que usar camisinha, tem que usar!

-- No acredito que vocs ainda continuam com esse papofurado. E usar que  bom, usam?
-- todos abaixaram a cabea. -- Olha, vocs tm que entender que camisinha foi feita pra
ser usada tambm com quem a gente gosta. Alis, essa palavra vem de camisa-de-vnus. E
Vnus  a deusa do amor, sabia?

Conversamos o resto da noite. Expliquei a eles que, apesar de ter ficado doente, no
significava necessariamente que eu estivesse morrendo. Eles me encheram de perguntas, se
eu estava me cuidando direito, quais remdios tomava.

-- Deve ser barra, n?

-- , D, no  fcil. Ainda mais nessa fase de recuperao, eu tenho que ficar em casa, 
um saco, no tem muita coisa pra fazer...

-- Por que voc no escreve?

-- Escrever o qu?

-- O livro. Lembra do HOMO livro?

--  mesmo, Val, voc ficou devendo um livro pra gente no colegial.

-- Ah, no acredito que vocs ainda se lembram dessa histria.

Ns ramos a turma do fundo. Andvamos sempre todos juntos, principalmente no
terceiro colegial. Foi o melhor ano, mas sabamos tambm que seria o ltimo, em breve
cada um iria para um lado, cursinho, faculdade. Mas fizemos um trato que seramos amigos
pra sempre. Mesmo depois de grandes.

-- Mais do que isso! Vamos escrever um livro da gente.

-- Isso, um livro! E quem vai escrever  voc, Val.

-- Eu?! Que  que eu tenho a ver com isso?

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-- Voc  a que escreve melhor aqui. S tira noto em redao. Voc vive dizendo que
adora escrever. Pronto, decidido, vai escrever, sim!

-- Ai, como vocs viajam. Vocs pensam que escrever um livro  fcil?

A D me puxou e me levou at a Ignz, nossa professora de literatura. Uma morena
baixinha, que segurava nossa classe como ningum. E teve a proeza de nos fazer, aos
dezesseis anos de idade, adorar Machado de Assis, com seus debates instigantes.

-- Ignz, o que a gente precisa fazer pra escrever um livro?

-- Precisa gostar de escrever. E escrever muito.

-- A Val vai ser escritora!

- D?! No  nada disso, viu Ignz, essa menina s fala besteira -- voltei pro meu lugar. --
Que coisa, Daniele, j falei que eu vou ser atriz e cineasta.

-- T bom, voc pode ser isso tambm, mas custa escrever um livro pra gente?

-- Ah, ? E eu iria escrever o qu? Contar o qu?

-- Contar da gente, oras!

--  isso a, Val, voc vai contar que a gente  muito amigo.

-- Ah, e vocs acham que a gente  to especial pra isso? Pra virar um livro?

-- Achamos! Achamos que a gente  o mximo!

Olhei pra todos ns sentados pelo cho da minha sala, juntos, seis anos depois. Realmente
ns ramos o mximo!

-- Ento, Pretinha, escreve. Ainda mais agora, depois que aconteceu tudo isso, voc deve
ter tanta coisa pra contar.

-- , at tenho... Vou pensar.

Eles continuaram vindo em casa sempre. Na semana seguinte, a R tambm veio e me deu
a maior fora. Nos fins

274
de semana, alugvamos filme, fazamos pipoca e a maior zona. Aos poucos comearam a
me levar pra sair. Um dia um teatro, outro dia um bar e depois at pra danar.

Durante a semana, cada um tinha que cuidar da sua vida, trabalho, faculdade, e eu ficava
aqui no tdio me sentindo sozinha, at que peguei um caderno e um lpis e comecei a
escrever, a escrever, a escrever... Escrevo, logo existo, era mais ou menos assim.

O final daquele ano no foi muito fcil. Foram nove meses de tratamento no posto de sade
(tuberculose  departamento do Estado), com o dr. Tuberculose, uma sumidade no assunto.
Fora isso ele era muito engraado. S ele e meu pai pra me fazerem rir naqueles dias. Eu
vivia dizendo que queria parar de tomar os remdios, que j estava boa, mas ele dizia que
no, pois o bacilo ficaria resistente e seria perigoso no s para mim como para todo o resto
da populao. At o trmino do tratamento, tive muitos efeitos colaterais. Perdi setenta por
cento da viso e do nervo do labirinto, aquele que nos d equilbrio. Passei meses andando
segurando pelas paredes e tive que parar um tempo de escrever. Mas, com um pouco de
pacincia, muito exerccio, apoio da famlia, amigos e mdicos, voltei ao normal. A vida
fica mais fcil quando se tem ajuda.

Em 1995, comecei a fazer parte de uma ONG, para pessoas que vivem com HIV/AIDS.
Participei de reunies, seminrios, manifestos, trabalho voluntrio. Conheci o outro lado da
AIDS. Lembro que, numa das primeiras vezes, levei um saco cheio de remdios que
sobraram do meu tratamento para a farmacinha de l. Um outro componente do grupo
recebeu a sacola admirado.

275
-- Puxa, voc  uma menina de sorte!

Sorte? Achei que ele estivesse brincando. No entendo como algum podia ter sorte se
estava doente e tinha que tomar tudo aquilo de remdio. Mas meu colega explicou:

--  que a maioria das pessoas daqui no tem dinheiro pra comprar nenhum comprimido.

Nesse grupo aprendi muito, troquei experincias e fiz vrios amigos. Alguns deles
continuam entre ns. Outros j se foram, mas, com certeza, me deixaram alguma coisa e
tambm fazem parte deste livro.

Em fevereiro de 1996, quando j estava totalmente boa, fiz outra viagem, dessa vez fui
mais longe, Austrlia. Passei um ms estudando e outro viajando por todo o pas. Conheci
outras culturas, escalei o Kings Canyon, no deserto, mergulhei na maior barreira de coral
do mundo, voei de pra-Mli e nadei em muitas praias de areia branca e gua azul-turquesa.
E, lgico, fiz muitos novos amigos.

Nesse mesmo ano, ganhamos na Justia a briga com o plano de sade, surgiram novos
remdios, novas esperanas e um exame que detecta a carga viral. Como a minha estava
muito alta (apesar dos CD4 estveis e eu me sentindo bem), meu mdico sugeriu que
comeasse com nova medicao. Foi difcil pra eu acostumar, passei por duas
combinaes, at chegar a uma que no me causasse tantos efeitos colaterais. Mas, de novo,
com muita pacincia... (desta vez, principalmente, do dr. Afeto!)

Maro de 1997. Consultrio do dr. Afeto. A secretria, desde os tempos que eu comecei a ir
l, me recebe toda alegre. Pede pra eu aguardar um pouquinho que ele j vai me chamar. Eu
sento e espero. L agora no tem mais aquele cctus

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seco e cheio de espinhos, talvez algum o tenha tirado de l, talvez nunca tenha existido.
Em seu lugar h uma folhagem verde e cheia de vida.

O dr. Anjo aparece por ali. Ele continua o anjo de sempre. Diz que est contente de me ver
to bem.

O dr. Afeto me chama, vou at sua sala. Ele me recebe sorrindo. Ultimamente ele est
sempre sorrindo. Entrego-lhe os exames, mas ele diz que antes quer saber de mim, e a gente
fica conversando. Quem te viu e quem te v! Finalmente ele l os resultados, CD4: 820,
carga viral: indetectvel. "Viu s como valeu a pena?" Ele faz a maior festa! E eu fico feliz.
Pelos exames? Tambm, mas principalmente porque agora tenho certeza: o dr. Afeto  um
amigo!

Quanto ao resto, continuo saindo sempre com meus amigos e visitando a famlia inteira,
viajando bastante, fazendo ginstica, natao, escrevendo, lendo, estudando, trabalhando
neste livro e finalmente descobri as maravilhas do sexo seguro com algum que me fez
sentir muito bem.

Ainda no se sabe o que acontecer com as novas drogas no futuro. Mas a verdade  que de
futuro nunca se soube nada. Carpe diem pra todo mundo!

Quanto ao preconceito, s vezes ainda me sinto como Edward mos de tesoura, preso em
seu castelo, fazendo obras de arte porque no h outro jeito com o qual possa tocar as
pessoas. Lembra-se desse filme? Mas quem sabe um dia todos ns aprenderemos e a cada
vez que conhecermos algum, seja ela ou ele, branco, preto, amarelo, vermelho, gordo,
magro, feio, bonito, judeu, muulmano, homossexual, alto, careca, gago, adotado, ano,
com AIDS, sem AIDS, rico, pobre, cabeludo, fanho, cego, corcunda, excepcional, vesgo,
inteligente, olhos puxados, olhos azuis, palestino, rabe, comunista, capitalista,
superdotado, hemoflico, bicho-grilo,

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inumervel, graduado, travesti, mstico, sen-terra, mexicano, americano, empregado,
patro, prostituta, enfermeira, mdico, padre, novo, velho, ateu, tatuado, com tuberculose,
com hansenass, com mos de tesouras, sem braos, surdo, paraplgico, mudo, ignorante...
nos lembraremos de que, antes de tudo isso,  apenas uma pessoa.

E melhor ainda ser se, depois de tudo isso, ainda pudermos ser amigos.

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Eplogo
Como essa vida  engraada, no  que acabei mesmo escrevendo um livro? Passei anos
estudando como se tirava personagens do papel e lhes dava vida e acabei fazendo o
contrrio: tirando personagens da vida e colocando-os no papel. Foi muito bom, melhor
ainda porque existirei aqui pra sempre, perto das pessoas que mais amo.

Agora, por favor, me coloque numa estante repleta de outras histrias, que eu no vejo a
hora de brincar de Teoria dos Livros. E se precisar, j sabe, estaremos sempre aqui
esperando por voc.

com muito carinho,

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